Na primeira cena da peça, os quatro atores – Ana Cristina Colla, Jesser de Souza, Raquel Scotti Hirson e Renato Ferracini – fazem um brinde e, em seguida, um vaso de cerâmica quebra no palco. Os atores passam então a reconstruir o objeto a partir da técnica japonesa Kintsugi – método do século XV que restaura cerâmicas quebradas com delicados traços de ouro. Esse é o ponto de partida da peça Kintsugi – 100 memórias, do LUME Teatro, núcleo interdisciplinar de pesquisas teatrais da Unicamp. A peça está em cartaz no CCBB no Rio de Janeiro e fica por lá até o dia 29 de março. O gesto de relacionar as lembranças com suas imperfeições e cicatrizes é o mote do espetáculo, e no palco monta-se um inventário de cem memórias pessoais (dos próprios atores) e coletivas (dos brasileiros). Cada um dos atores mostra ao público o objeto mais antigo e mais recente que têm. Revelam também lembranças dos quase 41 anos do LUME Teatro, mostrando cartas, fotos, figurinos, instrumentos, e objetos da ditadura militar. Tudo com uma história por trás. A cada nova memória, mais um espaço é ocupado no palco. O elenco revela em cena que se aprofundou no estudo sobre Alzheimer com pacientes com demência e seus familiares para a realização da peça. Esse é um outro modo que utilizam para abordar a memória no espetáculo – enquanto o título da peça remete a uma forma de restauração, o Alzheimer é usado como metáfora do esquecimento. Com direção de Emilio García Wehbi e dramaturgia de Pedro Kosovski, Kintsugi – 100 memórias convida o público a refletir sobre o valor das recordações – e até mesmo a refletir sobre remorsos e acessar lembranças dolorosas. É impossível não se identificar com pelo menos uma das memórias trazidas pelo elenco. É uma peça que provoca diversas emoções no público: felicidade, diversão, raiva, angústia e tristeza. |
É possível dizer que o Brasil vive um pesadelo. E é deste país que Fausto Fawcett e o Coletivo Chelpa Ferro, formado por Barrão, Luiz Zerbini e Sérgio Mekler, falam no novo disco Pesadelo ambicioso. Lá estão os militares, celulares e computadores, X-men e Matrix, cigarros e bebidas, praia, sol quente e pandemia. Em meio à barulheira produzida pelo trio, Fawcett parece um profeta falando. Mas não há profecia nenhuma. É como se ele e o grupo capturassem as cenas que compõem as ideias mais idílicas de Brasil e as distorcessem de modo avassalador. Para essa espécie de Maomé do fim dos tempos, não há vista do futuro que resolva nossas questões – Fawcett troca a prescrição pelo diagnóstico. “A náusea do absurdo brasileiro gera existencialistas bichos soltos que viram lobos solitários, assim, francos atiradores de si mesmos, como fogos de artifício kamikazes”, diz em Sabão minerva, segunda faixa do disco. A música avança para uma imagem atormentadora e que muito bem descreve a sensação de viver estes anos 2020: um homem, em Araruama, esfrega sabão em pó (daí o título da canção) no corpo todo, inclusive na genitália. Em todas as treze faixas, reina uma energia de natureza sintética que evoca simulacros – como se robôs fingissem ser humanos, ou postes amadeirados com luzes verdes de LED fingissem ser árvores. Isso se dá, em especial, pela total plasticidade das músicas, às vezes também compostas de ruídos puramente urbanos, como motos arrancando em velocidade nas ruas ou pessoas falando alto – sons ainda mais impactantes quando acompanhados de uma orquestra desajeitada. O vocalista às avessas só fala e nada canta. Fawcett talvez seja o nome mais seminal do spoken-word no Brasil, nome que explica a modalidade experimental em que opera e que continua a encontrar lugar no cenário atual, como no caso da banda Vera Fischer Era Clubber ou no fenômeno da noite paulistana Noporn, de Liana Padilha. Na faixa Geleia de morango, a tijucana que se radicou em São Paulo canta: “Quero contar a história de uma noite/ Uma noite quente/ num país quente e desgraçado.” Fawcett parece compartilhar do mesmo ponto de partida em seus pesadelos. |
