Neste drama argentino (que, pasmem, não tem o Ricardo Darín), a atriz uruguaia Natalia Oreiro interpreta uma mãe de classe média cujo filho, de apenas 18 anos, é detido e levado à prisão após a acusação de ter participado em um assalto. Baseado na história real de Andrea Casamento, uma viúva com três filhos cuja vida vira do avesso quando o mais velho é encarcerado, o filme, que está disponível na Netflix, foi rodado na penitenciária de Ezeiza, em Buenos Aires, e conta com a participação de várias mulheres parentes de detentos, o que lhe confere uma dose extra de dureza e legitimidade. A trama acompanha a transformação de Andrea, da incredulidade e desespero iniciais (“isso não pode estar acontecendo comigo, eu venho de outro lugar”), à compreensão do que vivenciam muitas outras mulheres que tentam ajudar seus filhos e maridos atrás das grades: as longas filas, as humilhações durante as revistas, a imensa burocracia. Ao atravessar esse percurso, sua visão, de início marcada por distanciamento e preconceito, vai se modificando. Sem excesso ou melodrama, a atuação de Natalia Oreiro capta com destreza essas múltiplas reações da mãe depois da ruptura que esse evento provoca na vida familiar: negação, impotência, culpa, vergonha, receio perante os outros e finalmente solidariedade e empatia. E dessa solidariedade e empatia nasce a necessidade de trabalhar pelos direitos de presidiários e seus familiares. Na vida real, Andrea Casamento fundou em 2008 a Associação Civil de Familiares de Detidos (ACiFaD) e se tornou ativista. Seu trabalho joga luz sobre o esforço e a resiliência de inúmeras mulheres que se movem em um ambiente onde os maus tratos, o estigma social, a burocracia e a injustiça falam mais alto do que a prometida ressocialização. As mulheres da associação que aparecem no filme também, são, de fato, integrantes da entidade, não são atrizes. Foram suas histórias e testemunhos que deram a Natalia Oreiro a matéria-prima para compor seu papel. |
O canadense Mac DeMarco é uma figura improvável numa era musical dominada por algoritmos. As características do indie rock que ele produz – os arranjos simples, a guitarra e os sintetizadores mesclando-se num borrão onírico – parecem evocar outro momento histórico, menos cínico e apelativo. De forma similar a alguns de seus contemporâneos – o inglês James Blake, ou a popstar americana Billie Eilish – há nas melodias agridoces de DeMarco uma espécie de paradoxo, como se o artista estivesse captando o zeitgeist e ao mesmo tempo o lamentando. Suas canções manifestam uma nostalgia sofisticada, e sua fama global só se explica quando se assume que há ouvintes suficientes no mundo com essa mesma sensação. Alguns dos pares indies da geração de DeMarco com o tempo partiram da voz e violão crus para incorporar cada vez mais instrumentos e colaborações com outros artistas pop do mainstream. Em Guitar, seu álbum mais recente, lançado no segundo semestre de 2025, DeMarco parece seguir o caminho inverso. É talvez seu trabalho mais minimalista – ele tocou todos os instrumentos e lançou o disco no próprio selo, e a sensação é a de que se está ouvindo o artista em seu quarto, compondo de chinelos, sua guitarra plugada num amplificador modesto e empoeirado. O disco destila a essência do músico, com destaque para as canções Shining, Terror, e a ironicamente calminha Rock and Roll, cantada em falsete e tocada num dedilhado de guitarra desidratado que se aproxima, no final, ao gênero homenageado no título da canção. O falsete está em voga, promovido por artistas indies variados, de Bon Iver a Tame Impala. Talvez o uso quase indiscriminado desse agudo esteja ligado ao estado de suspensão que ele provê – esse seu potencial escapista, de alterar o plano da voz momentaneamente até ela voltar a seu estado mais natural. Guitar, que é quase todo cantado em falsete, tenta prorrogar esse estado de suspensão indefinidamente. DeMarco estará em turnê pelo Brasil ao longo de abril, passando por Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Recife, Belo Horizonte, Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre. |
Em uma estrada escura, um homem atropela um cachorro. Sua esposa e filha também estão no carro. Ele para, checa se o incidente danificou o automóvel e continua a dirigir. Pouco depois, o veículo engasga e morre. Alguns metros à frente, há uma oficina aberta. Lá dentro, um mecânico, que se chama Vahid, fala ao telefone com sua mãe e presta pouca atenção ao que acontece no andar de baixo, até que ouve um som perturbador: o barulho da perna protética do motorista raspando o chão enquanto se aproxima. É o mesmo som do algoz que o torturava na época em que foi preso pelo governo iraniano. Assim começa o filme Foi apenas um acidente, do cineasta Jafar Panahi. O filme é um road movie com ares de comédia, mas também uma grande crônica política, filmado no Irã sem a autorização do governo (com equipes e equipamentos reduzidos, pensados justamente para escapar dos olhos da polícia). Vem em bom tempo, visto que, conforme a agência Reuters noticiou no dia 18 de janeiro, cerca de 5 mil pessoas foram assassinadas pelo governo teocrático do país desde a eclosão, em dezembro de 2025, de uma série de manifestações em resposta a uma crise econômica e uma insatisfação generalizada com o regime. Panahi, que viaja com frequência em razão de seus filmes mas segue vivendo no Irã, foi condenado por propaganda contra o Estado. Enquanto os aiatolás não gostaram do longa, o mundo vem numa maratona contrária: o filme já venceu uma série de prêmios, incluindo a Palma de Ouro no Festival de Cannes, no ano passado. Poucos são os cineastas que encontram o tom certo em gêneros que mesclam humor e tragédia: é até perigoso tratar de temas como esse com a leveza da qual o roteiro dispõe. Trata-se de uma aventura por Teerã e seus subúrbios, feito por um grupo de pessoas que matutaram, mesmo que de jeitos inconscientes, uma espécie de vingança em resposta à repressão. |
Desde que se alinhou politicamente a Donald Trump, depois do resultado da eleição americana de 2024, Mark Zuckerberg, o CEO da Meta, tem buscado inspiração nas civilizações grega e romana para dar lastro à sua suposta conversão a uma masculinidade mais assertiva. Em 2024, o bilionário lançou uma linha de camisetas em parceria com o estilista Mike Amiri, em que as peças vinham estampadas com frases célebres em latim (uma das estampas era uma adaptação de Aut Caesar, aut nihil – Ou César, ou nada – para Aut Zuck, aut nihil – Ou Zuck, ou nada). Em agosto do mesmo ano, inspirando-se numa tradição romana, Zuckerberg presenteou a mulher, Priscilla Chan, com uma enorme estátua em que a pediatra posa como deusa. Na edição de janeiro da piauí, o jornalista Victor Calcagno explora a obsessão de Mark Zuckerberg com a antiguidade, e mostra como sua irmã, a classicista Donna Zuckerberg, anos antes destrinchou a vulgarização da cultura greco-romana pela extrema direita – fenômeno que seu irmão viria logo a personificar. |
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