A condenação dos irmãos Brazão e as perguntas que permanecem em aberto |
Em 14 de março de 2018, a vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes foram assassinados no bairro do Estácio, no Rio de Janeiro, por disparos efetuados a partir de um veículo que os perseguiu. O crime chocou o Brasil e repercutiu internacionalmente, tornando-se um símbolo das contradições da democracia brasileira: uma mulher negra, favelada, vereadora pelo PSOL, morta de forma profissional e meticulosa, em um crime que levaria quase oito anos para ter seus mandantes formalmente julgados. |
Em 25 de fevereiro de 2026, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal condenou por unanimidade os irmãos Domingos e Chiquinho Brazão como mandantes dos homicídios. Uma análise rigorosa dos fatos, das provas e das inconsistências que marcaram a investigação impõe ao jornalismo uma pergunta incômoda: a condenação dos Brazão responde a todas as questões abertas pelo crime — ou foi apenas um expediente para encerrar a historia sem aprofundar? |
Este texto é uma análise das fragilidades técnicas da acusação e dos fios investigativos que, ao longo de oito anos, nunca foram puxados adequadamente — especialmente aqueles que levam ao condomínio Vivendas da Barra, na Barra da Tijuca, onde moravam o executor confesso e um ex-presidente da República. |
A ESTRUTURA DA ACUSAÇÃO E SUAS FRAGILIDADES |
A condenação dos irmãos Brazão repousa, em última instância, na colaboração premiada de Ronnie Lessa, o ex-policial militar que confessou ter efetuado os disparos que mataram Marielle e Anderson Gomes. Lessa firmou acordo com o Ministério da Justiça em março de 2024, homologado pela Polícia Federal sob a gestão do ministro Ricardo Lewandowski, e passou a apontar os Brazão como os contratantes do crime. |
O ministro Alexandre de Moraes, relator da ação penal no STF, sublinhou em seu voto que a colaboração premiada, por força da legislação brasileira, não constitui prova isolada suficiente para condenação — e afirmou que os relatos de Lessa foram corroborados por elementos documentais, testemunhais e técnicos produzidos pela Polícia Federal. A Procuradoria-Geral da República apontou interceptações telefônicas e registros eleitorais que indicariam a influência dos Brazão em áreas controladas por milícias. |
Há, porém, uma questão estrutural que a defesa dos réus levantou e que merece exame sério: a delação de Ronnie Lessa foi o ponto de virada das investigações. Antes dela, os Brazão não estavam no foco da apuração. A pergunta que o rigor jornalístico impõe é: em que medida o quadro corroborador construído após a delação foi produzido de forma independente dela, ou em que medida foi organizado para dar consistência a uma narrativa já estabelecida pelo colaborador? |
A linha entre “corroboração genuína” e “narrativa construída retroativamente” é tênue e, no caso Marielle, merece análise mais detalhada do que o julgamento público permitiu. |
MOTIVO: UMA LÓGICA QUE NÃO FECHA |
A motivação atribuída ao crime pela acusação é a oposição de Marielle Franco a interesses imobiliários dos Brazão em áreas controladas por milícias na Zona Oeste do Rio de Janeiro. A vereadora era contrária à regularização de loteamentos clandestinos que, segundo a PGR, beneficiavam a família. |
O problema lógico dessa narrativa é evidente: a lei que Marielle combatia foi aprovada. Sua morte, portanto, não impediu o avanço dos interesses imobiliários dos Brazão — ao contrário, transformou uma disputa política local em um escândalo internacional de enorme repercussão, submetendo os suspeitos a décadas de perseguição judicial. Homens experientes no mundo da política e das milícias teriam sido incapazes de prever essa consequência óbvia? |
A acusação apresentou uma versão revisada: o motivo não seria apenas a lei, mas o ativismo contínuo de Marielle em denunciar as milícias e mobilizar oposição nas comunidades. Essa versão é mais ampla e menos falsificável — o que a torna, do ponto de vista da análise lógica, mais fraca, não mais forte. Motivos vagos são mais difíceis de contestar mas também mais difíceis de comprovar. |
O papel de Rivaldo Barbosa: o que o STF não concluiu |
Um dado revelador do próprio julgamento é a limitação do que o STF conseguiu provar. Rivaldo Barbosa, ex-chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro, foi condenado por obstrução de justiça e corrupção passiva — mas absolvido do envolvimento direto nos homicídios. O ministro Moraes declarou explicitamente que “não há provas que confirmem que Rivaldo participou dos homicídios.” |
