 | Reprodução/Dietary Guidelines for Americans |
| A nova pirâmide alimentar dos EUA: o que muda e por que isso importa |
| | No dia 7 de janeiro deste ano, os Estados Unidos publicaram uma nova edição de suas diretrizes alimentares (Dietary Guidelines for Americans, ou DGA). O documento chamou atenção por um movimento simbólico: a antiga pirâmide alimentar dos anos 1990, literalmente, virou de cabeça para baixo. Mais do que uma mudança gráfica na ilustração do guia, trata-se de uma revisão profunda das recomendações nutricionais, que passam a priorizar alimentos in natura, como carnes, laticínios, frutas e vegetais variados. Você pode estar se perguntando: alguém lê essas diretrizes? À primeira vista, esse pode parecer um tema distante da nossa realidade, mas é importante considerar que, historicamente, as diretrizes americanas influenciam as políticas públicas internacionais, a legislação de rotulagem que é seguida pela indústria de alimentos, os programas hospitalares, escolares e de outras instituições. O novo guia já está provocando debates e, com o tempo, pode influenciar de alguma forma as recomendações brasileiras, hoje consolidadas no Guia Alimentar. Vale ressaltar que o guia brasileiro, em 2014, estabeleceu a definição de alimentos ultraprocessados, termo que vem sendo mundialmente reconhecido e agora foi adotado oficialmente pelo DGA. |
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Um ponto de encontro: "comida de verdade" |
| Quando comparamos as diretrizes americanas com o Guia Alimentar para a População Brasileira, o que mais chama atenção não são as diferenças, mas a convergência. Os documentos caminham na mesma direção: menos produtos industrializados e mais comida fresca. O DGA se apropria do termo "comida de verdade", consagrado pelo uso popular para descrever alimentos na forma como ocorrem na natureza. Essa terminologia, no entanto, é alvo de questionamentos, especialmente por parte da indústria alimentícia, que alega ser pejorativo estigmatizar, por contraste, a comida produzida em fábricas como "comida de mentira". Há também críticas de que se trata de um conceito elitista, já que populações de baixa renda muitas vezes não têm acesso regular a alimentos frescos, nem tempo para cozinhar em casa. O guia brasileiro, por sua vez, é baseado no grau de processamento. Nele, o termo "in natura" é utilizado para descrever os alimentos em seu estado original, e os "minimamente processados" são os que passaram por intervenções simples, como desidratação, moagem, cozimento, higienização ou tratamento térmico. Mesmo partindo de metodologias distintas, os dois guias reconhecem que a base da alimentação saudável deve ser composta por alimentos em sua forma mais natural possível, preparados em casa, com o mínimo de interferência industrial. Confira alguns destaques: - Prioridade aos alimentos in natura ou minimamente processados - "comida de verdade": frutas, legumes, verduras, ovos, carnes, peixes e laticínios integrais são apontados como protagonistas, não como coadjuvantes.
- Proteínas: enquanto o guia brasileiro dá menos ênfase à carne vermelha, o americano a inclui como prioridade, juntamente com as demais fontes de proteínas animais (ovos, frango, peixes) e vegetais (leguminosas, como lentilhas, ervilhas e soja). Segundo o DGA, as fontes de proteínas devem ser incluídas em todas as refeições, para atingir entre 1,2 g a 1,6 g do nutriente por quilo de peso corporal por dia - um aumento considerável se comparado com as diretrizes anteriores e até mesmo com as brasileiras. Esse alvo foi criticado por algumas entidades, pois ultrapassa o recomendado pela OMS (Organização Mundial da Saúde), que é de 0,8 g/kg/dia. No entanto, a recomendação da OMS tem como objetivo evitar a desnutrição, já o novo DGA visa a recuperar a saúde ao melhorar a densidade nutricional da dieta. Nesse sentido, é uma boa ideia aumentar o consumo de proteínas provenientes de fontes naturais.
- Grãos e derivados de farinhas refinadas: ambas as diretrizes recomendam evitar os grãos refinados. Em relação aos integrais, o guia brasileiro os inclui na base da alimentação, considerando positivo o seu conteúdo de fibras. Em contraste, na nova pirâmide do DGA, todos os grãos e seus derivados aparecem em menor proporção, com limite máximo de quatro porções diárias. A justificativa é sua baixa densidade nutricional quando comparados aos vegetais que compõem a base da nova pirâmide norte-americana, os quais fornecem proporcionalmente muito mais fibras do que os grãos, com menos calorias e menor impacto glicêmico.
- Redução drástica dos ultraprocessados: ambos os documentos recomendam que produtos formulados com aditivos, açúcares, farinhas refinadas e óleos industriais sejam evitados na rotina - não apenas "consumidos com moderação". O DGA é ainda mais enfático nesse ponto, excluindo todos esses alimentos da pirâmide.
- Menos açúcar: embora os dois guias recomendem limitar o consumo de açúcares adicionados, o brasileiro considera o açúcar como um ingrediente culinário que pode ser usado em pequenas quantidades. Já o DGA estabelece que nenhuma quantidade de açúcar adicionado é recomendada em uma dieta saudável, estipulando um limite máximo de 10 gramas por refeição, caso seja consumido. Ambos os guias desaconselham o uso de adoçantes. Essa recomendação, no entanto, baseia-se sobretudo em estudos observacionais, que não permitem estabelecer uma relação causal. Nos experimentos em humanos, a substituição de açúcar por adoçantes não calóricos resulta em desfechos positivos, como emagrecimento e melhora do diabetes.
- Menos refrigerantes e sucos de frutas, mais água como bebida padrão: nos dois documentos, recomenda-se evitar refrigerantes, sucos industrializados e bebidas adoçadas, incentivando-se o consumo de água. O DGA vai além, limitando os sucos 100% fruta, que devem ser diluídos em água.
- Laticínios integrais e gorduras: o guia dos EUA passa a recomendar laticínios integrais em vez de desnatados, e o uso de gorduras naturais, como azeite de oliva, incluindo as de origem animal, como manteiga. Já o guia brasileiro aconselha laticínios desnatados, com o objetivo de reduzir a ingestão de gorduras saturadas, e classifica óleos vegetais e gorduras em geral como ingredientes culinários, para uso moderado.
- Sódio: enquanto o brasileiro adota uma abordagem qualitativa, considerando o sal como ingrediente culinário, o dos EUA estabelece limites quantitativos. Em ambos os casos, recomenda-se moderação.
De modo geral, as novas diretrizes dos EUA são positivas e convergem com o Guia Alimentar para a População Brasileira, reforçando a mensagem de que, para fazer boas escolhas alimentares, a simplicidade é o caminho. A inovação do DGA é a ênfase no aumento da densidade nutricional em detrimento das chamadas "calorias vazias", sobretudo na forma de carboidratos refinados e açúcares. De acordo com o médico José Carlos Souto, autor do best-seller "Uma Dieta Além da Moda": "Dezenas de ensaios clínicos realizados em humanos demonstram que dietas nesses moldes favorecem a perda de peso e a melhora de doenças metabólicas, como diabetes e gordura no fígado. Considerando que apenas 12% dos adultos nos EUA são metabolicamente saudáveis, as novas diretrizes são mais adequadas que as antigas, pois têm potencial não apenas de prevenir, mas também de tratar essas condições." Como venho alertando no Guia do Supermercado, os produtos "fit" são cheios de armadilhas: prometem benefícios que nem sempre se concretizam. Já a comida fresca, embora menos atrativa e menos conveniente do que os ultraprocessados, é verdadeiramente saudável, rica em nutrientes - e nem precisa de rótulo. |
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