10 maio, 2026

Fernando Eiras vai encontrar a «sombra luminosa» de Mário Quintana no cinema | Aurora do Cinema


Aurora Miranda Leão*

O título é singelo e desperta muitos imaginários: “Minha Sombra Luminosa”

Assim vai chamar-se o filme sobre o poeta gaúcho Mário Quintana, tendo como cerne de sua narrativa a amizade colorida entre o poeta e a fotógrafa, matizada pelas sutilezas da Poesia.

O centro histórico da capital gaúcha é o ponto principal das locações, que começaram domingo passado, juntando Fernando Eiras e Klara Castanho, os intérpretes de Mário e Liane.

Carros antigos estacionados na rua Caldas Júnior, uma das mais lendárias de Porto Alegre, compõem a ambiência dos idos de 1986, época destacada na película para mostrar o cotidiano e os lugares pelos quais o poeta passava na Capital.

A direção e o roteiro do filme são de Tomás Fleck, e a produção executiva de Chica Mendonça e Ernesto Soto. A equipe é composta por 97% de profissionais gaúchos, o que contribui, e muito, para que a obra sublinhe uma bela assinatura gaúcha:

“É um filme de ficção sobre uma amizade improvável, de uma pessoa que já está com quase 80 anos, e constrói um relacionamento com uma menina, no início de sua carreira como fotógrafa. A abordagem é mais sobre uma amizade inusitada do que sobre um poeta ou o Quintana. E a gente está tratando um pouco dessas situações que ele viveu”, conta Chica Mendonça.

Inspirado em dados reais da amizade da dupla, o filme conta a história de Liane Neves, a fotógrafa então iniciante, que topou o desafio de registrar o poeta, conhecido por ser arisco, icônico e avesso à própria imagem. Porém, ao descobrir que ele corre o risco de perder a casa, Liane transforma o trabalho em missão. E ao tentar tirá-lo da desconfortável situação, acaba mudando para sempre a vida dos dois.

Liane tinha então 23 anos; Quintana quase 80. Ela foi contratada para documentar fotograficamente os 80 anos do poeta. Ao longo de um ano, o acompanhou diariamente: «Fico emocionada e honrada de saber de um filme que vai contar a minha história, nunca imaginei que seria um personagem. Fiz esse trabalho há mais de 40 anos», revela.

Liane fotografava o poeta por vários cenários do centro de Porto Alegre, onde costumava frequentar lugares preferidos, como a Biblioteca Pública do Estado e até mesmo a barbearia. Na biblioteca, Quintana gostava de ler e reler suas colunas escritas para o Correio do Povo.

Quanto ao título do filme, Liane Neves, hoje com 67, comenta que ouviu de Quintana durante uma conversa, em um dos primeiros encontros: “Ele olhou para mim, e disse: ‘lá vem minha sombra luminosa’”, relata. “Não sei se é apelido ou jeito de falar, mas foi uma forma muito carinhosa e importante para mim”.

Mário Quintana também escrevia poemas para a fotógrafa. Em um deles, declarou que o fotógrafo tinha a mesma função do poeta: eternizar um momento que passa. «Ele sempre teve uma sintonia muito grande entre a gente».

Outros locais de Porto Alegre também serão inclusos nas filmagens. A produção estima 22 diárias de gravações e acredita que o lançamento seja no segundo semestre de 2027: “A ideia também é mostrar um pouco como funcionava o Hotel Majestic. Para ser exatamente isso, uma volta nessa época de 1986”, finaliza Chica Mendonça.

Um pouco mais sobre Quintana

O poeta Mário Quintana era hóspede do Hotel Majestic, de belissimo projeto arquite tônico, no centro histórico de Porto Alegre, entre 1968 e 1980.

Prédio clássico, datado dos primórdios do século XX, o poeta fez do espaço seu lar, tornando-se seu morador por mais de uma década. Por isso, em homenagem a ele e seu confesso amor pelo Majestic, o edificio foi tombado e, desde 90, abriga a Casa de Cultura Mario Quintana (CCMQ), ponto fundamental para quem vive em POA e parada obrigatória para quem visita a capital do Rio Grande.

Casa de Cultura Mário Quintana é um importante centro cultural, onde está preservada a réplica do quarto onde viveu, sonhou, sofreu, chorou e criou poesia o imortal Mário Quintana.

A escolha de Fernando Eiras para interpretá-lo não podia ser mais acertada: Eiras é ator de tradição, traz no sangue a vocação, herdada do pai (radialista, músico e compositor), tem trabalhos memoráveis no teatro, cinema e televisão, tendo coroado a qualidade de sua veia artística com a magnânima performance no filme «O Mandarim»(1995), do cineasta carioca Júlio Bressane.

Nesse filme bressaniano, que amo desde o 1o frame, Fernando Eiras vive Mário Reis, cantor de extrema delicadeza vocal, de bastante êxito no período de 1928 a 1936, sendo considerado o «Bacharel do Samba» e grande precursor da Bossa Nova – ele cantava baixinho e pausadamente.

Depois da maestria com que compôs a figura enigmática de Mário Reis, não nos resta dúvida: Fernando Eiras vai impressionar, poderosamente, na composição do saudoso poeta Mário Quintana.

*Aurora Miranda Leão é jornalista, poeta, doutora em Comunicação e ama Porto Alegre.