Isso é significativo por duas razões. Primeiro, Rivaldo estava no centro da acusação original da delação de Lessa — e o STF não encontrou elementos suficientes para sustentar essa parte. Segundo, a condenação por obstrução de justiça confirma que as investigações originais foram deliberadamente sabotadas por quem as conduzia. Isso levanta uma questão que o julgamento não respondeu: se as investigações foram corrompidas, qual é o grau de contaminação do restante do processo? Toda a investigação subsequente partiu de uam base corroída. |
O PSOL encaminhou ao Procurador Geral de Justiça do Rio, António José Campos Moreira, um ofício solicitando o desarquivamento de inquéritos conduzidos ou arquivados sob a gestão de Rivaldo Barbosa. O argumento é sólido: uma autoridade policial condenada por obstrução e corrupção pode ter maculado a cadeia de custódia de provas em múltiplos casos. Isso não é especulação — é consequência lógica de uma condenação unânime. |
AS PERGUNTAS DO VIVENDAS DA BARRA |
Enquanto o debate sobre os mandantes se concentrou nos Brazão, uma série de fatos sobre a vizinhança de Ronnie Lessa nunca foi adequadamente investigada. A casa de Lessa no condomínio Vivendas da Barra, na Barra da Tijuca, fica a menos de 60 metros da residência que Jair Bolsonaro mantinha no mesmo condomínio. |
Élcio Queiroz, o motorista do veículo usado no crime, frequentou o condomínio ao menos doze vezes entre janeiro e outubro de 2018, segundo registros de entrada obtidos pela Folha de S. Paulo. |
A combinação da proximidade física com os episódios subsequentes cria um conjunto de perguntas que um processo penal rigoroso deveria ter respondido — e que, ao que se sabe, nunca foram respondidas de forma satisfatória. |
O porteiro, o interfone e a retratação |
O episódio mais perturbador da investigação é o do porteiro Alberto Jorge Ferreira Mateus. Em dois depoimentos prestados à Polícia Civil do Rio de Janeiro, em outubro de 2019, o funcionário do condomínio declarou que Élcio Queiroz havia anunciado, ao se apresentar na portaria no dia 14 de março de 2018, que iria à casa de número 58 — endereço de Jair Bolsonaro. O porteiro também afirmou ter interfonado para a residência e ouvido, do outro lado da linha, a voz de “seu Jair”, que autorizou a entrada. |
A informação foi veiculada pelo Jornal Nacional em 29 de outubro de 2019 e causou comoção nacional. À noite, Bolsonaro apareceu em um vídeo acusando o Jornal Nacional de manipulação porque, naquele dia, ele estava em Brasilia e não poderia ter recebido a ligação. No dia seguinte, o então ministro da Justiça Sergio Moro abriu, pela Polícia Federal, um inquérito para investigar se o porteiro havia cometido falso testemunho. Menos de um mês depois, em novo depoimento prestado agora à Polícia Federal — não à Polícia Civil, instituição competente pelo caso — o porteiro voltou atrás: disse ter anotado errado o número da casa, confundindo o 58 de Bolsonaro com o 65 de Lessa. |
Há aqui ao menos três questões que o texto da acusação oficial jamais endereçou de forma satisfatória. A primeira é procedimental: por que a PF, sob Moro, abriu inquérito para investigar o porteiro e não para investigar o que o porteiro tinha declarado? A segunda é técnica: o sistema de interfone do condomínio, segundo apuração posterior, transferia chamadas diretamente para celulares dos moradores — o que tornava a presença física de Bolsonaro em Brasília irrelevante para a questão de quem atendeu a chamada. |
A terceira é humana: o porteiro, segundo relatos de familiares colhidos pela Revista Veja, vivia com medo desde que seu nome foi exposto publicamente. Ele morava no bairro da Gardênia Azul, área dominada por milícias. |
O delegado Antônio Ricardo Lima Nunes, que ouviu o porteiro na Polícia Civil, afirmou posteriormente em podcast que o funcionário foi “categórico” em suas declarações originais: “Só que tomou uma dimensão que não dá mais para voltar atrás.” O delegado também negou que o então governador Wilson Witzel tivesse interferido nas investigações, contrariando versão sustentada por Bolsonaro. |
Álibi que Carlos Bolsonaro destruiu ao tentar construí-lo |
Em novembro de 2019, ao tentar provar que seu pai não estava no condomínio no dia do crime, o então vereador Carlos Bolsonaro publicou nas redes sociais um vídeo com gravações do sistema de interfone do condomínio. O objetivo era mostrar que as chamadas do dia 14 de março de 2018 não iam para a casa de seu pai, mas para a de Lessa. |
