20 março, 2026

Alma Preta

 

Salve, pessoal!

Aymê Brito aqui. Venho com as notícias que mais marcaram a semana, e que semana, hein? De morte a blackface, o racismo se fez presente no noticiário e, como sempre, dirigido a nós.

Guerra a nós

Nesta semana, a polícia do Rio de Janeiro assassinou a médica Andrea Marins Dias durante uma perseguição policial no bairro de Cascadura, na capital fluminense. A suspeita é que os agentes tenham confundido o carro dela com o de bandidos. Infelizmente, o caso não é novidade. No Rio de Janeiro e em outros estados, a polícia continua a assassinar sistematicamente pessoas negras, numa lógica de combate ao que chamam de crime organizado e guerra às drogas. Quando vemos tantos corpos negros morrendo todos os dias em nome de uma política de insegurança pública, a indignação foge ou dura pouco, e a gente normaliza. Porque, infelizmente, Andrea não foi a única e muito menos será a última.

Nesta semana também, os desembargadores da 6ª Câmara Criminal do TJ do RJ condenaram os acusados de matar a jovem Kathlen Romeu, grávida de 4 meses, a dois anos de prisão em regime aberto, enquanto aguardam o julgamento do Júri Popular. Apenas dois anos, em regime aberto. É dessa forma que punem aqueles que assassinam mulheres negras.

Blackface

Enquanto a gente vê a morte de mulheres negras, as reações à eleição de Erika Hilton para a Comissão das Mulheres continuam a ressoar. A deputada Fabiana Bolsonaro (PL-SP) resolveu fazer blackface durante uma sessão no Plenário da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) para protestar contra a nomeação. A prática racista de imitar e satirizar pessoas negras tem origem no século 19, mas parece que algumas pessoas pararam no tempo e resolveram resgatar o passado. Claro, para nos atacar.

Racismo e transfobia: faces da mesma moeda

Continuando nas reações. Beatriz Bueno, conhecida como "Parditudes", figura polêmica que pauta a miscigenação nas redes, também resolveu se manifestar sobre o tema. "Somos todos Ratinho", comentou em um post nas redes sociais. É interessante pensar em como a defesa de um movimento pardo e o esvaziamento do histórico de luta do movimento negro se aliam a movimentos transfóbicos e, acima de tudo, conservadores.


Trans, negra e mulher

Na semana passada, a deputada federal Erika Hilton (PSOL) assumiu a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na Câmara dos Deputados, sendo a primeira mulher trans a assumir o cargo de um órgão legislativo criado para analisar e debater projetos de lei focados na proteção da mulher, equidade de gênero e combate à violência doméstica. Como era de se esperar, a eleição de Erika causou alvoroço, seja entre parlamentares, nas redes sociais e até entre apresentadores de TV que resolveram se manifestar sobre o tema.

Entre os argumentos dos que se opuseram à nomeação, está a defesa de que Erika, por não ser uma mulher cis — e, consequentemente, não ter nascido com os mesmos órgãos genitais, possibilidade de gerar, etc. — não estaria apta a representar as mulheres à frente da comissão. Muita gente parece não saber ou não se atentar, mas a transfobia é crime previsto em lei, inclusive equiparado desde 2019 ao crime de racismo. Além disso, argumentos desse tipo não param em pé: E as mulheres que não menstruam? As que não podem ou não querem gestar? As que sofreram mutilação genital? As que não têm útero ou ovário?

Para nós, mulheres negras, se amparar em questões ditas científicas ou biológicas é um tiro no pé. Historicamente, o racismo contra nós usou desses argumentos “biológicos”, fisiológicos e estéticos para se sustentar. Esses mesmos argumentos foram usados para dizer que não éramos mulheres e, sendo assim, não dividiríamos os mesmos direitos que as mulheres brancas e cisgênero de classe alta. Até hoje sofremos racismo médico em consultórios ginecológicos e salas de parto, porque ainda acreditam que não somos mulheres, ao menos não como as outras (as que merecem cuidado e anestesia, por exemplo).

Erika é uma mulher negra, trans e de origem periférica que tem demonstrado, no seu trabalho parlamentar, uma defesa árdua dos direitos dos de baixo, da população negra, dos trabalhadores e das mulheres. Foi quem protocolou a PEC para acabar com a escala 6x1, ajudou na legislação que defendeu a dignidade menstrual, criou o projeto de lei que obriga hospitais e delegacias a informarem que mulheres vítimas de violência sexual têm direito ao aborto legal, entre outros. 

