| Wagner Moura protagoniza Filme-Fenômeno do Brasil |
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“Uma garfada após a outra”. A tradução literal nem vem ao caso, é de irrelevância insofismável. Para bom entendedor, meio cambalacho já explica quase tudo. |
| Um filmeco à deriva na história do cinema mundial |
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O titulozinho do filme vencedor do Oscar 2026 não poderia expressar maior simbologia: se, ano passado, arrumaram uma Mickey para esbulhar nossa irretocável Fernanda Eunice Paiva Torres, o nome do filme vencedor desta edição cai como luva no momento histórico de mais uma rasteira abominável acontecida na “maior festa” do Cinema, tradicional usurpadora de prismas novos, inusuais, priorizando conceder vitórias a filmes que servem aos mesmos padrões atávicos hollywoodianos: incensar, louvar, premiar e levar, aos 4 cantos do mundo, a atividade que os colonizadores ensinaram o mundo a engolir com frequência e absorver com naturalidade – embora sejamos muitos os que tem plena consciência disso: |
Instilar valores xenofóbicos, racistas, patriarcais, coloniais, mutiladores, opressivos, capachistas, produtores de invisibilidade, zonas periféricas, favelização, canudensização, aloprecia, misoginia, homofobia e toda espécie de Cia que não presta. |
Um Esbulho atrás do outro! Foi o que se viu no palco de Los Angeles, enquanto, no Brasil inteiro, a fração imensa que de fato orgulha-se de sua gente, nosso quadro cultural diverso, plural, de muitas nuances, rostos, falares, prosódias, dizeres, sotaques e belezas, tão assimétricas quanto oxigenantes, vibrava e ansiosa aguardava para gritar e fazer sua alegria ecoar em todos os quadrantes. |
| Um Patrimônio Cultural do Recife no topo do mundo |
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Esse filminho que tirou a estatueta de “O Agente Secreto”, o melhor dos filmes que concorria ao Oscar de Filme Internacional – e há muitos críticos pelo mundo corroborando com isso que vos digo -, daqui há 2 ou 3 anos terá como traço principal apenas o fato de ter sido o boi de piramha que garfou o Filme-Fenômemo do Brasil da consagração tão justamente aguardada, mais uma obra visceralmente política e super bem realizada do cineasta pernambucano Kléber Mendonça Filho, reconhecidamente bom em todas as suas atividades profissionais. |
| Wagner Moura gravando sob o olhar atento do diretor.Kleber Mendonça Filho |
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E são tantas, todas ligadas ao apreço pela imagem e ao pensar analitico sobre o alcance da Sétima Arte, o poder da construção visual e a necessidade de pensar além do ecrâ, sendo capaz de incluir esse raciocínio e suas tamtas vivências e experiências, dentro e fora das redações, junto e longe das salas de exibição – em cada novo filme que assina, todos dizendo – muito e bem dito – sobre o país, seu povo, sua cultura, o estraçalhar de suas liberdades e a necessidade de “Estar sempre atento e forte”, ecoando Caetano Veloso, porque afinal, “um tango argentino” também lhe cai bem melhor que um frevo, como diria Belchior, sobretudo neste momento de inacreditável repeteco da maracutaia cambalachista que cerca a marmelada oscariana, a qual tivemos o desprazer de acompanhar no domingo, 15 março 2026. |
| Kleber e Wagner: maestros do filme “O Agente Secreto” |
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Tudo já começou errado, como foi ano passado com a não indicação de Walter Salles Jr entre os grandes diretores concorrentes. A ausência do nome de Kléber Mendonça Filho entre os cineastas indicados é lacuna espinhosa, e quem certifica essa afirmação é a coleção de prêmios recebidos pelo diretor e seu filme. São dele, e da monumental equipe que produziu, realizou e criou junto esta obra-prima que é “O Agente Secreto” mais de 70 troféus, colhidos em 10 trabalhosos meses de campanha promocional da película, cruzando oceanos, num entra-e-sai frenético de voos, mudanças de fuso, trocas de hotéis, temperatura e adaptações a novos idiomas, cardápios e ambientes. |
| Elenco coeso, convincente e substanciando um roteiro complexo e cheio de nuances. |
