 | Divulgação/Meta |
| WhatsApp tem nova IA: 4 pontos para amar, 3 para odiar e 4 para temer |
|  | Helton Simões Gomes |
| Depois de quase um ano vendo rivais avançando, a Meta finalmente lançou uma nova inteligência artificial. Para azar -ou sorte- da empresa de Mark Zuckerberg, o Muse Spark ganhou o mundo no mesmo dia em que a Anthropic anunciou o Claude Mythos, o sistema poderoso demais para ser colocado nas mãos de qualquer um. Em breve, o Muse Spark será o novo motor do Meta AI nos aplicativos da Meta, substituindo o Llama 4, cujo fiasco levou Zuckerberg a remodelar toda sua divisão de IA e gastar bilhões na contratação de engenheiros, pagos como jogadores de futebol. Ao menos no design, a mudança já é visível: o "botão azul" dá lugar a um círculo de pétalas roxas. Como WhatsApp e Instagram são alguns dos serviços digitais mais usados do Brasil, Radar Big Tech lista o que você provavelmente vai amar, odiar ou temer no Muse Spark. Ainda indisponível nesses apps, a nova IA roda no Meta AI, por onde se vê o que nos espera. Vamos começar pelo amor. |
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 | Mark Zuckerberg, CEO da Meta | Josh Edelson/AFP |
| Muse Spark: 4 pontos para amar |
| 1) Entende texto, som, imagens e vídeos A nova IA da Meta compreende diversos formatos de informação com maior fluidez que seu antecessor. É multimodal, no jargão da área. Ou seja, a interação é possível sem ter de escrever nada, bastando áudios ou fotos para contextualizar um pedido. Foi essa habilidade que testei ao mostrar uma imagem com alimentos e pedir para o Muse calcular suas calorias. Veio a conta: 240 kcal para a banana, que ele notou estar madura; a pera, identificada como Williams; e a fatia de pão, sem manteiga. 2) Modo compras e modo saúde Novidade entre as IAs, o modo compra é acionado no mesmo botão onde você muda o ritmo da IA de "instantânea" para o "pensamento". Ainda que seja estranho misturar as capacidades técnicas do modelo com a estratégia comercial da Meta, aposto que muita gente vai cair de amores pela função, sobretudo por ser uma vitrine para lojas que fazem do Instagram o seu reduto. Já o modo saúde é não só o sonho de consumo dos hipocondríacos, mas atinge em cheio uma das principais motivações do uso da IA, a busca por informações sobre doenças, condições físicas e por aí vai. Segundo a Meta, mais de mil médicos trabalharam no refinamento das informações usadas para treinar o Muse Spark para deixá-lo mais sagaz na área de saúde. A promessa é que a IA consiga produzir até imagens interativas (você passa o mouse ou o dedo por um ponto, e uma informação é exibida), mas essa função parece não ter chegado ao Meta AI. |
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3) Capacidade de raciocínio | É o que a Meta chama de "pensamento", também não é o primeiro a ter essa habilidade, mas, na prática, é um modo que faz o modelo chegar a soluções mais tarimbadas, ao custo de mais poder computacional e tempo. |
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| 4) Subagentes | O Muse Spark colocará subagentes para trabalhar em tarefas que exijam diversas etapas até serem concretizadas. Eles destrincham o pedido em vários e trabalham simultaneamente para terminar mais rápido. |
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 | Saul Loeb/AFP |
| Muse Spark: 3 pontos para odiar |
| 1) Profusão de posts de redes sociais Ao percorrer a internet atrás de respostas, diversas IAs já recorrem a redes sociais. Para a Meta, posts de usuários são um trunfo do novo modelo. É mais que isso. No Muse Spark, as mídias sociais são a fonte principal, mostram testes de Radar Big Tech. No WhatsApp, ainda com o Llama 4, uma busca por bebidas lácteas com preço baixo indicou dois sites, Amazon e 3 Corações. Para a mesma demanda, o Meta AI tirou a resposta integralmente de sete vídeos no Instagram. No mesmo app, a indicação de lugares a serem visitados em São Sebastião, no litoral de São Paulo, usou onze fontes, dez Reels e um site de viagens. Enquanto os debates mais sadios giram em torno de a IA separar o joio do trigo para considerar informação confiável em suas respostas, a Meta está mais preocupada em fazer da nova IA um escoadouro de conteúdos postados não só no Instagram, mas também no Facebook e Threads. 