RELATO 2
Professores reforçaram o rigor metodológico e criaram novos métodos discursivos para evitar conflitos em sala
Por Ariane Rebouças Araújo
Em 2018, eu já trabalhava como professora de História da rede municipal de Fortaleza, em uma escola da periferia para estudantes do 6º ao 9º ano. Entre os inúmeros desafios da docência, percebi que estava vivendo algo novo comparado ao meu início na profissão em 2013. O sentimento de culpa pairava sobre nós, educadoras e educadores, que constantemente lidávamos com a sensação de fracasso em sala de aula. Na sala dos professores, as conversas revelavam que enfrentávamos uma questão mais ampla e profunda do que eu inicialmente supunha.
Havia um clima tenso com os estudantes que foi aumentando proporcionalmente à ascensão de Jair Bolsonaro. Apreensiva por essa situação, comecei a desenvolver uma pesquisa de mestrado para entender o impacto daquele contexto sobre meus companheiros de profissão.[1] Meu primeiro contato foi com um professor de História que atuava em escolas privadas em diferentes bairros de Fortaleza. A cena descrita pelo professor Fernando, ocorrida em 2018, ilustrava de maneira cruel como o acesso ao conhecimento era prejudicado: “Eu cheguei, em outra escola, a dar ditadura inteira em 50 minutos porque o colégio exigiu que fosse rápido. Era o sofrimento uma vez só. Era para falar rápido, e ainda foi assim: aluno se contorcendo enquanto eu falava, aluno tremendo enquanto eu falava e com direito a prova na semana seguinte… Na hora de fazer a prova, alunos responderam riscando o termo ‘ditadura’ e colocando ‘revolução de 64’. E respostas do tipo ‘Não vou responder porque isso não existiu’… sobre caso, perseguição e tortura… ‘Essa pergunta é inválida’ ou então: ‘Essa pergunta é ideológica… faça uma prova neutra’. E a gente ficava muito preocupado, né? Porque o colégio dava o respaldo, o colégio dizia: ‘Pode’! […] O colégio dizia: ‘Não, professor, você vai ter de colocar o ponto dele aí porque é a visão dele’.”
Ganhava espaço ali um discurso revisionista da história, alimentado pela direita conservadora brasileira, e uma visão de nós, professores, como indignos de confiança, manipuladores, doutrinadores e exploradores dos alunos. Por isso, o conhecimento histórico devia ser submisso à “visão do aluno”. Situações como essa narrada por Fernando mostram como no ensino privado houve maior perseguição por parte da gestão escolar, que era demandada por seus clientes a pressionar os docentes.
Busquei relatos da educação pública, e nela também se propagavam desinformação e desconfiança. Como o caso relatado pelo professor Euclides em 2022: “Eu estava dando aula de Sociologia no 2º ano discutindo poder, política e Estado, e, nesse sentido, o momento mais propício para discutir o que é fascismo, o que é nazismo. Então, eu comecei a discutir com eles como a gente define o que é o fascismo, o que é o nazismo. De onde vêm esses movimentos da extrema direita, que exemplos nós temos no Brasil de políticos e partidos que representavam essa corrente. Aí eu falei: ‘Olha, o próprio Bolsonaro […] defende a intervenção militar, defende pena de morte, tem toda uma política de racismo, machismo, ataque aos LGBTs’… E um aluno se levanta lá do fundo – o cara que não participava da aula e nesse dia resolveu participar, o que já foi estranho. Ele disse: ‘Professor, o senhor está mentindo para a gente, o senhor está nos doutrinando, está nos enganando. […] Porque o nazismo é um movimento de esquerda! Não é um movimento de extrema direita’. Eu falei: ‘De onde você tirou isso? Do seu livro, não foi!’.”
Aqui, a tensão se intensifica, e o docente passa a ser rotulado como “doutrinador” – expressão tornada famosa pelo Escola sem Partido. O movimento também incentivava a gravação das aulas pelos alunos, o que aconteceu com o professor, que teve a discussão em sala filmada e postada no Facebook. O ponto principal desse caso foram as proporções de violência que ele alcançou: o vídeo foi recortado, descontextualizado e amplamente replicado, alcançando milhares de compartilhamentos. O material passou a circular como peça de propaganda política de candidatos bolsonaristas, sendo replicado em redes sociais e incorporado a conteúdos de campanha eleitoral carregando o número identificador de candidaturas com o objetivo de atrair eleitores.
Na época, candidatos como André Fernandes, que disputava uma vaga de deputado estadual pelo PSL no Ceará, e Heitor Freire, candidato a deputado federal, ganharam visibilidade com a repercussão desse tipo de material e conseguiram se eleger. A viralização do vídeo gerou sanções contra o professor da própria Secretaria de Educação do Ceará (Seduc), que suspendeu seu salário e o afastou de suas funções por um mês. Por causa das ameaças recebidas em suas redes sociais, porém, o professor ficou afastado por oito meses e acabou sendo transferido para outra instituição de ensino. Com essas punições, a estrutura institucional da educação tornou-se agente do processo de violência. Tal postura o levou a mover ações judiciais, em 2022, contra grupos bolsonaristas e contra a própria Seduc.
Texto publicado na edição de março de 2026.
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