É preciso tomar cuidado, ou corremos o risco de esquecer do que Sojourner Truth disse ao perguntar: “E eu não sou uma mulher?”.

Cuidar das meninas negras

Tudo isso acontece no mês da mulher, que este ano foi especialmente duro diante de tantos casos de violência contra mulheres e meninas. Nos casos que vi se repetirem nas últimas semanas, quase ninguém apontou um dado importante: o de que as mulheres e meninas negras são as mais afetadas. Meninas negras, por exemplo, correm mais risco de serem vítimas  de estupro de vulnerável. Em 2024, cerca de 60% das vítimas deste crime eram negras, segundo dados do 19º Anuário de Segurança Pública.

No Brasil, meninas negras ficam à margem das discussões sobre a proteção da infância e do direito de crescer sem violência contra si ou ao seu redor. Ainda vamos precisar discutir também qual é o impacto do aumento da radicalização de meninos e do avanço do movimento red pill sobre as meninas negras, que sofrem não só com o machismo, mas com o racismo que atinge suas vidas e seus corpos. Vem assistir e compartilhar o vídeo que fizemos. 

Outras notícias:
 

Copa do Mundo

A convocação de Ancelotti para os últimos amistosos antes da Copa tem 20 jogadores negros entre os 26 chamados. O dado não é surpresa e sim o retrato de quem constrói o futebol brasileiro. Agora é torcer para que o país que vai torcer por esses corpos também os respeitem fora dos gramados.

RD Congo

Congoleses enfrentam, ao mesmo tempo, cólera, sarampo e mpox, em meio a uma guerra que não para e enchentes que destroem o que sobrou. A cobertura da Alma Preta está de olho no que acontece na África e na diáspora quando o mundo prefere olhar para outro lado.

A Nobreza do Amor

Lázaro Ramos está de volta - e dessa vez como vilão. Em entrevista exclusiva à Alma Preta, o ator fala sobre a estreia da novela e o que o motivou a se aventurar num papel diferente de tudo que já fez: "Queria me experimentar em outro lugar."

O que é Blackface? 

Com o caso Fabiana Bolsonaro repercutindo, a Alma Preta explica de onde vem essa prática, o que ela representa e por que não existe blackface inofensivo. Leitura obrigatória da semana.


Homossexualidade em pauta

Infelizmente, por 135 votos a zero, o Senegal aprovou um projeto de lei que dobra a pena máxima para relações entre pessoas do mesmo sexo, elevando-a de cinco para dez anos de prisão. O texto agora aguarda sanção presidencial para entrar em vigor.

Quilombo

O Quilombo Tia Eva, em Campo Grande, foi o primeiro tombado no Brasil com base na Constituição.

Rolê Aleatório 

A Netflix Brasil anunciou uma nova minissérie documental dedicada à vida e à trajetória do ex-jogador Ronaldinho Gaúcho, um dos maiores nomes da história do futebol mundial. A produção tem estreia marcada para 16 de abril.

Trump, PCC e CV 

Em entrevista à Alma Preta, o pesquisador Lívio José Rocha, associado sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), explica que a medida pode abrir brechas para uma intervenção estadunidense no Brasil e destaca que não há embasamento jurídico para classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas.

Indicações da equipe

📚Para ler: Minha indicação é o livro Baratas, da escritora Scholastique Mukasonga, sobrevivente do genocídio ruandês, publicado pela editora Nós. Um livro que passa pela memória coletiva e narra as violências nas miudezas e aquelas que destroem por inteiro a nossa humanidade. Vale a leitura e vale conhecer a autora.

🎶Para ouvir: Daniel Pereira, nosso designer, indica o álbum No Mesmo Gueto Que Você Me Esqueceu, de Negro Rudhy com Beli Remour e Makalister. Introspectivo, resgata o boom bap dos anos 2000 e traz ótimos samples de clássicos do rap nacional.

🍛Para comer: A Bia, do Departamento Pessoal, indicou o restaurante Maden Baobá, de culinária africana. Fica na Vila Mariana (SP) e é tocado por uma mulher negra, Laila Santos. Vale pedir o prato nigeriano, Jollof Rice. 

🎬Para assistir: Carol Moreno, nossa gerente audiovisual, indica o documentário A Vizinha Perfeita, da Netflix. O doc conta como uma briga entre vizinhas acaba em morte e fala sobre racismo e a lei de legítima defesa dos EUA. O filme foi indicado ao Oscar na categoria de Melhor Documentário.

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