Como anuncia o texto curatorial afixado em uma das paredes da galeria Flexa, no Leblon, “esta mostra escolhe o verbo”. Sabe-se que, na Avenida e nas avenidas, por quase um mês inteiro, pessoas saem às ruas imbuídas de uma alegria eletrizante – expressa de muitas formas, mas sobretudo com samba. Os corpos, por esse pequeno período, são parte do espetáculo – eles articulam-se para brincar ao ritmo dos bumbos pesados em espaços que não foram necessariamente pensados para este fim. A curadoria de Daniela Avellar privilegia especialmente um exercício de intelectualidade que se ocupa dos carnavais e da maneira como diferentes populações e tempos os utilizam, com obras que operam em diferentes linguagens e épocas, de Di Cavalcanti a Hélio Oiticica, da beleza aplumada das porta-bandeiras à monstruosidade das máscaras. A mostra se sustenta, portanto, dessa pluralidade, desses radicais – que, por uma coincidência que não parece gratuita, se encarregam de encampar a celebração de uma festa suburbana no metro quadrado mais caro do país, encarnando o espírito de desordem que toma conta dos povos da rua. Mal ou bem, esses radicais inseridos nesse contexto tornam o passeio ainda mais interessante e crítico, dependendo dos olhos de quem vê. A variedade de tempos e espaços é levada às últimas consequências na obra Rua dos Inválidos, de Edu de Barros. Seu trabalho costuma se apropriar de tapeçarias antigas, que representam cenas de séculos atrás; Barros faz intervenções chamativas nas incursões pacatas daqueles personagens – homens urinando em chafarizes, vendedores ambulantes, mulheres escalando árvores e por aí vai. O grande êxito da exposição Carnavalizar: método e invenção é reforçar um caráter permanentemente contemporâneo do carnaval – sempre há espaço para mais perspectivas do que é a festa. Ressalta também que ele nunca está dissociado da política (racial, de gênero, de ruas). Avellar projeta, como enuncia o título, a matemática do jogo, seus métodos. É difícil saber quais são eles, afinal há muitos jeitos de carnavalizar. |
Depois de assistir a Os anos novos, todas as outras séries e filmes de amor recentes parecem ter sido escritas pelo ChatGPT. Disponível no Brasil pela plataforma Mubi, a série documenta, em dez episódios, a relação de dois jovens madrilenhos, Ana e Óscar, ao longo de uma década. No primeiro capítulo, Ana (interpretada por Iria del Río) é uma bartender comemorando 30 anos. Seu aniversário é em 1º de janeiro. Numa festa depois do expediente, ela conhece Óscar (Francesco Carril), um jovem estudante de medicina que faz aniversário em 31 de dezembro. Os dois têm aquele tipo de primeiro encontro apaixonado, regado a álcool, que pode resultar em algo ou em nada. Cada um dos próximos nove episódios é ambientado na véspera de Ano-Novo, e dessa forma a série acompanha a evolução, ano a ano, do romance de Óscar e Ana. Por mais profunda que seja a conexão entre eles, Óscar e Ana nunca se encaixam perfeitamente. Há os altos e baixos da vida: ela quer aventura, ele quer estabilidade. Na maior parte do tempo, o que esperam um do outro é o oposto do que recebem. Vamos descobrindo que, ano após ano, as pessoas em volta do casal mantêm tradições, como comer uvas à meia-noite do Réveillon, mas todos estão mudando, naturalmente. Um amigo que primeiro apareceu feliz com a esposa e o primeiro filho surge, episódios depois, tratando o vício em cocaína numa clínica de reabilitação. Ao longo do caminho, há muito sexo: explícito, desajeitado, engraçado, apaixonado. Criada por Sara Cano, Paula Fabra, e Rodrigo Sorogoyen, o trunfo da direção da série – que, além de Sorogoyen, tem David Martín de Los Santos e Sandra Romero como diretores – está nas cenas de intimidade do casal na cama e nos encontros deles com a família e os amigos. É o retrato fidedigno de um amor que, às vezes para a infelicidade do casal, parece capaz de resistir a qualquer circunstância. |
Nos últimos dez anos, Chloé Zhao se firmou como uma das forças mais instigantes do cinema americano. Dirigiu o indomável Songs My Brothers Taught Me (2015), sobre jovens indígenas norte-americanos, e o humanista e melancólico Nomadland (2020), vencedor do Oscar de melhor filme em 2021. Em 2026, a diretora retorna à premiação com Hamnet, indicado a oito categorias, incluindo melhor filme. O ponto de partida é histórico, ainda que nebuloso, como muita coisa é na biografia de William Shakespeare. Ele foi casado com Agnes e teve três filhos: Susanna e os gêmeos Judith e Hamnet. O menino morre em 1596. Por volta de 1600, Shakespeare escreve Hamlet. Na Inglaterra elisabetana, Hamlet e Hamnet eram variações do mesmo nome. Daí surgiram teorias, nunca comprovadas, de que a tragédia teria sido escrita como resposta ao luto do autor. Uma das recriações mais conhecidas dessa hipótese é o romance no qual o filme é baseado – Hamnet, escrito por Maggie O’Farrell e publicado em 2020. Mas Zhao não repete aqui o estilo arrojado e rebelde de filmar que a consagrou. Hamnet é formal, talvez formal demais. A primeira metade é arrastada, previsível, pouco desafiadora. Acompanhamos o início da relação e o casamento de Shakespeare e Agnes, sugeridos como pertencentes a famílias que desaprovavam a união (elemento puramente ficcional, sem comprovação histórica). Ainda assim, essa parte constrói o ambiente doméstico de afeto que dará peso ao que vem depois. Hamnet morre de maneira funesta. Devastado, Shakespeare se afasta de Stratford-upon-Avon e se refugia em Londres, onde prepara uma nova peça. O filme encosta num clichê inevitável: o artista que transforma dor em arte. Mas a tensão cresce. O drama finalmente ganha corpo. Ao descobrir que o marido encena uma peça chamada Hamlet, Agnes vai a Londres e entra no Globe Theatre durante a apresentação. O que acontece ali é belíssimo. A originalidade de Zhao reaparece desafiadora. Melhor não descrever em detalhes para não estragar a experiência. Mas imagine entrar num teatro e ver sua tragédia íntima encenada no palco, com um jovem ator dando vida a um personagem com o nome de seu filho morto. Impactante, comovente e terrível. A sequência, conduzida com precisão e sustentada pela atriz Jessie Buckley e o ator Paul Mescal, arrepia e compensa a morosidade inicial. |
Hilda Hilst era uma grande admiradora do escritor mato-grossense Ricardo Guilherme Dicke, a quem colocava no mesmo nível de outros grandes romancistas brasileiros do século XX, como Guimarães Rosa e Clarice Lispector. Ao contrário desses pares, e apesar de uma carreira relativamente prolífica, Dicke morreu em 2008, meio esquecido em seu estado natal. A “oleosidade fascinante” de sua prosa – como Hilst certa vez a definiu – e a riqueza verbal com que descrevia o mundo ostensivamente árido de jagunços e do interior mato-grossense pareciam fadados à apreciação de um público restrito. Mas desde o relançamento em 2024 de seu romance Madona dos Páramos, publicado originalmente em 1982, a obra de Dicke tem voltado a circular. Na edição de março, a piauí publica Música de mortos suaves, um conto inédito do escritor, que faz parte e dá título a uma coletânea de contos a ser publicada no fim deste mês pela Record. |
Enviado por Revista Piauí |
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