28 março, 2026

“Canabraba: a necessidade de expressão” – documentário de Reinaldo Volpato e Romildo Sant'Anna/ 1987 .Terra do Sol

 

O filme é um documentário que acompanha um grupo de bóias-frias em seu deslocamento para o trabalho no campo. A obra explora o cotidiano e o imaginário desses trabalhadores, que, em meio à dura realidade laboral, nutrem sonhos relacionados à “terra sagrada”.

O filme “Canabraba: a necessidade da expressão”, de Romildo Sant’Anna e Reinaldo Volpato (1987), é um documentário sobre bóias-frias do interior de São Paulo. CTAv (Centro Técnico Audiovisual) – Facebook. 12 mar 2026

O filme acompanha um dia de trabalho informal nos canaviais: homens e mulheres se deslocam da cidade para a roça na traseira de um caminhão, realizam suas tarefas braçais em conjunto, comem suas marmitas em bancos improvisados. Dois irmãos, Tonico e Zequinha Scarelli, já de volta às suas casas no anoitecer, realizam pinturas coloridas da natureza e de campos imaginados. Para eles, a terra é sagrada e morar na roça é uma promessa distante – e a arte surge como uma possibilidade de sonhar com as mãos e os olhos.

O termo boia-fria surgiu do costume desses trabalhadores de levar uma marmita logo cedo e, na hora do almoço, comê-la fria. O grande problema dos boias-frias é que suas condições de trabalho são as piores possíveis, estando muitas vezes aliadas às condições de escravidão e trabalho infantil. Marciano Dantas de Medeiros – 20 fev 2015

No dicionário “bóia-fria” é o “trabalhador agrícola que se desloca diariamente para propriedade rural, geralmente para executar tarefas sob empreitada”. Mas, o dicionário não menciona suas condições indignas e perigosas de trabalho. Sem direitos, sem educação, trabalhando nas terras de outro por salários que não são suficientes nem para uma pessoa, que dirá para uma família. Caroline Faria – Infoescola. 15 mar 2026

O termo “boia fria” surgiu na década de 1930, na região Nordeste do Brasil, especialmente na zona da mata alagoana, onde grupos de trabalhadores rurais migraram para o Sudeste em busca de trabalho temporário nas plantações de café. Prisma Pedagógico – 16 mar 2026

Mulheres boias-frias

Durante o século XX, especialmente entre os anos 1930 e 1970, a migrção de trabalhadores rurais das regiões Norte e Nordeste para o Sudeste ganhou força. Essa migração ocorreu devido às desigualdades sociais, à busca por melhores condições de vida e às políticas agrícolas da época, que frequentemente marginalizavam os pequenos agricultores.

Muitos dos boias-frias possuíam suas propriedades, mas, por causa das precárias condições em que viviam, venderam suas terras a baixo preço e saíram do campo para construir uma massa de trabalhadores temporários, residindo nas periferias urbanas, em casas pobres, casebres, favelas, cortiços, em vilas e povoados situados em áreas agrícolas ou à beira de estradas. Migram de uma região agrícola para outra, acompanhando o ciclo produtivo de diversas culturas. São agricultores em diversas lavouras mas não possuem suas próprias terras.

Um drama à parte é o transporte dos volantes feito pelo “gato”, na maioria das vezes, proprietário do caminhão. A falta de segurança, o excessivo número de trabalhadores transportados e a velocidade desenfreada têm feito vítimas fatais constantemente.

Os assalariados temporários trabalham de 10 a 12 horas com o mínimo de tempo para almoço ou café. Somado ao tempo de viagem e de espera nos pontos de saída, eles ficam cerca de 18 horas fora de casa.

Em geral, recebem menos que o salário mínimo oficial fora do tempo de colheita, e um pouco mais no período de safra, porém, sem qualquer dos benefícios conquistados pelos trabalhadores permanentes, como férias, 13° salário, indenizações, descanso remunerado etc. No que diz respeito à assistência médica, ela é inexistente e se tornou reivindicação dos trabalhadores nos movimentos por eles realizados.   Para agravar o quadro, ainda existem regiões em que toda a família trabalha como boia-fria, inclusive as crianças, que deixam de ir à escola para ajudar a família.

É muito comum ocorrer o trabalho infantil no campo

Em Ribeirão Preto, em junho de 2007 foi feita uma denúncia da morte de quinze pessoas por causa de trabalho excessivo na colheita da cana-de-açúcar. Segundo a denúncia feita pelo “Relatório Nacional de Direitos Humanos, Econômicos, Sociais e Culturais”, uma iniciativa apoiada pela ONU, a morte dos quinze trabalhadores teria ocorrido por acidente vascular cerebral e parada cardio vascular ocasionados pelo trabalho excessivo e pela falta de água potável, moradia apropriada, equipamentos de primeiros socorros e ambulância.

Esses trabalhadores passam por muitos problemas em face das condições desgastantes de trabalho. Para obter maiores ganhos, se sujeitam a um imenso esforço físico, muitos chegam a ter problemas de saúde ou mesmo a perderem suas vidas. Como quase todos trabalham sem carteira assinada, eles não recebem nenhuma assistência por parte dos empregadores ou dos órgãos governamentais.

O mais preocupante é que casos como este ocorrem no Brasil todo, sem que ninguém tome conhecimento.

Nas entressafras os trabalhadores ficam sem trabalho e buscam serviço em outras regiões. Assim, eles vivem migrando de uma região para outra. O fluxo desses trabalhadores fica entre os estados de São Paulo, Paraná, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, atuando especialmente na colheita de cana-de-açúcar, algodão, café e laranja.

A partir da década de 1980, com o advento da Constituição de 1988 e a Lei de Reforma Agrária, houve avanços no reconhecimento dos direitos dos trabalhadores rurais e temporários. Mesmo assim, os “boias frias” continuaram enfrentando uma realidade de precarização, que se mantém até os dias atuais.

Com a mecanização, muitos dos boias-frias acabam ficando sem renda

As políticas de modernização agrícola e o aumento da mecanização reduziram ainda mais a demanda por mão de obra temporária, embora o fenômeno dos trabalhadores sazonais tenha persistido, sobretudo em regiões de alta vulnerabilidade social, piorando ainda mais a situação dos boias-frias.

Hoje, eles continuam trabalhando em atividades sazonais, principalmente na agricultura, mas também em obras de construção civil, coleta de lixo, manutenção de rodovias e outros setores.

Segundo dados do Ministério do Trabalho (dados até 2023), aproximadamente 63% dos trabalhadores rurais sazonais ainda atuam em condições informais, o que reforça a necessidade de políticas públicas mais efetivas.

A aposentadoria rural do boia-fria é um direito previsto em lei, mas que ainda gera muitas dúvidas, principalmente por conta da informalidade que marca esse tipo de trabalho. VLV Advogados – 04 jun 2025

Compreender essa história nos ajuda a refletir sobre a importância de valorizar o trabalho digno e combater as desigualdades, promovendo um Brasil mais justo e inclusivo para todos.

Edição: 12 mar 2026

Atualizado: 15 mar 2026

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