Em seu último grande poema, intitulado Little Gidding, o poeta britânico-americano T.S. Eliot escreveu: “Não deixaremos de explorar / E o fim de toda nossa exploração / Deve ser chegar aonde começamos / E conhecer esse local pela primeira vez”. Seus versos parecem descrever com exatidão o arco de vida do artista plástico Joaquín Torres García, um dos pilares da arte moderna na América Latina, que teria feito 150 anos em 2024. Nascido em Montevidéu, no Uruguai, em 1874, Torres García migrou para Barcelona, na Espanha, em 1891, aproximando-se do modernismo local e colaborando com o arquiteto catalão Antoni Gaudí. Também viveu em Paris, e trabalhou com cenários de teatro e cinema em Nova York – cidade para onde foi nos anos 1920 e que definiria como “uma gigante e inimaginável casa de comércio”. Em sua trajetória, teve contato com diferentes artistas e movimentos, como Miró, Mondrian e Kandinsky, perpassando modernismo, surrealismo e arte abstrata. E viveu constantemente repensando e questionando os princípios e caminhos da criação e da arte. Tais reflexões foram sendo anotadas em pequenos diários e também em manifestos e artigos que publicou ao longo da carreira. Parte desse acervo, que inclui pinturas a óleo, cartas, desenhos, maquetes e brinquedos, pode ser vista até o dia 9 de março, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em São Paulo (Rua Álvares Penteado 112). Torres García rodou o mundo, mas em 1934, após 43 anos fora, retornou ao Uruguai para “conhecê-lo pela primeira vez”, como diz T.S. Eliot, e fundar um estilo próprio de arte conhecido como universalismo construtivo. Buscando compreender nossa identidade, deu início então a uma pesquisa de símbolos e amuletos de povos originários, e propôs uma emancipação cultural que o levou a expressar que “Nosso norte é o Sul”. Muitos já devem ter visto seu célebre mapa da América Invertida, criado em 1943, uma proposta que expressava, já então, a crítica ao eurocentrismo e à hegemonia Norte/Sul. Ao falecer, em 1949, e ainda atuando como guia e mentor de vários artistas jovens, Torres García sabia que nosso futuro, se o houver, será ancestral. |
O título do curta-metragem Two People Exchanging Saliva (“Duas pessoas trocando saliva”), escrito e dirigido pela romeno-americana Natalie Musteata e o francês Alexandre Singh, soa engraçado à primeira vista. Mas a história que se desenrola durante os quase quarenta minutos é perturbadora e absurda. Indicado ao Oscar de melhor curta-metragem em live action este ano, a produção francesa se passa em Paris e conta a história de Angine (Zar Amir Ebrahimi), uma mulher rica e infeliz que faz compras compulsivas numa loja de departamentos (ambientada nas Galerias Lafayette). No local ela conhece Malaise (Luàna Bajrami), uma vendedora brincalhona, e se interessa pela jovem. As duas se aproximam, despertando as suspeitas de uma colega ciumenta. A questão é que tudo isso se passa em uma Paris distópica, onde beijar é proibido e punível com violência, e onde as pessoas pagam por itens dando o rosto a tapa (literalmente). O curta lembra o filme Carol , de Todd Haynes, estrelado por Cate Blanchett, mas em uma realidade muito mais brutal. Natalie Musteata e Alexandre Singh escreveram o roteiro no início de 2023 em resposta às realidades absurdas que se desenrolavam em todo o mundo. “Desde então, a sensação de absurdo no mundo real só se intensificou. A ascensão de autocracias, a erosão das liberdades civis e as crescentes restrições às liberdades individuais em países ao redor do mundo — dos assassinatos de manifestantes no Irã ao sequestro de pessoas pelo ICE nos Estados Unidos — dão a impressão de que o mundo está retrocedendo em vez de avançar”, afirmam os diretores no site de divulgação do curta. Two People Exchanging Saliva aborda a intimidade, o consumismo, a negação de desejos e a crise do amor romântico. A dor é usada como contrapartida, e ter hematomas no rosto indica que a pessoa é da alta sociedade. Nas cenas de Angine e Malaise, esse tapa é, para além de um pagamento e uma punição, objeto de desejo. Disponível no YouTube, o curta é filmado todo em preto e branco e visualmente bonito. |
