A cada dia, fica mais fácil de abrir um aplicativo de viagens de carro e solicitar um veículo sem motorista, que te leva ao destino final.
São os carros autônomos de apps como Uber e Waymo, que começaram nos Estados Unidos, mas já chegaram à China, Europa e Oriente Médio. Segundo uma estimativa do Goldman Sachs, a frota desses veículos, inclusive, deve passar de 5 mil, no ano passado, para cerca de 14 mil nesse ano.
É um número que, para alguns, pode indicar que a fase de testes desses serviços está acabando. Mas, à medida que os 'robotáxis' se popularizam, também aumentam os transtornos incomuns que eles causam.
Caos na China
Exemplo disso aconteceu no último 31 de março, em Wuhan, na China. Lá, cerca de 200 veículos compõem a frota de táxis autônomos do Baidu, e todos 'saíram do ar' simultaneamente quando uma falha interna atingiu os softwares da empresa.
Sem conexão à central, os carro simplesmente se desligaram e ficaram parados. De acordo com informações da Reuters, houve carros 'congelados' em vias de alta velocidade, passageiros presos por até 2h dentro dos veículos e pelo menos três colisões.
Diante do incidente grave, o governo chinês tomou uma decisão firme: suspendeu a emissão de novas autorizações para veículos autônomos de nível 4. Isso impede empresas de ampliar frotas, lançar novos projetos ou entrar em novas cidades enquanto a situação é apurada.
Além disso, as operações já existentes passaram a ser submetidas a uma auditoria mais firme sobre seus códigos, mecanismos de segurança e modelo de operação.
Problemas nos EUA
O incidente chinês chamou atenção pela escala, mas eventos insólitos já vêm ocorrendo com frequência nos EUA, onde o uso desses veículos já ocorre há mais tempo.
A maioria se concentra na 'capital' dos carros autônomos, São Francisco: os habitantes da cidade na Califórnia até se divertem, por exemplo, com casos dos Waymo que, durante a noite, começam a buzinar um para o outro sem parar.
Outros incidentes comuns são de passageiros que levam bagagens e, ao desembarcarem, veem o carro partir sem que haja tempo de abrir o porta-malas.
Mais sérios, entretanto, são casos como o do veículo da Cruise que bloqueou a saída de ambulâncias na proximidade de um hospital durante uma emergência, ou os relatos de policiais que abordam carros que cometem infração em flagrante, mas não têm motoristas para receber as multas.
Entre outros casos, também registraram-se batidas desses veículos com ônibus escolares, atropelamentos de pedestres e colisões com canteiros de obras — sempre com dificuldades para se apontar um responsável.
E no Brasil?
Enquanto isso, no Brasil, empresas já vêm desenvolvendo projetos nacionais de automação veicular. É o caso da Lume Robotics, que criou caminhões sem motorista que operam desde 2023 dentro da fábrica da Ypê, em Amparo (SP).
Nas ruas, porém, a presença do motorista segue obrigatória. Isso porque o Código de Trânsito Brasileiro continua estruturado em torno da figura do condutor humano, e as regras específicas para veículos autônomos ainda dependem de aprovação legislativa e regulamentação infralegal.
Uma tentativa de mudar isso é o projeto de lei do deputado Alberto Fraga (PL), que altera o CTB para regulamentar veículos autônomos terrestres. A proposta encontra-se em tramitação na Câmara, e traz as primeiras diretrizes para uma operação segura da tecnologia.
Entre outras coisas, a lei exige seguro obrigatório cobrindo tais veículos e um cadastro nacional de registro de incidentes e acidentes dessa frota. Não há, entretanto, muita clareza quanto aos níveis de automação, a necessidade de operador humano observando o carro ou as regras quanto às zonas de circulação dos 'robotáxis'.
São aspectos destacados pela edição mais recente do Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito: o Pnatrans reconhece que os veículos autônomos até podem reduzir os sinistros nas vias brasileiras, desde que operados corretamente.
As boas práticas, segundo o documento, passam por educar a população acerca de como lidar com carros sem motorista, 'encorpar' futuras leis sobre o tema e ir aos poucos, permitindo níveis graduais de automação nas ruas.
No cronograma estimado pelo Ministério dos Transportes, passos mais concretos nesse sentido serão dados a partir do ano que vem, com a existência de veículos sem motoristas nas ruas brasileiras sendo possível, provavelmente, por volta de 2028.
Até lá, é preciso que os legisladores preencham todas as lacunas, a fim de reduzir, ao máximo, as dúvidas quanto ao que fazer quando, inevitavelmente, os carros autônomos provocarem suas confusões aqui.