O resultado foi o oposto do pretendido. No vídeo, Carlos clicou inadvertidamente em um registro que mostrava o sistema de interfone conectado à sua própria casa — a de número 36. O horário da chamada era próximo ao momento em que Lessa e Queiroz se preparavam para sair do condomínio em direção ao Estácio. A mensagem do porteiro: “Seu Carlos, seu Uber chegou.” Isso destruiu o álibi que Carlos havia afirmado publicamente: o de que, naquela tarde, estava em sessão na Câmara Municipal. |
Registros de sessão da Câmara de Vereadores indicavam sua presença em votação às 16h45. Da Câmara, no Centro do Rio, ao condomínio na Barra da Tijuca, o percurso mínimo é de 50 minutos. O interfone registrou sua presença em casa às 17h53. O cronograma era matematicamente compatível — e, mais importante, revelou que Carlos estava no condomínio enquanto os executores do crime o deixavam rumo ao assassinato. |
Nenhuma autoridade tomou qualquer providência em relação a esse dado. O Jornal Nacional, que havia veiculado o depoimento do porteiro e depois o vídeo de Carlos, interrompeu a cobertura do episódio. Marcelo Freixo, então deputado e próximo ao PSOL, alegou publicamente que a pessoa na casa, na ocasião, era o “primo” de Carlos, conhecido como “Índio” — uma declaração que nunca foi verificada publicamente e que a própria defesa de Carlos jamais utilizou como argumento oficial. Aliás, a participação de Freixo em todo o episódio foi dúbia, mostrando claramente sua falta de interesse em encarar a discussão. |
O CONTEXTO POLÍTICO E O FIO DA GLO |
Em fevereiro de 2018, semanas antes do assassinato de Marielle, o governo Michel Temer decretou a intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro. A operação, denominada Garantia de Lei e Ordem (GLO), colocou o Exército nas ruas fluminenses sob o comando do general Walter Braga Netto — homem de confiança do general Villas Bôas, então comandante do Exército. Era a primeira intervenção federal em um estado desde a redemocratização. |
O então deputado federal Jair Bolsonaro, que votou a favor da GLO, fez declarações públicas contundentes contra a operação. Em 16 de fevereiro de 2018, afirmou que a intervenção se prestava a “servir esse bando de vagabundos”, referindo-se ao governo Temer. Reclamou que a decisão havia sido tomada “dentro de um gabinete, sem consulta às Forças Armadas”. Era uma postura que evidenciava cisão entre Bolsonaro e o establishment militar representado por Villas Bôas. |
A morte de Marielle — uma vereadora de esquerda com projeção nacional, militante de direitos humanos, assassinada de forma espetacular durante a GLO — teve impacto direto sobre a operação. Foi uma espécie de reedição do episódio Riocentro: um atentatdo político. |
O crime colocou os militares sob escrutínio internacional, gerou manifestações em dezenas de países e tornou insustentável qualquer narrativa de que a intervenção havia trazido ordem ao Rio. E tornou possível a aproximação entre Bolsonaro e o general Villas Boas. |
As pesquisas de Ronnie Lessa |
A empresa CCFFácil apresentou ao Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro uma lista com cerca de 900 consultas realizadas por Ronnie Lessa em bancos de dados entre 2006 e 2018. As buscas incluíam personalidades de esquerda, defensores de direitos humanos, pesquisadores, artistas como Caetano Veloso, além de parlamentares e ministros. A sistematicidade dessas pesquisas sugere que Lessa funcionava como algo mais do que um pistoleiro de aluguel para disputas imobiliárias locais — e que seu perfil de alvos era mais amplo e ideologicamente orientado do que a narrativa dos Brazão implica. |
Essa evidência foi amplamente documentada nas investigações mas nunca integrou de forma central a narrativa do julgamento. Por que um policial envolvido em conflitos de grilagem na Zona Oeste do Rio pesquisava ministros e artistas de projeção nacional? Essa pergunta permanece sem resposta. |
Braga Netto e a sequência posterior |
Após o governo Bolsonaro assumir em 2019, o general Braga Netto — o mesmo que comandara a GLO no Rio — foi nomeado ministro da Casa Civil e, posteriormente, ministro da Defesa. O general Villas Bôas declarou publicamente, em entrevistas posteriores, que “o Brasil foi salvo por três pessoas: Bolsonaro, Sérgio Moro e Braga Netto” — uma frase que confirma a aliança política entre os militares de sua rede e o governo eleito. |