2) Sem alternativa A IA nem chegou direito, e a Meta já admite: o Muse Spark veio para ser substituído ("É uma base poderosa, e a próxima geração já está em desenvolvimento") e está aquém de concorrentes ("Este modelo inicial é compacto e rápido por design, mas capaz o suficiente para raciocinar sobre questões complexas de ciência, matemática e saúde"). A bem da verdade, o Muse Spark não passa vergonha diante dos rivais. Vai melhor em alguns quesitos (no modo "Pensando", faz 86,4 pontos em reconhecimento de imagem, marca 74,8 em busca agêntica), mas pior em outros (faz 42,5 diante dos 76,5 pontos do Gemini 3.1 Pro em compreensão abstrata de jogos; e 80 versus 87,5 do GPT 5.4 em programação). A transitoriedade não é do jogo, mas, caso não gostem dele, os usuários talvez não achem alternativas. A Meta proibiu ChatGPT, Copilot e companhia no WhatsApp, mas foi impedida pelo Cade, que abriu inquérito por prática anticompetitiva. Sem poder vetar, a empresa vem cobrando pelas mensagens, o que alguns desses chatbots dizem inviabilizar sua atuação no aplicativo. O Cade vê na cobrança o descumprimento de sua decisão e vem multando a Meta em R$ 250 mil por dia. 3) Ele é engraçadinho No Muse Spark a bajulação de outros chatbots dá lugar a uma espirituosidade suspeita. Lembra do teste com as frutas e o pão? Retirei a pera, e pedi à IA para calcular as calorias de tudo que não estivesse no prato. Ela entendeu o pedido, sugeriu se tratar de uma pegadinha -não era- e perguntou se eu queria saber as calorias caso comesse a mesa. Topei para ver até ia dar. "Beleza, você pediu", disse a Meta AI antes de falar que "madeira não é digerível pra gente", pois "nosso corpo não quebra celulose" e que "para humano, o resultado seria só uma dor de barriga histórica e uma visita ao hospital". Depois recomendou: "a mesa tá melhor como apoio do que como sobremesa". Pode até agradar algumas pessoas, mas, tal qual como a ironia do Grok (xAI), esses trejeitos são artifícios voltados a prender o usuário em conversas já pouco benéficas para ele, mas para lá de úteis para a plataforma. Não está claro como os chatbots serão monetizados para além das assinaturas, mas tempo de tela é métrica crucial na economia da atenção. A profusão de Reels como fonte da nova IA indica um caminho: talvez a Meta inclua em suas taxas de entrega os vídeos que o Muse Spark exibe em outras de suas plataformas como WhatsApp e Facebook. A ver. |
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 | Andrew Caballero-Reynolds/AFP |
| Muse Spark: 4 pontos para ficar de olho |
| 1) Bilhões redentores Primeiro lançamento do time de superinteligência da Meta, o Muse Spark chega para apagar o vexame do Llama 4. Apresentado pela Meta como "nosso modelo mais avançado até agora e o melhor da categoria para multimodalidade" e alardeado como superior a GPT-4o (OpenAI) e Gemini 2.0 Flash (Google) "em uma ampla gama de benchmarks amplamente aceitos", a IA caiu em descrédito após especialistas flagrarem a Meta manipulando os testes de IA para superar rivais. Isso demoliu a boa aceitação dos modelos da empresa entre pesquisadores -em abril de 2025, o Llama era o 4º do mundo em uso de tokens; um ano depois, não está nem no top 10 do OpenRouter. Em entrevista ao Financial Times, Yann LeCun, ex-chefe de IA da Meta e respeitado pesquisador na área, confirmou o esquema, que levou Zuckerberg a demitir parte dos profissionais do time de IA generativa e criar uma nova divisão. A nova frente, o Laboratório de Superinteligência da Meta, passou ao comando de Alex Wang, contratado após 49% de sua startup, a Scale AI, ser comprada por US$ 14,3 bilhões. Segundo a Meta, IA foi feita do zero dentro de nove meses. Não sem sobressaltos: em março, o lançamento foi adiado, porque estava atrás dos rivais em raciocínio, programação e escrita, segundo o New York Times. Como o Muse Spark recoloca a Meta na corrida da IA, ainda que em posição indefinida, não erra quem aposta em esforços consideráveis de Zuckerberg para fazê-lo pegar. 