Acompanhei na Companhia Nacional da Ópera de Pequim, num prédio moderno a oeste da Cidade Proibida, um ensaio corrido de "As Mulheres Generais da Família Yang", que será apresentada em São Paulo nas próximas terça e quarta-feira, depois Belo Horizonte, Brasília e Salvador. É uma das atrações chinesas do Ano Cultural Brasil-China. Foram quatro horas reveladoras sobre a prática do teatro na China, com intervalos para ouvir os encaminhamentos dos diretores, em especial das coreografias de luta. Conta a história das viúvas que se levantaram contra invasores nômades no início da Dinastia Song do Norte (960-1127), um dos ápices da civilização chinesa. Os atores vestiam roupas do cotidiano, agasalhos, com exceção das protagonistas, que estavam se adequando às armações dos figurinos. No final, como às vezes no Brasil, uma grande atriz do passado, Dong Yuanyuan, foi até o elenco para instruções e inspiração. Ficaram todos quietos como alunos, a começar das protagonistas e dos diretores. Ela não escondeu suas impressões. "Esta arte precisa ser passada adiante, de geração para geração", começou, voltando-se para uma das atrizes: "Eu posso ver o seu progresso. Vocês todos trabalham muito duro. Mas precisam melhorar." Voltou-se para outra: "Por exemplo, como você avaliaria as suas poses no palco? Não responda. Apenas mantenha a calma. Praticar leva tempo, não é fácil. Afinal, você não é uma Wudan [papel feminino acrobático], provavelmente é uma Daomadan [papel feminino marcial], certo? Mesmo que pareça um desafio, eu vi você praticando e prestando atenção quando outros ensinam. Todos estão se esforçando, é um bom sinal. Continue, continue praticando. Não é o suficiente, ainda não é. Você precisa praticar mais." Ela conversou separadamente com a intérprete central, Jiang Meiyi, que faz Mu Guiying, guerreira lendária que a própria Dong Yuanyuan interpretava. Jiang Meiyi contou depois que Dong Yuanyuan foi sua mestra no papel, desde o princípio. "Ela me confiou a peça. Pode-se dizer que, por meio da peça, a senhora Dong Yuanyuan me deu uma nova vida artística. Do canto e recitação a dança e artes marciais, tudo me foi ensinado, passo a passo. No ano em que me ensinaram esta peça, eu perdi cinco quilos." Diante do tema de "As Mulheres Generais da Família Yang", persistente nos palcos chineses, e de seu próprio papel, perguntei se Jiang Meiyi se considerava feminista. Ela hesitou: "Feminista? Sim, eu sou feminista". |