26 abril, 2026

Homens inteligentes já perceberam: o machismo oprime a eles também e defesa da mulher não altera sua masculinidade | AURORA DO CINEMA

 

Aurora Miranda Leão *

Ator Dan Stulbach em campanha contra violência

Em pleno Terceiro Milênio, depois de a humanidade enfrentar uma devastadora pandemia – que vitimou milhões de pessoas no mundo, alcançando a dolorosa cifra de mais de 700 mil mortes somente no Brasil -, após o deplorável episódio de vandalismo que depredou o Patrimônio Histórico Nacional em Brasília, no fatídico 8 de janeiro de 2023, e de tantos outros fatos semelhantes e indefensáveis, supõe-se que as pessoas de maior instrução, maior poder aquisitivo e mais acesso à informação, posicionem-se determinadamente contra atitudes ultrapassadas, retrógradas,  incongruentes e disparadoras de violência.

Até que, de repente, surge uma notícia espantosa – saída sabe-se lá de que catacumba do Além -, de que um conhecido ator está organizando um evento para reunir, acolher e aconselhar os homens, pois estes estão muito fragilizados porque andam perdendo importância na sociedade.

O tal evento, apelidado de “O farol e a forja”, capitaneado por Juliano Cazarré, seria uma forma de “responder ao enfraquecimento da figura masculina”.

Segundo o ator, há tempos ele sofre críticas por defender a família e não pedir desculpas por ser homem.

Cazarré afirma que os homens estão fragilizados e a sociedade está pagando um preço alto por isso. Por isso, “É necessário resgatar valores masculinos”. 

Felizmente, no meio artístico, a maioria pensa diferente, possui visão crítica e defende ideias libertárias, como é próprio de quem lida com a essência do humano, como o Artista (por definição, um ser de muita sensibilidade, compreensão da precariedade da vida, importância da solidariedade e respeito ao próximo, e defensor da equidade de direitos e oportunidades, sem distinção de idade, etnia nem classe social).

Assim, várias atrizes e diversos atores logo se posicionaram contra as afirmações do ator – além de jornalistas e público de maneira geral -, rechaçando com veemência o nível bizarro de suas assertivas. Entre esses, Cláudia Abreu, Julia Lemmertz, Paulo Betti, Guta Stresser, Betty Gofman, Maeve Jinkings, Marjorie Estiano e Elisa Lucinda.

“Juliano, você não criou. Você só está reproduzindo um discurso que já é amplamente difundido, enraizado e que mata mulheres todos os dias. Por favor, dá uma olhada para isso”, escreveu Marjorie Estiano.

Já a atriz Maeve Jinkings (a Cecília da novela “Vale Tudo”, 2025), que contracenou com o ator no filme “Boi Neon”(Gabriel Mascaro, 2015), lamentou com bastante ênfase:

Cazarré, te escrevo em nome do carinho gigante que tenho pelo que vivemos juntos. Praticamente, moramos juntos durante três meses, fizemos juntos um dos mais belos filmes de nossas carreiras. Fomos parceiros. Tenho admiração por seu enorme talento de ator. E por tudo isso, também me sinto triste. Apenas triste em ver você enredado em uma autonarrativa tão perigosa e narcísica. Chega a ser irresponsável. Mas você é adulto, você tem recursos. Espero que um dia você perceba que tudo não passa de um holograma, de manutenção desesperada de poder de gênero, com graves consequências sociais. Uma loucura coletiva. Fique bem “.

Ao que parece, o que Juliano Cazarré pretende mesmo é endossar um pensamento retrógrado, angariar adeptos pras suas asneiras e engrossar a violência contra as mulheres. Pois o subtexto de sua discursividade, além de narcísico, coloca o feminismo como o mal a ser combatido.

Das duas, uma: ou o ator é de fato um representante da postura opressora tradicional – segundo a qual homens mandam e mulheres se calam -, ou carece de inteligência/leitura e discernimento para entender o quanto avança, célere, para a pior das trevas: a que erigiu a colonialidade, o patriarcado, o silenciamento feminino, a tirania dos mais fortes e a submissão dos excluídos como regra, e essas estruturas devem ficar intocadas para os homens continuarem sentindo-se fortes.

Ser antimachista não diminui a masculinidade de nenhum homem nem interfere na virilidade

Felizmente, há uma imensidão de homens que pensam e agem bem diferente do ator: jovens, adultos de diversas idades e artistas de várias vertentes, como Wagner Moura, Bruno Gagliasso, Juliano Floss, Caetano Veloso, Lázaro Ramos, Chico Buarque, Djavan, Irandhir Santos e tantos outros.

Falta a Juliano Cazarré – e a quem mais defende essas aberrações sexistas – entender uma equação bem simples: “Quando uma mulher avança, nenhum homem retrocede”, como bem afirma a escritora Joyce Martins.

Porque o machismo é uma tragédia social, que dilacera a vida de crianças, mães, pais, filhos, mulheres, homens e pessoas de qualquer idade, etnia e classe social.

*Aurora Miranda Leão é jornalista, poeta, copydesk e doutora em Comunicação.