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Mostrando a cara, o.jeito, a pirraça, a força, a resistência – fraterna, triste, apaziguadora e sempre sensível (há 2 mulheres potiguares que retratam isso à perfeição, as amadas Alice Carvalho e Tãnia Maria), a começar pela nossa gente nordestina – linda, arretada, disposta, pirracenta, visceral – embora o elenco conte também com não nordestinos – incontestavelmente ótimos (Roney Villela, Gabriel Leone, Carlos Francisco, Luciano Chirolli, Maria Fernanda Cândido, Marcelo Valle, Licínio Januário, Edu Krieger, João Vitor Silva, e outros Intérpretes) -, Kleber não vacilou, não abriu mão de mostrar-se através de seu cinema inquietante, arrebatador, assombrado pela crença histórica neste país que amamos e não queremos ver naufragar no flagelo da ditadura novamente – e é pra isso que se precisa não esquecer o passado e sempre reiterar suas manchas sombrias -, e o fez com maestria e impressionante capacidade de ser universal e entendido profundamente, lá onde as dores não se apagam, as tintas dos 25 anos de trevas no país e os ganchos da memória não nos deixam trair a história, a mesma que Walter Salles nos ofereceu ano passado, a bordo da Literatura visceral de Marcelo Rubens Paiva. |
E ao contrário de algumas manchetes capciosas, que resolveram recortar o acontecido valendo-se do costumeiro viés da inveja, do cretinismo e da picaretagem, “O Agente Secreto” não foi um fracasso na noite nem tampouco Wagner Moura saiu perdedor por não ganhar um Oscar. |
Bastante ao contrário: os dois criadores, muito mais que aumentar o público da noite televisada, de deixar meio mundo há meses torcendo e criando eventos para comemorar a vitória, fizeram bonito de contagiar em terras americanas, seja em Los Angeles, na Olinda da Pitombeira, ou no pequenino Santo Antônio da Cobra.
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| Italo Martins, Robério Diógenes e Wagner Moura |
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Quem perdeu, e imensamente, com a não concessão dos troféus a Kleber, Wagner e Gabriel Domingues (o fabuloso diretor de elenco do filme) foram eles, os otarianos impávidos, soberbos, supremacistas, que compõem a maioria da Academia de Artes e Letras Hollywodianas há décadas. |
Mesmo havendo pequenos archotes de mudança tentando minorar os efeitos da postura radical, renitente e abjeta de fazerem uma festa americana do Norte para americano do Norte aplaudir – com a entrada de uns parcos 7 ou 11% de votantes de outros países -, a nefasta teia imperialista continua e continuará por muitas décadas ainda dando as cartas. |
E nós, brasileiras e brasileiros – tropicalistas, resistentes, euclidianos, insubmissos, transgressores, anarquistas, libertários, democráticos, que não soltamos as mãos umas das outras nem dos outros, continuaremos a fazer este que é o Melhor Cinema Brasileiro do mundo – como afirmava o saudoso Paulo José – pq é o que melhor fala de nós com nossas corres, nossas resistências, nosso agreste, nossa caatinga, nossos batuques, nossa essência indígena, mestiça e afroamericaribenha, linda como a pele macia de Oxum, e tão magnética e imanente que é impossível vir com ela a ter contato e não sentir-se completamente mexido. |
Os 10 meses da carreira vitoriosa de “O Agente Secreto” em sua trajetória internacional são a maior prova disso. |
| Maria Fernanda, Kleber, Alice Carvalho e Wagner Moura |
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Grandes perdedores da noite hollywoodiana são os cretinos que quiseram invisibilizar nosso filme e nosso magistral ator: deixaram de ouvir os discurso mais lindos da noite e de alcançar uma repercussão midiática inovadora e excepcional, como há muitas décadas não se vê. |
A premiação anual, useira e vezeira em ressaltar sempre as mesmas exuberâncias dos Efeitos Especiais, os constantes devaneios sobre o que nos ofertam os avanços da IA, e destacar as mesmas carinhas pasteurizadas que estampam os grandes desfiles, eventos e publis para vender a cultura brancocêntrica ao mundo, há muito é uma xaropada dificil de engolir. |
