Tendências para 2026 O ecossistema brasileiro de startups passa por um momento de ajustes depois que turbulências foram uma triagem natural no mercado. Para especialistas ouvidos por PEGN, vivenciamos a transição de um cenário impulsionado por capital e escala para um pautado por inteligência artificial, eficiência e sustentabilidade econômica.
“O ano de 2026 deve ser marcado pela virada de chave, em que startups competitivas não serão apenas aquelas que usam inteligência artificial, mas cujos modelos de negócio só são viáveis por causa da IA. A era do ‘crescer a qualquer custo’ termina e começa a era do ‘crescer com inteligência’”, afirma Betina Zanetti Ramos, vice-presidente de relacionamento da Associação Catarinense de Tecnologia (Acate).
Daniel Grossi, cofundador da Liga Ventures, concorda. Ele aposta na ascensão da IA Vertical, desenvolvida a partir do contexto de cada setor, como grande tese de 2026. “A IA generalista é um jogo global dominado por poucos players, mas quando olhamos para aplicações focadas em mercados como agro, saúde, varejo, logística, financeiro ou construção, existe um espaço enorme para as startups brasileiras criarem valor real”, declara.
Outro tema que está entre as apostas é a longevidade. Com o envelhecimento da população, surgem oportunidades para serviços e soluções de saúde, bem-estar, trabalho e moradia voltados a esse público. “São pessoas que querem se manter ativas e viver experiências, não apenas em termos profissionais, mas no tempo livre. Vai se tornar algo mais forte nos próximos anos”, opina Maria Rita Spina Bueno, fundadora do Mulheres Investidoras Anjo (MIA) e membro do Conselho da Anjos do Brasil.
A seguir, apontamos algumas tendências e apostas dos especialistas consultados por PEGN:
Setores
As fintechs devem continuar atraindo a maior parte do capital. Mas, para além das startups focadas em serviços financeiros, despontam também os setores de saúde e bem-estar, agronegócio, energia – por causa da evolução da IA e necessidade de processamento – sustentabilidade e clima.
Modelo de negócios
Após um momento de adequação à democratização no acesso à inteligência artificial, a tendência agora é de que os produtos nasçam com IA no centro da proposta de valor e não mais como recurso adicional. O produto deixa de ser uma ferramenta organizacional para ser um agente executor de tarefas e tomador de decisões. Com isso, o ecossistema verá uma mudança no modelo de negócios que pode alterar a predominância do SaaS.
“A IA que se baseia na cobrança por tokens ou créditos também impulsiona a adoção de modelos de negócios baseados no uso ou resultado. Por outro lado, modelos de SaaS que dependem apenas de interface e fluxo de trabalho, sem inteligência real, tendem a perder tração. O mercado está migrando do ‘software que ajuda’ para o ‘software que faz’”, aponta Grossi, da Liga Ventures.
Pedro Waengertner, cofundador da ACE Ventures, ressalta que, além do produto, a IA também afeta a distribuição – e que esse tema deve ganhar protagonismo na avaliação de startups por investidores. “Se a barreira de construção é menor e o marketing pode ser otimizado pela IA, a tendência é a hipersaturação de canais. Devemos pensar em como a startup vai se diferenciar no mercado em mutação que estamos vivendo.”
Maturidade no uso da IA
A ascensão acelerada da IA nos últimos anos gerou o lançamento de produtos, mas também impactou a operação de startups e empresas, trazendo maior eficiência, potencializando entregas e possibilitando operações mais enxutas. Para este ano, especialistas apostam em novas categorias, como agentes autônomos que executam processos completos e cobots que trabalham junto a humanos em áreas como administrativo, vendas e atendimento.
“A maior parte das empresas está ganhando maturidade no tema. A IA ainda não faz parte da cultura do dia a dia e muita gente ainda está dando os primeiros passos, entendendo como usar a tecnologia de forma estruturada e segura. Enquanto isso, a tecnologia está transformando mercados. A convivência entre maturação interna e disrupção externa deve continuar marcando os próximos anos”, afirma Grossi, da Liga Ventures.
Essa janela de adoção massiva pelo setor corporativo, que está de olho no retorno do investimento, é uma oportunidade para startups. “O Brasil é o segundo maior usuário de ChatGPT no mundo. Por outro lado, temos problemas, como gaps educacionais e no setor de saúde, aberturas regulatórias no setor financeiro. Existe um cenário de captura de valor, oportunidades que não conseguíamos atender antes”, aponta Waengertner, da ACE Ventures.
IPOs
Os especialistas não apostam em ver novas aberturas de capital de startups em 2026, mas dizem que uma janela pode se abrir a depender do cenário macroeconômico. O mais provável, porém, é que as saídas continuem acontecendo por fusões, aquisições ou rodadas secundárias.
“Para um IPO fazer sentido, a startup precisa mostrar consistência, governança, escala, lucros ou caminho claro para lucratividade, algo que nem todas conseguirão em um ambiente econômico mais incerto”, destaca Ramos, da Acate.
Waengertner opina que o mercado de investimentos é movido a sinais e comportamentos de manada. Por isso, é preciso que algum exemplo “puxe o bonde”. “Seria muito importante ter mais IPOs de tecnologia, tornaria a economia mais complexa e dinâmica.” |