É possível que livros mudem vidas, tudo bem. Mas fazem muito mais do que isso. Livros fundam vidas, encarnam vidas, são a pura inscrição da vida convertida em palavra, dotam de significação uma vida extraviada, tornam-se a própria casa da vida quando tudo o mais perde o sentido. Não cabe atribuir ao livro uma função menor, julgá-lo um utensílio entre outros, ou um produto capaz de nos oferecer algum consolo, um conforto ínfimo. A humanidade se distingue pouco dos livros que alguma vez produziu: é em grande medida isso o que a define, isso o que nos caracteriza. Não por acaso a História, com agá maiúsculo, se inicia com a invenção da escrita, o instante em que nos fazemos capazes de criar e reter narrativas, maiúsculas histórias com agá minúsculo. "Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, sem dúvida, o livro", diz uma voz que domina como poucos esse interminável assunto, a voz de Jorge Luis Borges. Todos os demais instrumentos não passam de extensões do corpo. O microscópio e o telescópio aprimoram sua vista; o telefone e o microfone amplificam sua voz; a pá ou a espada alongam seu braço. "Mas o livro é outra coisa", Borges completa o pensamento, "o livro é uma extensão da memória e da imaginação". No livro a memória humana se ordena e se perpetua; no livro a imaginação humana toma novas formas, vai abrindo caminhos que antes pareciam impossíveis. Nada do que digo aqui é novo, nada é controverso, tudo participa de um certo consenso da cultura, a ponto de se converter em lugar comum, quase em clichê. E, no entanto, espanta que tudo isso esteja ameaçado em grande medida e não se note comoção nenhuma, nenhum temor diante do que podemos estar prestes a perder. Num mundo ruidoso, estridente, prolífico em imagens chamativas, ávido por atenção a qualquer custo, a leitura se vê desconfortável como nunca se viu, a leitura silenciosa e profunda pena em encontrar espaço para existir. Responda com máxima sinceridade, leitor, se porventura aí estiver: você ainda consegue ler livros com tanta concentração e paciência quanto lia há três, cinco, dez anos talvez? Minha interrogação não vem de uma posição de soberba, da suposta superioridade dos que leem, dos que elaboram ao fim do ano sua longa lista de obras lidas com absoluto interesse, sem distrações paralelas. Vem da posição contrária, a mais sincera possível: de alguém que sente a cada ano seu fôlego se perder, seu olhar a vagar da biblioteca ao celular, cada vez por mais tempo. Se nem um leitor profissional, o escritor tão intertextual e metalinguístico que sou, o crítico literário, o colunista que procura centrar nos livros quase tudo o que se propõe a comentar, se nem esse leitor tem passado incólume pelo anti-intelectualismo de nossa época, que chance afinal terão os livros? Como poderemos preservar o espaço que eles têm ocupado há milênios? Não trago respostas, mas também não empresto minha voz a nenhuma desistência. Sei que nos cabe a tarefa quixotesca de ler ainda, de ler mais uma vez, resistindo ao barulho do mundo, insistindo no mais pensante dos silêncios. Por isso, aceitei a missão de somar forças nesta coluna coletiva, de me juntar a Natalia Timerman, Jeferson Tenório e Arthur Nestrovski, e aqui comentar uma grande fartura de livros. Comentá-los à velha maneira, com um furor anacrônico, com o extemporâneo desejo de passar adiante um segredo, tudo o que nos sussurram as páginas que lemos, tudo o que declaram com eloquência, tudo o que revelam às vezes aos berros, tudo o que ainda dizem esses tantos livros que não sabem que definham - e que bom que não sabem, pois assim continuam a existir. |