O que faria um cristal de diferença fundamental seria ver o palco do Dolby Theatre tomado por uma avalanche de artistas miscigenados – risonhos, alegres, brincalhões, brancos, pretos, indígenas, mulatos, periféricos, de sotaques misturados e agridoces, a inspirar um festival de belas e emblemáticas fotos da Noite, que tinha tudo para ser um grande Marco Cultural, um painel consagrador da mistura de etnias, a qual, de fato, é o que torna instigante, esperançoso e alquímico um espetaculo marcante, e destroça o narcísico que tem medo do que não é espelho. |
Restou apenas o sumo do que é ainda é mesmo velho, nada diferente do que eles sempre foram no cenário artístico egocentrado, centralizador e excludente. |
Eu adoraria ver Kaiony Venâncio, Robério Diógenes, Alice Carvalho, Carlos Francisco, Hermila Guedes, italo Martins, Rubens Santos, Geane Albuquerque, Albert Tenorio, Suzy Lopes, Gregório Graziosi, Joálisson Cunha, Thomas Aquino, Marcelo Valle e mais aquela ruma de conterrâneos graciosos, falantes, presepeiros, cheios de ginga, humor e sabor, malandramente celebrando a “Perna Cabeluda” e um filme “artesanalmente feito” ter chegado tão longe, ser Tanto, tão forte, impactante e subverter tantas coisas gastando tão pouco diante da dinheirama que a indústria deles investe… pra fazer, frequentemente, coisas que todos estamos cansados de ver. |
Nada de novo no front porque tudo está deserto, como há tanto tempo segue. Tudo errado, bolorento, fétido e sem sal como 2 e 2 não são 5. |
| Nossa Gente Brasileira que faz um Cinema TOP Demais |
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Afetados, espontâneos, descontraídos, subindo ao.palco e confirmando as melhores fotos da noite, os mais lindos sorrisos, o samba-frevo de Wagner Moura brilhando no palco com vigor e recebendo uma chuva de aplausos. |
Perdeu muito quem não deixou isso acontecer. Perderam muito os idiotas que acharam/acham bom que o Oscar não tenha vindo brilhar em solo brasileiro. Como diria meu amado pai, o crítico de cinema LG de Miranda Leão, “Numeros stultorum infinitus est”. |
| Parte do elenco de “O Agente Secreto” na noite do Oscar |
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Irmano-me com toda a destemida e linda equipe de “O Agente Secreto”, abraço com muito carinho Kleber e Emilie, e danço frevo para aplaudir a ginga sambista fenomenal do amado Wagner Moura. |
Vocês fizeram um filme Giganteee ! Kleber já está de olho no próximo, assim como Wagner já tem convites – e eles virão cada vez mais -, até mesmo para rodar um filme internacional, ainda este ano. |
E Recife, seu povo, sua cultura, suas memórias, seus lugares marcantes, sua vibe – bem como o molho nordestino – está eternizado no imaginário mundial e jamais será esquecido. Algo assim como a Princesinha do Mar, DNA de Copacabana, ou a Belle de Jour que Alceu tatuou para sempre, lindamente, em Boa Viagem, quer você saiba porquê ou não. |
Assim será com “O Agente Secreto”: daqui a 100 anos, o filme ainda será mencionado nas Listas costumeiras de Melhores Filmes do Ano, essencial na cinematografia do mundo, crucial para o entendimento do Brasil. |
E, nisso, Kleber Mendonça Filho tambem faz eco ao notável Euclides da Cunha, que nos aconselha ao final de seu monumental “Os Sertões” (1902): “O que aconteceu em Canudos foi um crime. Denunciemo-lo”. É o mesmo papel dignificante e honorífico que o cineasta pernambucano ratifica com este que é seu melhor filme (até agora): |
Esboça seu grito inquietante, seu silêncio aterrador, suas percepções doídas e angustiosas das complexas tramas que engendram o Brasil, a bordo de revisitas e releituras a um passado cáustico, para daí criar uma narrativa límpida, altiva e cheia de densidade, coerência e sentido, artisticamente potente, deixando em seu subtexto o mesmo significado euclidiano do livro que tirou o sertão de seus 300 anos de solidão e apagamento: |
“O que aconteceu na ditadura foi um crime. DENUNCIEMO-LO” |
Porqaue será sempre lembrando, escrevendo, memorizando, roteirizando, deixando rastos para a posteridade, sempre Caminhando e Cantando como num sol de dezembro, que nós estamos, nós vimos, nós vamos, nós sempre iremos. |
*Aurora Miranda Leão é atriz, jornalista e Doutora em Comunicação. |
“O Agente Secreto”: filme mais premiado da história do Cinema do Brasil.
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