RELATO 3
Meu corpo foi violentado de forma simbólica e concreta: me tirando da sala de aula, perpetuando violências de alunos, me removendo da minha escola de lotação
Por Rogério Laurentino
Sou Rogério Laurentino Reis, de 50 anos, um homem negro retinto, filho de doméstica, e carrego o peso e a honra de ser o primeiro da minha família a atravessar os portões de uma universidade federal. Em 2013, fui aprovado em concurso, mas esperei cinco longos anos até que finalmente entrasse em uma sala de aula.
Para muitos, o lugar de negro, ainda mais retinto, que não é visto nem como cidadão, nem mesmo como gente, não é o lugar do saber. Lembro o meu primeiro dia em uma unidade escolar estadual pública do Méier, subúrbio do Rio de Janeiro. Com o memorando de posse em mãos, fui abordado na entrada da minha escola de lotação pela diretora adjunta. Ela afirmou, com a tranquilidade de quem organiza o mundo através de uma nuvem de gafanhotos: “O técnico do ar-condicionado já chegou!”. Eu não poderia ser o profissional do conhecimento; eu era o profissional da manutenção. Foi preciso outra diretora, constrangida, para corrigir a cena: “Fulana, ele é o professor, está entrando em exercício nesta unidade escolar”. Uma demonstração do racismo cotidiano. Apenas noventa dias depois, em dezembro de 2018, mesmo com todas as condições para que eu continuasse na unidade escolar, fui declarado “excedente” e removido da escola.
Na formação do Brasil, intelectuais como Euclides da Cunha e Sílvio Romero ajudaram a construir e cristalizar a ideia de que a mistura de raças era um problema, uma “sujeira social” a ser limpa pelo efeito “omo” do branqueamento. Isso era necessário para que o país pudesse se modernizar. Esses autores chamavam isso de teoria, e outros do pensamento social brasileiro hoje chamam de literatura, mas esses homens do passado estavam formando uma nuvem de gafanhotos no intelecto da sociedade brasileira que voa por séculos até a modernidade de 2026. A regra número um era: o lugar do conhecimento, da autoridade, é branco. O lugar do negro, indígena, mestiço, é o do trabalho braçal, indolente, do “atraso”.
Pois bem. Mais de cem anos depois, eu, um homem negro indisfarçável, retinto, entro em sala de aula para dar uma aula de Sociologia. E o que acontece? Alguns alunos, a maioria negra e parda, começam a imitar o filme Planeta dos Macacos, quando César começa a falar, enquanto eu escrevo no quadro. Para eles, a imagem de um homem negro explicando os fenômenos sociais do mundo era tão absurda quanto a de um macaco que começa a falar. Era uma piada! Isso não é má-fé individual deles. É a “máquina racial” brasileira funcionando. Eles acreditam, talvez, que a animalização de um professor negro não os atinge. Mas atinge. E, quando chamei a orientadora educacional para me ajudar, ela olhou para os alunos e disse: “Vocês precisam entender que na minha época esse tipo de coisa a gente não fazia pela frente, mas fazia por trás”. Ela não estava me defendendo. Estava ensinando aos alunos uma versão mais sofisticada da mesma regra: o racismo, na maioria das vezes, pode não ser explícito, mas pode operar nas costas.
Ao cobrar providências da gestão, esperava uma atitude pedagógica para com os membros da unidade escolar. Como não aconteceu, denunciei o ocorrido. O caso passou por sucessivas instâncias de controle institucional, desde as representações de classe e órgãos de defesa de direitos humanos, esfera criminal especializada e assistência jurídica pública até a militância organizada do movimento negro fluminense. E o que obtive? Silêncio, indiferença e acordos sigilosos. Deixar morrer também é morte; pensavam que eu iria realmente morrer. Quando muito, fui atendido numa morosa lentidão, a qual perdura até hoje. O primeiro boletim de ocorrência só foi registrado três meses depois do fato. E eu, a vítima, tive de deixar a escola e perder as famigeradas GLPs (Gratificações por Lotação Prioritária), usadas para complementar o defasado salário de professor no estado do Rio de Janeiro. O que essas instituições me disseram, com seu silêncio, é que meu sofrimento não é importante nem tem prioridade. As representações de classe, como o sindicato, que deveriam me proteger, também foram devoradas por esses mesmos acordos que atravessam a institucionalidade. Os Três Poderes e as entidades de classe no Rio de Janeiro tinham e têm ciência do meu caso. E todos falam baixo sobre mim porque não tenho capital político, por isso posso agonizar.
Texto publicado na edição de março de 2026.
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