27 fevereiro, 2026

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ELEIÇÕES 2026

Tendência de renovação baixa na Câmara e alta no Senado


O país se vê mais uma vez diante de um pleito em que a lógica de preservação do poder e de confronto ideológico estéril ameaça se sobrepor ao interesse nacional

Por Antônio Augusto de Queiroz

Preparem-se para um pleito de contrastes extremos. O Congresso que resultará da eleição de 2026 será produto de uma esquizofrenia eleitoral: de um lado, uma Câmara dos Deputados liderada pelo Centrão, cada vez mais cristalizada e onde a permanência é a regra. Do outro, um Senado à beira de uma ruptura, com força de oposição radical ou de extrema direita mobilizada não para legislar ou construir, mas para retaliar ou demolir. Esse é o retrato de um sistema que, ao empoderar excessivamente os parlamentares, distorce a representação e coloca a governabilidade sob perigo real e imediato.

A raiz desse desequilíbrio é uma infraestrutura de poder que transforma a reeleição de deputados em quase certeza matemática. Os incumbentes não competem em condições iguais; eles disputam com a máquina do Estado a seu favor. O pacote é avassalador: acesso prioritário a um fundo eleitoral bilionário, poder discricionário sobre emendas impositivas (cujo valor individual pode ultrapassar a marca de R$ 50 milhões anuais), Cota para Exercício da Atividade Parlamentar (Ceap) – uma verba de até R$ 51,4 mil mensais, variável segundo o estado do parlamentar, para despesas corriqueiras – e uma verba de gabinete superior a R$ 133 mil por mês para contratar até 25 assessores, com salários de até R$ 18,7 mil mensais. Isso sem contar o nome conhecido, os serviços prestados (ou anunciados) e o acesso privilegiado à mídia.

Essa fortaleza é ainda mais consolidada por um artifício da legislação partidária. A famosa “janela partidária” permite que, até seis meses antes da eleição, um parlamentar troque de partido sem perder o mandato, colocando-o em posição de força para negociar com outras legendas mais recursos e tempo de TV. É um sistema que premia a influência partidária, não a fidelidade programática.

O resultado desse modelo, inaugurado com as emendas impositivas e ampliado com o Orçamento Secreto, foi uma mudança tectônica no equilíbrio de poderes. Uma porção desproporcional do orçamento discricionário migrou do Palácio do Planalto para as mãos de deputados e senadores, que passaram a ter um enorme poder de barganhar, não dependendo mais de sua relação com os governos (federal, estadual ou municipal) ou mesmo do exercício de um bom mandato para sua reeleição. Em um Congresso hostil como o atual, a governabilidade se esvai. A solução passa, inevitavelmente, por um controle rígido e uma transparência absoluta na execução dessas emendas, sob pena de a “farra” e os escândalos continuarem sendo a trilha sonora diária da política nacional.

Nesse contexto de vantagens dos incumbentes, outro elemento salta aos olhos: a circulação no poder. Em outras palavras, das vagas que não forem ocupadas por reeleição, cerca de 80% serão preenchidas por alguém com alguma experiência política anterior, e as 20% restantes serão assumidas por pessoas “efetivamente novas” ou sem experiência política anterior, porém com o seguinte perfil: são parentes de políticos, influenciadores/celebridades ou indivíduos que se destacaram em sua trajetória profissional, acadêmica ou empresarial.

A autopreservação do sistema político dificulta reformas e ameaça a governabilidade, com risco de crise entre os Poderes
© Rovena Rosa/Agência Brasil


Entrevista publicada na edição de fevereiro de 2026.  

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