RELATO 1
Sigo lutando pela responsabilização do agressor e dos parlamentares que instrumentalizam seus mandatos para perseguir a nós, educadores
Por Andrei Pereira Dorneles
Sou Andrei Pereira Dorneles, professor de Artes na Escola de Educação Básica Muquém, em Florianópolis. Escrevo em primeira pessoa porque o que relato não é uma abstração: é o cotidiano de quem decidiu defender uma educação pública laica, democrática e inclusiva em um dos estados onde a extrema direita tem feito da escola um campo de batalha.
Fui vítima de agressão física, sofri lesão corporal, ameaças de morte, calúnias, difamações e um linchamento virtual que ultrapassou os muros da escola. O agressor responde a processos movidos por mim por lesão corporal, calúnia, difamação e desacato. Nas redes sociais e em espaços públicos, parlamentares utilizaram suas figuras institucionais para engrossar ataques, alimentar desinformação e estimular discursos de ódio. A violência não foi um ato isolado: foi articulada, incentivada e politicamente explorada.
Antes de me atingir, o mesmo agressor já havia atacado a orientadora educacional da escola, a professora Juliana Andózio. Em 2022, ela foi alvo de uma onda de perseguições e violências por defender o direito à acessibilidade e ao respeito à identidade de uma estudante trans. A reação foi brutal: ataques públicos, difamações e pressão política. A estudante, exposta à hostilidade e ao medo, acabou desistindo de estudar. No processo aberto por Juliana, o agressor aceitou transação penal. Um vereador, que também a perseguiu, foi responsabilizado e teve de cumprir serviço comunitário. Ainda assim, a impunidade prevaleceu como mensagem política: nada acontece com quem ataca professores que defendem direitos humanos.
Em junho de 2025, a escalada de violência me alcançou. Fui brutalmente agredido na porta da escola por um pai de estudante, que me ameaçou de morte e passou a me acusar, de forma caluniosa e mentirosa, de ter assediado sexualmente seu filho – acusação absolutamente falsa e sem nenhum fundamento. A agressão física foi apenas o início. Em seguida, parlamentares utilizaram suas tribunas e redes sociais para difundir as calúnias, amplificando uma narrativa fabricada que rapidamente se espalhou. O resultado foi uma sequência de ataques de ódio, ameaças e um verdadeiro linchamento virtual contra mim. O que vivemos, Juliana e eu, não é apenas um conflito local: é expressão de um método. Atacar a educação pública e seus agentes tornou-se o modus operandi da extrema direita no Brasil. Constrói-se uma narrativa que associa professores a “doutrinação”, “desvios morais” ou ameaças à família – estratégia recorrente também nos ataques a pessoas LGBTQIAPN+. Produz-se pânico moral, mobiliza-se ódio e capitaliza-se politicamente sobre a intolerância.
Na Escola de Educação Básica Muquém, posicionamo-nos contra o projeto de transformá-la em escola cívico-militar, iniciativa essa encabeçada pelo homem que me agrediu, líder de um movimento denominado “Pais Conservadores SC”, e apoiada pelos mesmos parlamentares de extrema direita que já haviam perseguido a professora Juliana e que passaram a me perseguir por pensarmos de forma diferente. A proposta de militarização das redes públicas de educação, defendida por partidos ultraconservadores, busca transformar as escolas em espaços de obediência hierárquica e controle disciplinar, deslocando o foco do processo pedagógico para uma lógica de ordem e submissão.
Nossa oposição a esse projeto não se dá por ideologia abstrata, mas por compromisso pedagógico e constitucional. Como educadores, compreendemos a complexidade dos processos de aprendizagem e sabemos que substituir profissionais da educação por militares não resolve os desafios estruturais da escola pública. Estudos sobre experiências já adotadas em diferentes estados indicam que modelos cívico-militares não apresentam melhora consistente nos índices de desenvolvimento educacional, registram aumento de evasão e acumulam denúncias de abusos de poder, violência e discriminação racial. Defender a gestão democrática não é rebeldia: é defender a Constituição e o direito de crianças e adolescentes a uma educação plural e emancipadora.
Em meio à pressão política, fui submetido a um Processo Administrativo Disciplinar (PAD). Essa estratégia tem sido prática recorrente na Secretaria de Estado da Educação de Santa Catarina quando surgem posturas pedagógicas divergentes da linha de pensamento defendida pelo governo estadual. No meu caso, assim como no caso de Juliana, o PAD operou como mecanismo de inversão simbólica: retirou-nos da condição de vítimas e nos colocou na posição de réus, como se nossa conduta estivesse em desacordo com princípios educacionais. Fui inocentado e o processo foi arquivado. Mas o desgaste emocional, profissional e familiar não se apaga com uma assinatura. A violência administrativa também é instrumento de intimidação.
Sigo lutando pela responsabilização do agressor e dos parlamentares que instrumentalizam seus mandatos para perseguir a nós, educadores. Essa luta extrapola a esfera administrativa e se insere na arena política. O agressor recebeu proteção pública de figuras influentes. Em fevereiro de 2026, foi anunciado como assessor de um vereador na Câmara Municipal de Florianópolis; a pressão popular impediu a nomeação. No mesmo mês, contudo, acabou nomeado assessor de um deputado estadual na Assembleia Legislativa de Santa Catarina. A mensagem simbólica é devastadora: quem agride professores pode ser recompensado.
Texto publicado na edição de março de 2026.
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