Estudos sobre mudanças climáticas indicam que, até 2070, o Nordeste pode perder mais da metade das áreas adequadas ao cultivo do caju, símbolo econômico e cultural do semiárido brasileiro, em decorrência da continuidade do aquecimento global.
O caju é mais do que uma fruta. No Nordeste, ele representa renda, identidade cultural e permanência no campo. Em algumas localidades do sertão, a cadeia produtiva do caju responde por cerca de 40% da renda mensal das famílias, evidenciando sua relevância econômica e social em contextos de elevada vulnerabilidade produtiva. Entretanto essa realidade pode mudar rapidamente com o avanço das mudanças climáticas.
Simulações climáticas recentes indicam que o aquecimento global tende a reduzir de forma significativa as áreas onde o cajueiro consegue sobreviver e produzir no semiárido brasileiro. Hoje, cerca de 18 milhões de hectares ainda apresentam condições favoráveis ao cultivo. No entanto, esse cenário começa a se estreitar nas próximas décadas.
As projeções com os cenários SSPs (Shared Socioeconomic Pathways) mostram que, até 2050, mesmo em um cenário intermediário de aquecimento, o Nordeste pode perder cerca de 36% dessas áreas adequadas. No cenário mais extremo, projetado para 2070, a redução pode chegar a 58%, concentrando as áreas aptas para o litoral do Nordeste. Em outras palavras: mais da metade das áreas hoje aptas ao cultivo do caju pode deixar de sê-lo em menos de 50 anos.
O principal fator por trás dessa transformação é a combinação entre o aumento da temperatura global, a intensificação de secas severas e a redução significativa das chuvas. As projeções indicam uma diminuição média de 100 a 150 milímetros de precipitação por ano nas regiões produtoras. Pode parecer pouco, mas em áreas já marcadas pela escassez hídrica, essa diferença é suficiente para comprometer a produtividade agrícola e acelerar processos de aridificação.
Aridificação não significa apenas a redução das chuvas. Trata-se de um processo climático mais complexo, marcado pelo aumento da evaporação, pelo ressecamento dos solos, pela perda progressiva de umidade e pela maior dificuldade das plantas em completar seus ciclos de crescimento e produção. No semiárido, onde as chuvas já são escassas, irregulares e concentradas em poucos meses do ano, qualquer diminuição adicional intensifica o risco de perdas agrícolas, compromete a segurança econômica das famílias rurais e amplia a vulnerabilidade dos sistemas produtivos.
E esse futuro não é apenas uma projeção distante. Dados observacionais mostram que o Nordeste já enfrenta reduções expressivas nos volumes anuais de chuva. Em cidades como Cipó, na Bahia, Parnaíba, no Piauí, e Aracaju, em Sergipe, foram registradas quedas acumuladas superiores a 500 milímetros em séries históricas da precipitação anual. Esses números revelam que o sistema climático da região já está respondendo às mudanças globais, processo que também é intensificado pelo desmatamento da Caatinga.
A cadeia produtiva do caju é altamente concentrada no Nordeste, responsável por quase toda a produção nacional. Qualquer impacto sobre essa cultura se reflete diretamente na geração de emprego, na renda de pequenos produtores e na dinâmica econômica de municípios inteiros. A redução das áreas adequadas ao cultivo pode intensificar o êxodo rural, aumentar a vulnerabilidade social e aprofundar desigualdades regionais.
Diante desse cenário, a adaptação deixa de ser uma opção e passa a ser uma necessidade urgente. Investimentos em genótipos mais resistentes à seca, manejo eficiente da água, diversificação produtiva e políticas públicas baseadas em informações climáticas são fundamentais para reduzir riscos. Planejar a agricultura do futuro exige integrar ciência, território e decisões políticas, além de avançar na restauração da Caatinga.
O caju sempre foi símbolo de resiliência no semiárido. Mas, diante de um clima em rápida transformação, sua permanência dependerá da capacidade do país de antecipar riscos e agir agora. O futuro do caju no Nordeste é, em última instância, um retrato do desafio maior que o Brasil enfrenta: produzir, proteger e se adaptar em um planeta cada vez mais quente e desigual.