Ainda há muito a esclarecer sobre o financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro, estrelada pelo ator norte-americano Jim Caviezel, dirigido por Cyrus Nowrasteh e com estreia prevista para setembro de 2026. Flávio Bolsonaro, senador, presidenciável e filho de Jair, diz que buscou captar os US$ 24 milhões previstos para a produção da película junto ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, liquidado em 2025 em meio a acusações de fraudes bilionárias. Cerca de US$ 12 milhões teriam sido arrecadados. Mas Flávio só admitiu tal pedido depois que o áudio em que ele chama o banqueiro de "irmão" foi tornado público pelo site Intercept Brasil. Desde então, Flávio disse que havia um contrato formal com Vorcaro para financiar o filme, com cláusula de confidencialidade que o impediria de mencionar a existência do acordo. E que um fundo no Texas em nome de um advogado de imigração ligado ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro foi usado para movimentar valores para o filme. Aliados de Eduardo negam, porém, que houvesse contrato com Vorcaro e dizem que o fundo do Texas foi criado para o filme, sem que o ex-deputado pudesse acessá-lo. Os documentos da Secretaria Estadual do Texas, no entanto, contradizem tal versão, já que registram que o fundo foi criado em dezembro de 2020, ainda durante o governo de Jair Bolsonaro, muito antes de o filme ser um projeto. O próprio Eduardo constava em um contrato firmado há mais de dois anos como produtor executivo do filme, o que ele diz que não se concretizou. Segundo Eduardo, ele próprio colocou US$ 50 mil no filme como um aporte inicial para garantir a disponibilidade do diretor —dinheiro que mais tarde ele teria reavido, "sem correção". Nem a família Bolsonaro, nem o produtor executivo do filme (e deputado federal) Mário Frias, nem a produtora Go Up Entertainment apresentaram qualquer documentação para comprovar o que dizem, até agora. Dark Horse é uma produção típica do nicho cinematográfico de direita, que tem crescido em proporção semelhante à quantidade de polêmicas que suas produções conseguem gerar antes mesmo da estreia nos cinemas e streamings. Foi o que aconteceu este ano com Melania, o documentário biográfico sobre a primeira-dama dos EUA que custou US$ 75 milhões (entre licenças, produção e marketing) à Amazon. A cifra, considerada muito alta mesmo para os padrões de produção no país, chamou a atenção na imprensa norte-americana e levantou questionamentos sobre até onde o bilionário Jeff Bezos, dono da Amazon, estaria disposto a ir para cair nas graças da Casa Branca. As estimativas apontam que o documentário não chegou a recuperar nem metade do que foi gasto em sua produção e promoção, considerando as receitas obtidas nos EUA e no restante do mundo. Com Dark Horse, o interesse teria sido o oposto, segundo aliados de Eduardo —usar o fundo do Texas para ocultar os reais investidores do filme sobre Jair, já que "eles teriam medo de sofrer perseguição no Brasil". Mas a política não se restringe apenas ao financiamento ou ao enredo dos filmes, como mostram os bastidores de Melania. Um dos co-produtores do filme foi o venezuelano Maximilian Sánchez Arveláiz, que atuou como embaixador e alto funcionário durante os governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro. Durante as filmagens, Arveláiz teria usado a oportunidade para fazer chegar a Melania recados da gestão Maduro, então em tensão com o governo Trump, segundo o relato sob reserva de um diplomata norte-americano que atuou na Venezuela apenas meses antes da retirada de Maduro do país pelos EUA, em janeiro deste ano. O ator Jim Caviezel, católico fervoroso e veterano em filmes para audiências de direita, é o protagonista da mais bem-sucedida empreitada do tipo. O Som da Liberdade, de 2023, custou US$ 15 milhões, mas rendeu estimados US$ 250 milhões. Entre os motivos do sucesso do filme estão as compras dos ingressos para salas inteiras por líderes religiosos, nos EUA, que se lançaram a apoiar a película sobre um agente público que desmantela uma rede de tráfico e abuso sexual infantil na Colômbia. Ao promover o filme, Caviezel deu declarações entendidas como slogans do movimento conspiracionista Q-Anon, que argumenta que o presidente Donald Trump trava uma batalha para tentar salvar os EUA e o mundo de uma elite global pedófila, corrupta e exploradora. Estudiosos de mídia dizem que a estratégia do filme é vista como exemplar do que a direita americana tem tentado fazer: disputar narrativas e popularizar suas perspectivas junto a um público mais amplo. Ou, como definiu um aliado de Bolsonaro, "o filme é puro Olavo de Carvalho", citando o ideólogo bolsonarista da guerra cultural no Brasil. Sobre a possibilidade de corrupção entre a elite bancária e política no financiamento do filme que ele estrela sobre Jair, Caviezel nada disse até agora. No áudio de Flávio a Vorcaro, o senador descreve a possibilidade de calote nos pagamentos de Caviezel e o risco de que o ator abandone o projeto. Nem Caviezel, nem o diretor Cyrus Nowrasteh, ambos procurados por mim, se pronunciaram sobre o assunto até o fechamento desse texto. Pouco depois da condenação de Bolsonaro pelo STF a mais de 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado, entre outros crimes, Caviezel fez um raro comentário público sobre o ex-presidente.
"Orem comigo pelo nosso irmão Jair e sua família", pediu a seus seguidores. |