2) Sem código aberto Diferentemente do Llama, o Muse Spark tem código fechado. Abandonar o modelo aberto significa abrir mão de um "exército gratuito" que corrigia bugs e melhorava o Llama. Agora depende só do talento de seus desenvolvedores internos. Fora isso, bater em retirada parece admitir de derrota para os modelos chineses de código aberto, cada vez mais dominantes entre startups norte-americanas. 3) Integrado Além de habitar Instagram, WhatsApp, Facebook e Messenger, o Muse Spark será a IA dos óculos Meta Ray-Ban. No computador vestível, a multimodalidade será crucial. Até dá para digitar, mas responder a comandos de voz e interagir com o que está diante dos olhos de quem veste o aparelho soa mais natural. Yann LeCun deixou a Meta duplamente insatisfeito: era chefiado por Wang, mais jovem e sem vasta experiência em pesquisa, e acreditava que a Meta estava no caminho para atingir a Inteligência Artificial Geral, quimera entre as big techs. Para ele, grandes modelos de linguagem são incapazes de processar informação suficiente para se chegar a algo como inteligência, justamente por não entrarem em contato direto com experiências reais. Dona das maiores redes sociais do mundo, a Meta amplia uma capacidade única entre as big techs treinar sua IA com situações, comportamentos e interações humanas. Agora, dá um passo além e ocupa uma invejável posição: a cada pessoa ostentando um de seus óculos inteligentes, verá sua IA ser bombardeada com o funcionamento do mundo. |
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 | Annegret Hilse/Reuters |
| Google será investigado por abuso de IA no Brasil |
| O Google será investigado no Brasil pela forma como usa inteligência artificial. O Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) abriu processo administrativo por suspeitar que a big tech colete conteúdo jornalístico e submeta ao chatbot Gemini e ao resumos na busca online AI Overview para essas ferramentas entregarem respostas aos usuários. O órgão investiga se, além de não pagar pelas notícias, o Google compromete o negócios de empresas jornalísticas ao reter o usuário em sua própria plataforma com informações colhidas por veículos de imprensa. Fazer isso afeta a sustentabilidade de operações por reduzir o tráfego online. Agora, o Cade avaliará se o Google abusou de sua posição dominante das buscas online —cerca de 90% no Brasil— para prejudicar sites de notícia e beneficiar suas próprias ferramentas. |
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 | QR Code será exibido no lugar do reCaptcha para acessos a sites suspeitos de serem conduzidos por agentes de IA | Divulgação/Google |
| 'Eu não sou um robô' vai barrar IA em sites 'só para humanos' |
| No futuro, quando perguntarem quando os agentes de inteligência artificial invadiram sua vida, lembre-se deste momento. Você não deve ter notado, afinal, trata-se de uma mudança invisível e direcionada às máquinas —isso vale, é claro, se eu estiver falando com um ser-humano. Na semana passada, o Google alterou drasticamente uma das ferramentas de segurança mais disseminadas da internet. É o reCaptcha, a ferramenta do "eu não sou um robô". Criado para barrar acessos automatizados, o serviço evoluiu, porque a nova geração de robôs consegue, sem muito esforço, se comportar como nós. Agentes são encarados como a nova fronteira da IA por serem autônomos o suficiente para executar tarefas em nome das pessoas, como visitar sites para comparar preços, fazer reservas e pagar por produtos e serviços. Por outro lado, podem ser usados para acessar serviços indevidamente, o que pode comprometer seu funcionamento. Para o Google, a nova plataforma é a solução para a web agêntica. |
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