13 fevereiro, 2026

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EDITORIAL

Falência hídrica



A redução noturna do fornecimento de água na Região Metropolitana de São Paulo, adotada pela Sabesp diante da queda nos níveis dos reservatórios, expõe um problema que vai muito além de uma crise momentânea de abastecimento. O cenário revela os sinais de uma escassez hídrica cada vez mais estrutural, resultado de décadas de exploração intensiva dos recursos naturais, desperdício e falta de planejamento

Por Silvio Caccia Bava


Desde agosto do ano passado, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) vem reduzindo, à noite, a pressão da água que serve a Região Metropolitana de São Paulo. Das 19h às 5h, bairros inteiros da periferia, em áreas elevadas, ficam sem água, um bem essencial para a vida. Os baixos níveis das represas dos sistemas de abastecimento obrigam essa redução. O Sistema Cantareira, o principal para São Paulo, hoje opera com menos de 20% de sua capacidade. O pequeno volume de chuvas e o calor, que aumenta o consumo, são tratados como as razões para a escassez de água.

Se o problema fosse conjuntural, as políticas que a Sabesp apresenta em anúncios de páginas inteiras nos jornais de grande circulação poderiam ser uma resposta, ainda que insuficiente, em razão dos vazamentos na tubulação, que deveriam atender a normas e não ultrapassar 25%. A situação, porém, é mais crítica do que parece. E é global.

Quatro bilhões de pessoas, a metade da população mundial, sofre escassez severa de água por pelo menos um mês por ano. Para 2,2 bilhões de pessoas, falta água potável.

A falta de água veio para ficar. Durante as últimas décadas, os rios, os aquíferos, os glaciais e as áreas úmidas foram tão intensivamente explorados que a natureza não consegue mais repor o que é consumido. Chegamos a um ponto de não retorno. As causas são decorrentes das ações humanas. O desmatamento, a degradação do solo, a destruição dos olhos-d’água, o rebaixamento dos lençóis freáticos, a contaminação dos aquíferos, a poluição e os mananciais com baixa reposição são os principais elementos que produzem essa escassez.

© Claudius

As Nações Unidas reconhecem que se trata de uma redução permanente na disponibilidade de água doce. O modelo capitalista de produção, de crescimento contínuo e de permanente expansão dos negócios é o principal responsável pela crise. O que resta como possibilidade para enfrentar essa situação é reduzir o consumo de água e redirecioná-lo para o essencial. As políticas serão de mitigação e adaptação.

Segundo Kaveh Madani, diretor do Instituto da Água, Meio Ambiente e Saúde, das Nações Unidas, “os governos precisam urgentemente passar da gestão de uma crise para a situação de falência hídrica. Os estudos indicam que os governos devem deixar de pensar em situações de emergência de curto prazo para pensar em estratégias que previnam danos irreversíveis, reduzam e realoquem demandas, transformem setores intensivos de consumo de água, fiscalizem captações ilegais de água e fontes de poluição, para assegurar uma transição justa para a população, que precisa mudar seus hábitos de consumo”.

No caso do Brasil, a água tem sido tratada pelos consumidores como um bem infinito. O principal consumidor é o agronegócio. A agricultura consome 50,5% do total para irrigação; a pecuária, 8,2%; somando 58,7%. O abastecimento urbano consome 23,9%; a indústria, 9,4%.

Algo como 75% das águas brasileiras são destinadas às empresas, sejam elas rurais ou urbanas, e a cultura do desperdício é marcante. Por ignorância e falta da aplicação de novas tecnologias, são desperdiçadas 40% das águas captadas para irrigação. Poucos adotam técnicas como a do gotejamento, em razão dos custos de sua implementação. Essas perdas quase correspondem ao volume de água consumido pelo abastecimento urbano. O índice nacional de desperdício foi de 37,78% em 2024.

Mas não para por aí. A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) aponta que as perdas no abastecimento urbano são da ordem de 40%, na média nacional. Vazamentos na tubulação e ligações clandestinas são as principais causas. As perdas totais (3,8 bilhões de metros cúbicos/ano) poderiam abastecer 67 milhões de brasileiros e solucionar o problema de 33 milhões de brasileiros que ainda não têm acesso à água tratada, segundo o Trata Brasil.

É tarefa dos governos municipais, estaduais e federal fazer cumprir as leis e normas que restringem o consumo de água. As outorgas para captação de água precisam ser fiscalizadas. O agronegócio, principal consumidor, deve adotar novas tecnologias e modalidades de irrigação para enfrentar a falência hídrica. E as multas por infrações no agro não podem prescrever, como ocorre agora com mais de R$ 1 bilhão que não foram cobrados.

Em um artigo publicado no Le Monde Diplomatique Brasil, em 2009, professores da UFABC calcularam o volume de água que pode ser captado das chuvas que escorrem pelos telhados de São Paulo e chegaram à conclusão, considerando os índices pluviométricos, de que essa água captada seria suficiente para atender às necessidades dos paulistanos. É o princípio das cisternas, que guardam a água para os tempos de escassez.

“No município de São Paulo tem-se uma precipitação média anual de 1.530 mm2. Em uma localidade com essa precipitação, uma superfície impermeabilizada de 36 m2 permite captar água correspondente a 151 litros por dia, que é a média de consumo per capita diária nacional. Ou seja, se fosse possível captar água de chuva com qualidade aceitável, a área impermeabilizada da cidade seria suficiente para abastecer seus habitantes.”

Não podemos ignorar a forma predatória pela qual o agronegócio se apropria da água, nem como mata os olhos-d’água para ampliar a área de plantio. Os olhos-d’água garantem o abastecimento de comunidades e a manutenção de ecossistemas completos.

A história mostra civilizações inteiras abandonando cidades e regiões que se desertificaram. Neste momento, por falta de água, Teerã avalia a impossibilidade de continuar a existir.

Ainda há o que fazer para vivermos em um estado de falência hídrica. Precisamos nos adaptar, reduzir o consumo, fazer o reúso, garantir a revitalização de rios e nascentes. Mas, para que isso seja efetivo, é preciso enfrentar o poder do agronegócio e de empresas como a Sabesp, que, privatizadas, priorizam seus acionistas em detrimento do interesse público. Defender o interesse público e garantir que leis e normas sejam respeitadas: esse é o papel do Estado.

Editorial brasileiro publicado na edição de fevereiro de 2026.  

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