 | Funcionários da Tractian, empresa que desenvolve software e sensor pra prever falhas industriais | Divulgação/Tractian |
| Startup une IA a 'sexto sentido' de morcegos e projeta faturar R$ 600 mi |
|  | Helton Simões Gomes |
| Gabriel Lameirinhas, Igor Marinelli e Leonardo Vieira cansaram de ver familiares saírem no meio do jantar para consertar máquinas nas fábricas onde trabalhavam. A experiência plantou no trio uma ideia: havia ali um problema a ser solucionado. Quando foram mordidos pelo bicho do empreendedorismo, não tiveram dúvida. Nasceu a Tractian. Longe de lidar só com a angústia pontual de especialistas em manutenção forçados a correr para o trabalho quando a linha de produção para, a startup brasileira ataca uma adversidade global, já que US$ 1,4 trilhão é perdido anualmente com interrupções não planejadas na indústria. Na prática, ela automatiza a detecção de avarias em máquinas industriais. Mas agora a empresa dá um passo além. Para defeitos nem chegarem a surgir, vai avisar com antecedência o momento em que motores, compressores e ventiladores precisam passar por manutenção. A mágica ficará a cargo de um sensor, legítimo representante da Internet das Coisas. Mas, por trás do aparelhinho que cabe na palma da mão, há uma união incomum de tecnologias, como a leitura portátil de ultrassom, frequência captada por morcegos e golfinhos, e a análise de dados por um tipo de inteligência artificial sobre a qual muita gente fala, mas pouco se vê aplicações práticas: a IA física. Chegar ao dispositivo exigiu da companhia criar um método de desenvolvimento conduzido no mundo apenas pela Tesla, a inovadora montadora de veículos elétricos de Elon Musk. Com uma carteira de clientes repleta de estrangeiros, a startup já fatura internacionalmente tanto quanto no Brasil. E a projeção é que a receita chegue a R$ 600 milhões em 2026. |
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 | Sensor IoT da Tractian | Divulgação/Tractian |
| Criada em 2019, a Tractian está no coração da indústria 4.0 ao unir conectividade, dados em tempo real e IA de ponta para automatizar processos industriais e responder uma pergunta simples, mas crucial: quando é hora de fazer manutenção? O trio Lameirinhas-Martinelli-Vieira criou um novo jeito de abordar a questão: - Dona de outros sensores e softwares de predição, a empresa lança agora o Smart Trac Ultra Gen2. O dispositivo combina medidores de vibração, temperatura, campo magnético e ultrassom;
- Acoplado a máquinas rotativas, o hardware faz medições a cada 10 minutos, processa os dados internamente e depois os transmite por internet a uma central;
- Ou seja, ele não só escuta, como também interpreta. E o que ele ouve? Ao monitorar vibração, temperatura e frequências acústicas inaudíveis, ele detecta falhas antes mesmo de elas surgirem;
- Isso quer dizer que o aparelhinho constata o momento ideal de uma máquina ser lubrificada. Não é pouca coisa. Ausência de óleo e graxa está na origem de 80% das quebras mecânicas;
- A verdadeira novidade do Gen2, no entanto, é conseguir detectar ultrassom, primeiro sinal de ausência de lubrificação. Quando a vibração começa, o estrago já está feito e só resta reparar. Se a temperatura subir, aí o problema é ainda mais grave;
- Na prática, o Gen2 é um substituto automatizado e em tempo real para algo que a indústria até faz, mas de maneira artesanal: munido de um leitor de ultrassom, um técnico analisa as máquinas em rondas mensais ou bimestrais pela fábrica. Considerando custo do equipamento e da mão de obra, esse procedimento é vinte vezes o valor do novo sensor, que a Tractian não revela. Dinheiro, no entanto, não é tudo.
Tem uma um apelo muito grande aí. Tem o propósito de mudar um setor e as condições de trabalho. O que gente faz hoje é avisar na quarta-feira e não na sexta às 17h que a máquina vai quebrar, entendeu? Aí a pessoa já começa a planejar, vai comprar o rolamento, ver se tem fornecedor. Já melhora a vida e fica um ambiente de trabalho melhor e mais atrativo para pessoas mais técnicas que querem tomar mais decisões estratégicas, porque, no fim das contas, a gente dá mais ferramenta para elas Gabriel Limeirinhas, fundador e diretor de operações da Tractian - Essa transição da manutenção reativa para a prescritiva, onde o dado dita a regra do jogo, só pode ser feita com algo para lá de novo no mundo: a IA Física.
