O caso de uma aposentada que ficaria 27 anos pagando dívida de cartão consignado ilustra abusos no crédito para idosos, diz José Roberto de Toledo no A Hora, do Canal UOL. Toledo relata que Dona Francisca, aposentada com salário mínimo, acabou presa em dívida impagável após pegar empréstimo com juros altos. O caso foi julgado pelo Tribunal de Justiça do Paraná, que reconheceu o abuso. Lá em 2015, 2016, a dona Francisca recebia uma pensão, uma aposentadoria de R$ 880 por mês, que era um salário mínimo na época, e o BMG, o banco, BMG ofereceu para ela um cartão de crédito consignado. Sem explicar direito o que isso implicava, porque quando você fala cartão de crédito consignado, como tem a palavra consignado junto, todo mundo acha que é o juros do consignado, que é muito mais baixo. Mas não, é um juro de cartão de crédito rotativo.José Roberto de Toledo Segundo Toledo, a aposentada fez um saque de pouco mais de R$ 1 mil e passou a pagar R$ 44 mensais, mas o valor devido só aumentava, pois não cobria nem os juros. "A dívida só ia aumentando", diz. O juiz que deu a sentença fez uma conta e comparou, se tivesse sido aplicada a tabela Price, que é uma tabela de referência para cálculo de juros e empréstimos financeiros. Simplesmente a dona Francisca ia demorar 27 anos, 27 anos para pagar o BMG, R$44 ou um pouquinho mais, porque o salário mínimo vai aumentando, então os 5% vão aumentando também, proporcionalmente, e ao total ela ia pagar R$ 13 mil. Dos mil reais que ela contratou, ela ia pagar treze.José Roberto de Toledo A Justiça determinou que o banco devolvesse valores cobrados a mais e aplicou multa de R$ 5 mil. "Compensa", ironiza Toledo, ao lembrar que o valor é muito inferior ao total que seria pago pela aposentada. Thais Bilenky pontuou: "Que era bem menos da metade do que ela teria que pagar ao banco." Toledo explica ainda que bancos costumam vender essas dívidas em fundos, antecipando o pagamento. "Eles pegam essas dívidas a receber, envelopam, põe tudo junto e criam um fundo, um fundo específico, que é ofertado para você, para mim, para todo mundo." Ele avalia que a expansão do crédito no Brasil ocorre principalmente no consumo, não em setores de juros baixos ou que geram patrimônio. Para ele, isso aprofunda a concentração de renda. "O que a gente está vendo aqui é que, dependendo da qualidade do crédito, da taxa de juros, das condições de pagamento, o que você tem é uma apropriação de uma enorme quantidade de dinheiro de pessoas pobres, como a dona Francisca." |