De tempos em tempos surge a lenda do “bolsonarismo moderado”, uma ficção projetada pela própria extrema direita e abraçada por setores do mercado financeiro e da imprensa.
Não é possível existir uma fração moderada de uma corrente política cujo ideário é essencialmente autoritário. É uma impossibilidade lógica. Não existe um “nazismo light”, assim como não existe a ala moderada da Ku Klux Klan.
Tarcísio de Freitas, do Republicanos, era quem melhor personificava essa mentira e tudo levava a crer que ele seria o candidato de Jair Bolsonaro à presidência. Tinha o apoio maciço do mercado financeiro, era bem-quisto no Centrão e vinha sendo paparicado por boa parte da imprensa.
O seu perfil técnico, tão elogiado aos quatro cantos, é o verniz perfeito para disfarçar quem ele realmente é: um ex-militar que faz parte do grupo político que tentou dar um golpe de estado no país.
Messianismo hereditário
Mas Tarcísio foi retirado da disputa. Quem irá encarnar o personagem do “bolsonarista moderado” será Flávio Bolsonaro. Prevaleceu a decisão do líder da gangue golpista que, de dentro da cadeia, mandou o recado por meio de um texto cafona com tom messiânico, lido pelo próprio filho: “Entrego o que há de mais importante na vida de um pai: o próprio filho para resgatar o Brasil”.
A candidatura de Flávio é mais uma questão de sobrevivência política da família Bolsonaro do que um projeto político pensado. A decisão não foi resultado de debates internos no PL e com suas bases, mas do desejo da família Bolsonaro em manter sua dinastia no comando da direita brasileira. O bolsonarismo se sacramenta como um messianismo hereditário.
Se a eleição fosse hoje, Lula ganharia por pouco de Flávio Bolsonaro no segundo turno. O filho de Jair sabe que, para ganhar, vai precisar buscar o eleitorado de direita que não se identifica com o bolsonarismo. Não é à toa que ele tem se apresentado como uma versão "moderada e equilibrada do seu pai” — uma espécie de “Bolsonaro de focinheira”.
Para vender bem esse personagem, Flávio tem viajado o mundo para buscar alguma influência internacional e tentando estreitar os laços com o empresariado e o mercado financeiro, que queria Tarcísio.
Credenciais democráticas: uso da força e rachadinhas
Apesar de parecer ser o menos radical entre os irmãos Bolsonaro, Flávio está longe de ser alguém de perfil moderado. Vai ser ainda mais difícil para ele do que seria para Tarcísio; é preciso relembrar as credenciais democráticas do sujeito.
Em julho do ano passado, Flávio afirmou abertamente que o próximo presidente deverá “usar a força” caso o STF negue um indulto presidencial para tirar seu pai da cadeia.
Em outubro, enquanto seu irmão fustigava Trump contra o Brasil, sugeriu que Trump poderia jogar bombas atômicas no Brasil caso a anistia não fosse aprovada. Eis o “bolsonarismo moderado”.
Moderação com dinheiro público também nunca foi o forte do senador, que tem um vasto currículo no mundo das “rachadinhas” e na distribuição de empregos para o crime organizado. Não podemos perder de vista o seu histórico. Flávio é o Bolsonaro que mais tem esqueletos no armário.
Quando tinha apenas 19 anos, acumulou três ocupações em duas cidades diferentes: faculdade presencial diária de Direito e estágio voluntário Defensoria Pública no Rio de Janeiro, e um cargo de 40 horas semanais na Câmara dos Deputados, em Brasília. Todas essas ocupações exigiam a presença física, o que significa que Flávio estreou na vida pública pela via do funcionalismo fantasma.