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 | A IA Física chegou. Toda companhia industrial será uma empresa robótica | | Jensen Huang | CEO da Nvidia |
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 | Jensen Huang, CEO da Nvidia | Reprodução/YouTube/Nvidia |
| Se a IA generativa já fez a Nvidia virar a mais valiosa do mundo, agora a empresa dona das GPUs essenciais às máquinas inteligentes não para de falar que o futuro é a IA Física. Nesta semana, por exemplo, diversas líderes em robótica industrial, como a ABB Robotics, fecharam acordo para usar as novas plataformas da Nvidia para braços mecânicos ou robôs humanoides. Até por força do alarde da Nvidia, a impressão é que IA Física vale apenas para máquinas com pernas, braços, cabeça e que se movem como os seres humanos. Na verdade, essa é apenas uma de suas facetas, talvez a mais espetacular delas. A IA Física dá a máquinas autônomas o poder de perceberem, compreenderem e executarem ações complexas no mundo real. E isso passa por percepção sensorial, capacidade de racionalizar adaptações e, claro, desempenhar ações motoras. Na Tractian, a IA primeiro interpreta os diversos sinais captados pelo sensor. Depois, extrai conclusões a partir do conhecimento do que é o funcionamento normal para cada máquina. Parece simples. Mas envolve algumas operações complexas. O desafio, diz Lameirinhas, é ensinar à IA qual é o contexto de uma fábrica. Nessa hora, dados são para lá de necessários. A Tractian recolhe informações emitidas por seus aparelhos instalados em fábricas de clientes, mas também produz os próprios dados. Na primeira frente, recebe 300 trilhões de pontos de séries temporais produzidos por 200 mil sensores. Na segunda, a empresa inaugurou um centro de desenvolvimento de 10 mil metros quadrados ao custo de R$ 60 milhões em São Paulo. Lá, ela literalmente quebra máquinas para analisar como se comportam. Na visão dos fundadores da Tractian, esse modelo de desenvolvimento se aproxima do que a Tesla faz. A companhia de Musk cria carros, submete-os a testes extremos, destrói peças e simula falhas para constatar as condições de durabilidade. Tudo internamente. A companhia brasileira faz a mesma coisa, mas com sensores industriais. |
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 | Gabriel Lameirinhas, fundador e diretor de operações da Tractian | Divulgação/Tractian |
| Segundo o diretor da Tractian, diversas tecnologias e processos empregados nos produtos de sua empresa já existiam, mas agora vivemos uma tempestade tecnológicas perfeita que permite: - Preço acessível para reunir em um só aparelho sensores acústico, de temperatura, de profundidade óptica (LiDAR) e acelerômetro;
- Processamento interno no hardware de dados captados antes de enviá-los para um receptor e de lá para a nuvem;
- Conectividade à disposição e de diferentes formas (do 3G e 4G à internet via satélite) para garantir a comunicação entre as máquinas; "É a mesma coisa com o Uber. Há 15 anos atrás não dava para ter Uber porque ninguém ia ter um celular com 4G para pedir o carro. Seria um inferno.";
- IA multimodal para interpretar várias formas de dado e tirar conclusões sobre eles que possam ser combinadas e transformadas em uma ação.
A tecnologia da Tractian já está presente em 20 setores industriais tão diversos quanto os clientes, que vão da siderúrgica CSN à montadora de automóveis Renault, passando por Boticário, Danone e Embraer. Se a startup nasceu com aporte da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) de R$ 15 milhões há sete anos, hoje já contabiliza R$ 1 bilhão em investimento captado. Em 2025, a Tractian faturou mais de R$ 300 milhões, mas, para este ano, projeta dobrar e chegar a R$ 600 milhões. Estados Unidos e México já representam metade do faturamento e por isso a companhia planeja abrir uma sede na Europa. Ainda assim, a aposta é na cultura brasileira de fazer inovação com pouco, diz Lameirinhas. Resta saber se as indústrias estão prontas para ouvir o que o ultrassom tem a dizer. Afinal, não adianta ter o ouvido de um morcego se a empresa quer enxergar no escuro. |
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