Jornalismo em altíssimo nível
Antes de vir para o Intercept, eu era editor de Brasil no Organized Crime and Corruption Reporting Project, o OCCRP, uma rede global de jornalistas especializada em investigar crime organizado e corrupção transnacional. Foi uma experiência enorme. Ali, acompanhei o Brasil em conexão com rotas de lavagem de dinheiro, estruturas empresariais opacas e redes de poder que atravessam fronteiras.
Mas 2026 é ano de eleição no Brasil. E isso pesa.
No OCCRP, eu era o único jornalista cobrindo o país dentro de uma redação internacional. Era um trabalho importante, mas também solitário em certo sentido. Quando surgiu a possibilidade de vir para o Intercept, meus olhos brilharam principalmente por causa da equipe.
Eu já acompanhava o trabalho dos repórteres e achava – como continuo achando – que eles são brilhantes. Vim porque queria estar num time forte justamente num ano em que o jornalismo precisa jogar em altíssimo nível.
Porque, para ganhar uma Copa, não basta ter um craque.
É preciso elenco, entrosamento, leitura de jogo, estratégia e disposição para disputar cada lance com inteligência. Na cobertura eleitoral, vale o mesmo. Boas reportagens não nascem só do talento individual. Elas dependem de troca, de edição, de método, de confiança e de uma redação capaz de trabalhar em conjunto para ir além do óbvio.
Meu papel aqui é esse: ajudar esse time a brilhar ainda mais. Estar nos bastidores, pensar caminhos, fortalecer apurações, tensionar hipóteses, organizar jogo. Em resumo, contribuir para que o Intercept faça uma cobertura eleitoral à altura do momento que o Brasil atravessa.
Também existe um motivo afetivo para eu estar aqui.
Tenho um carinho especial pelo Intercept porque foi aqui que publiquei minhas primeiras reportagens investigativas como freelancer – e isso aconteceu justamente em outro ano de “Copa” para o jornalismo, as eleições de 2018.
Naquele período, revelei, por exemplo, a rede de empresas de segurança e os processos judiciais ligados ao então coordenador da campanha de Jair Bolsonaro em São Paulo, Major Olímpio.
Em outra reportagem, mostramos a contradição entre o discurso público de Bolsonaro em defesa da liberdade de expressão e sua atuação concreta para tentar remover conteúdos críticos da internet.
E, pouco depois, publicamos uma investigação sobre o general Augusto Heleno, já então projetado para o novo governo, mostrando sua responsabilização pelo TCU em contratos irregulares que causaram prejuízo aos cofres públicos.
Foram reportagens muito importantes para a minha trajetória. Não apenas porque tiveram repercussão, mas porque ajudaram a consolidar em mim a convicção de que jornalismo investigativo não serve para enfeitar currículo. Serve para jogar luz sobre relações de poder que, muitas vezes, preferem continuar fora de cena.