A exposição Cartas à memória, com curadoria de Yudi Rafael no Sesc Avenida Paulista, em São Paulo, investiga a diáspora asiática nas Américas. Reúne aproximadamente noventa obras, incluindo pinturas, fotografias, instalações e vídeos. Entre os nomes brasileiros, estão as jovens Alice Yura e Carolina Rica Lee, e os veteranos Flávio Shiró e Mario N. Ishikawa. Entre as figuras internacionais, destacam-se a ativista Corky Lee e os fotógrafos Toyo Miyatake e Dorothea Lange (1895-1979). O nome da mostra coletiva é emprestado do título do livro da autora nipo-americana Karen Tei Yamashita, que morou no Brasil nos anos 1970, durante a ditadura militar, desenvolvendo uma pesquisa sobre a imigração japonesa. Segundo o curador da exposição, a produção de Yamashita – que inclui também os livros Brazil-Maru (1992) e I Hotel (2010) –, é marcada pela multiplicidade e por “um imaginário asiático-americano geograficamente expandido pelas relações Norte-Sul – para além do eixo Leste-Oeste [...]” Na entrada da exposição, o visitante pode seguir tanto à esquerda quanto à direita. À esquerda – ala na qual o diálogo entre as obras é mais profícuo –, há cachos de vegetação, feitos em papel, que pendem do teto. É uma instalação do artista Ryan Villamiel, chamada Locus Amoenus (2025). As folhas esverdeadas e com recortes internos não trazem acolhimento, mas estranhamento. Traduzido para o português, o nome em latim da obra significa “lugar agradável”. Contudo, a espécie no qual Villamiel se inspira é a Monstera deliciosa, conhecida como “Costela de Adão”, uma espécie tropical invasiva que se guia pela capacidade de adaptação a lugares desconhecidos e adversos. O artista ainda integra ao processo de produção da obra o tema da cartografia e uma técnica filipina de recorte de papel chamada pabalat. Nessa mesma sala, mais ao canto, a instalação de Caroline Ricca Lee – intitulada Antimatéria fantasma e todos nós que perdemos a guerra (2025) – também utiliza o expediente da suspensão, mas de uma forma mais incisiva, já que correntes de metal sustentam o busto rosa de aspecto transparente, central na obra e ladeado por dois vasos de flores. Incrustados no busto, vemos fotografias, um relógio, e outros objetos herdados pela artista de seus antepassados japoneses e chineses. Esse cruzamento entre memórias pessoais e fenômenos políticos também está presente em Fong (2023), de Chantal Peñalosa Fong, um dos melhores trabalhos da mostra, um vídeo que examina a imigração chinesa nas Américas a partir do contexto social e da história familiar da artista. Uma frase do vídeo ressoa e cria um diálogo com o trabalho de Rica Lee: “A história chinesa não aparece na história oficial mexicana. É como um conto de aparições”. Cartas à memória fica aberta à visitação até 3 de maio de 2026 e é uma das melhores exposições em cartaz na cidade de São Paulo. |
Em 2016, Immy Humes, uma documentarista americana, trabalhava num filme sobre Shirley Clarke – uma outra diretora americana, pioneira do cinema independente do país – quando se deparou com uma foto peculiar de sua protagonista. Era 1961 e Clarke aparecia no lançamento do seu primeiro longa-metragem, A conexão, com 22 homens ao seu redor. Ela era a única mulher da foto. “A partir de então, Humes passou a colecionar fotos que mostram apenas uma mulher no meio de inúmeros homens.” escreve Simone Duarte, num texto de apresentação e reportagem sobre a documentarista na edição de fevereiro da piauí. “Ficou tão obcecada que juntou mais de mil delas. A cada nova imagem, perguntava-se: por que há somente uma mulher na foto? Que caminhos ela teve de percorrer para chegar ali?” Cientistas, advogadas, médicas, celebridades – cada figura aparece solitária na multidão masculina, em contextos variados. A piauí fez uma seleção do acervo de Humes, disponível na edição de fevereiro. |
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