Essa trajetória não é, por si só, prova de envolvimento no crime. Mas documenta a existência de um arranjo político entre o grupo militar associado a Villas Bôas e a família Bolsonaro — arranjo que se consolidou justamente nos meses e anos que se seguiram ao assassinato de Marielle. A coincidência temporal e os benefícios políticos mútuos desse arranjo deveriam, no mínimo, ter sido objeto de investigação formal. |
O QUE A CONDENAÇÃO NÃO RESPONDEU |
A condenação unânime dos irmãos Brazão pelo STF é um fato jurídico consumado. Mas o rigor analítico exige reconhecer que uma condenação tenta fechar um caso em aberto — não necessariamente reconstrói a totalidade da verdade histórica de um crime. |
As seguintes questões permanecem sem resposta pública satisfatória: Ronnie Lessa efetuou por conta própria os seus rastreamentos sistemáticos de centenas de figuras públicas de esquerda, ou estava inserido em uma estrutura maior? O episódio do porteiro Alberto Jorge e sua retratação sob pressão foram investigados de forma isenta? A presença de Carlos Bolsonaro no condomínio, documentada pelo próprio vídeo que ele publicou, foi formalmente apurada? A relação entre a morte de Marielle, a GLO e as articulações políticas do período foi objeto de alguma investigação? |
A resposta honesta a todas essas perguntas é: não de forma pública e documentada. |
O silêncio das instituições |
Um padrão recorrente neste caso é o silêncio de instituições que deveriam ter agido. A TV Globo recuou da cobertura do episódio do porteiro após ter sido exposta pelo vídeo de Carlos Bolsonaro. Marcelo Freixo, amigo próximo de Marielle e figura central do PSOL, não avançou nas denúncias sobre a presença de Carlos no condomínio. A Polícia Federal, sob Sergio Moro, investigou o porteiro — não o que o porteiro declarou. |
A integridade das investigações contaminadas |
A condenação de Rivaldo Barbosa por obstrução de justiça e corrupção passiva cria um problema estrutural para a validade de todo o processo investigativo anterior. Se o chefe da Polícia Civil do Rio atuava para proteger milicianos e desviar investigações, quais outros casos foram contaminados por essa atuação? O PSOL fez a pergunta correta ao pedir ao MP-RJ que revise inquéritos conduzidos sob sua gestão. Mas a questão se aplica igualmente ao próprio caso Marielle: que provas foram destruídas, quais testemunhos foram silenciados, quais pistas foram descartadas sob a gestão de um delegado que, provadamente, trabalhava para garantir impunidade a grupos criminosos? |
Esta não é uma questão retórica. É a consequência lógica de uma condenação por obstrução que o próprio STF pronunciou. |
CONCLUSÃO: JUSTIÇA PARCIAL, VERDADE INCOMPLETA |
O assassinato de Marielle Franco foi um crime político de alta complexidade, executado com profissionalismo, planejado com antecedência e encoberto por uma cadeia de cumplicidades que envolveu, ao menos, o chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro. |
Mas aceitar essa condenação como o capítulo final do caso seria um erro histórico. As investigações foram comprometidas por um delegado corrupto. O único pilar da acusação contra os Brazão é a palavra de um assassino confesso que conseguiu em troca a condição de colaborador. Fios investigativos que levam ao condomínio Vivendas da Barra — onde o executor do crime e um ex-presidente da República eram vizinhos — nunca foram puxados com a mesma energia que os fios que levaram aos Brazão. |
Marielle Franco merece a verdade completa. Anderson Gomes merece a verdade completa. O Brasil merece saber, com a profundidade que o Estado tem obrigação de apurar, se a morte de uma vereadora negra e periférica, na noite de 14 de março de 2018, foi apenas um acerto de contas entre milicianos por lotes clandestinos em Jacarepaguá — ou se havia algo maior, mais poderoso e mais difícil de nomear por trás daqueles disparos. |
A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal encerrou na tarde desta quarta-feira (25) o julgamento do caso Marielle Franco. Apontados como os mandantes do crime que chocou o Brasil e o mundo em março de 2018, os irmãos Domingos e Francisco (Chiquinho) Brazão foram condenados, cada um, a 76 anos e 3 meses de reclusão em regime inicial fechado, além do pagamento de 200 dias multa no valor de 2 salários mínimos cada dia. A dosimetria da pena foi aplicada em consenso pelos ministros Flávio Dino, Cristiano Zanin e Cármen Lúcia, que seguiram o relator Alexandre de Moraes.
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