Uma espécie de faixa de pedestres corta as sete salas contíguas que conformam o espaço expositivo de Knockout!, mostra individual e monográfica de Pascale Marthine Tayou,no Edifício Pina Luz, da Pinacoteca de São Paulo. Como nas ruas, esse elemento, explica o artista camaronês, cria um ritmo na exibição. As pessoas circulam livremente, e, diante dos pórticos que conectam os espaços, param ou reduzem a velocidade para lerem os textos de parede sobre cada uma das obras, ou, simplesmente, verem pela primeira vez os trabalhos. Tayou, que vive entre Ghent (Bélgica) e Yaoundé (Camarões), explica que o uso desse elemento foi também uma forma de trazer o ambiente externo, as ruas, para dentro da exposição. A técnica reflete a forma como ele lida com o espaço em suas instalações. A base do trabalho de Tayou está na coleta, reciclagem e acumulação de materiais, o que não quer dizer que ele flerte com o excesso. “Se fica tudo muito acumulado, você sufoca. Então preciso deixar algum espaço para que as pessoas possam circular”, diz, emendando outra perspectiva à explicação: “Quando algo fica muito complicado, você precisa torná-lo mais simples. Sempre haverá espaços entre linhas. Você precisa de vazio entre elas, senão, tudo vira um bloco compacto”. As instalações em cada uma das setes salas remetem a conferências importantes no jogo da política internacional. Entretanto, o visitante não deve esperar uma relação literal entre essas reuniões e a produção do artista, nem uma postura unívoca dele na interpretação delas. Na sala inicial, dedicada à Conferência de Yalta, na qual se decidiu os termos de encerramento da Segunda Guerra Mundial, entre esculturas feitas com vidro e uma grande peça, em que se cravam lápis de cor, aparece na parede, sozinha, a palavra “invasão”. E não “guerra”, vale dizer. Ela não é grafada como tipografia pesada e sóbria. Mas em letra cursiva, em um letreiro de neon. A cor? O azul, que normalmente remete a harmonia, paz. O azul que, tanto no senso comum quanto em discursos extremos, é associado de forma estrita ao gênero masculino. A última sala da exibição é dedicada a uma conferência fictícia, a ser feita em Avignon. O artista explica que a escolha da cidade francesa se deu devido a uma exposição que fez lá em 2023. Seu desejo, agora, com a Conferência de Avignon, no Brasil, é que as pessoas se sentem nas cadeiras dispostas no espaço expositivo e discutam um futuro. Mas não é uma paz isolada, que cabe tranquilamente em um documento. É uma paz compartilhada que leve em conta os inúmeros conflitos passados, inscritos nas paredes da sala junto a dezenas de pedras. A mensagem que a instalação parece querer invocar é que estamos todos conectados, quer você viva em contexto em guerra, quer você esteja em um ambiente seguro, aparentemente alheio aos problemas do mundo. A mostra fica aberta até o dia 2 de agosto de 2026. |
Natalia Ginzburg foi uma das maiores escritoras italianas do século XX, e é talvez uma das escritoras mais influentes da atualidade – sua prosa seca e a facilidade em utilizar um ambiente doméstico prosaico como centro inefável de sua literatura tiveram significativo impacto em diversos autores contemporâneos, da sua compatriota Elena Ferrante a Sally Rooney, Rachel Cusk, e Alejandro Zambra. Não é surpreendente, portanto, que sua lista de regras para escritores tenha a mesma combinação inimitável de humor sagaz e completa seriedade presente em seus livros. Publicado originalmente na revista semanal italiana L’Espresso, a piauí recupera, nesta edição de março e com tradução de Iara Machado Pinheiro, os 35 conselhos para escrever um romance que Ginzburg escreveu em junho de 1964, mas que permanecem atuais. |
Enviado por Revista Piauí |
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