24 junho, 2025

“Guerreiros”: sertão feminista com fotografia primorosa e atuações estupendas | Por AURORA de Cinema

 

Após evidenciar fragilidade dos Fortes, George Moura assina nova obra feminista no rincão euclidiano

Aurora Miranda Leão*

Alinne Moraes, Isadora Cruz e Alice Carvalho: três atrizes grandiosas enriquecem narrativa feminista

No recente 11 de junho deste 2025, estreou no Globoplay (e no canal de TV pago Globoplay Novelas, antigo Viva) a nova obra de George Moura e Sergio Goldenberg. No próximo dia 2 de julho, o capítulo inaugural de "Guerreiros do Sol" terá exibição especial na telinha da TV Globo, e provavelmente vai confirmar o rebuliço provocado pela obra na audiência: quem viu, gostou, aplaudiu e já está maratonando. A cada quarta-feira, cinco novos capítulos chegam para os assinantes.

     "Guerreiros do Sol", planejada para ser lançada no horário das 11 em 2023 - demorou para chegar ao público por questão de estratégia, porém a espera tem valido cada passo caminhado no sertão árido da tríade Bahia-Sergipe-Alagoas.

    É nesse entroncamento, naturalizado como "Brasil Profundo" - denominação cunhada pelo notável escritor Euclides da Cunha quando de sua imersão no mais intenso do sertão brasileiro, da qual resultou a obra-prima "Os Sertões" (1902) - que a narrativa de "Guerreiros do Sol" se desenvolve. Com uma riqueza imagética, textual e temática impressionantes é preciso que se diga.

Inspirada no livro "Guerreiros do Sol: violência e banditismo no Nordeste do Brasil", do historiador Frederico Pernambucano de Mello, a produção conta 45 capítulos e tem o cangaço como alicerce, portanto, há muitas cenas de violência, mas o que mais mobiliza nossa atenção é a valorização dedicada pela autoria à presença feminina naquele território tão áspero, contundente esteio patriarcal. E se, na obra anterior - "Onde nascem os fortes" (TV Globo, 2018), objeto de nossa tese de doutoramento - a ascendência euclidiana é matricial, aqui os autores aprofundam seus questionamentos, saberes, olhares, sentimentos e emoções sobre o território sertanejo, e são capazes de redimensionar, mais ainda, a presença feminina neste cronotopo, incrustado no imaginário nacional como reinado masculino, conferindo à mulher a regência da trama.

     Destarte, Isadora Cruz, a bela paraibana de talento inegável, abre a Teledramaturgia com proeminência: através da atriz, vislumbra-se logo nas primeiras imagens uma mulher sofrida, forte, destemida e disposta a não se entregar, mesmo ante à maior das violências. 

     A Rosa de Isadora Cruz é sertaneja como tantas - humilhada, maltratada, agredida - mas cheia de sensualidade e ícone de resistência. (Foto: Estevam Avellar).

Isadora, a atriz paraibana que o país inteiro passou a amar através de "Mar do Sertão" - novela de Mário Teixeira, realizada e exibida pela TV Globo no horário das 18h em 2022 -, é Rosa, que passa por todas as agruras que as mulheres costumam passar em solo estruturalmente patriarcal, unindo beleza, sensibilidade, dor, sofrimento, tristeza, sensualidade, alegria, dissabor e uma altivez insólita para o que a história registra sobre a presença feminina no espaço onde o cangaço se fez senhor e lei.

     Essa é a instigante opção discursiva dos autores: dar vez, voz, cara, rosto, sentimento, contraditas, cenas, conflitos e protagonismo às mulheres, essas presenças sempre tão marcantes em qualquer história, porém, na maioria das vezes, aviltadas, reprimidas, sufocadas, humilhadas, silenciadas, invisibilizadas por quem assina os registros, históricos ou ficcionais, sobre a história do Brasil. 

      

    No caso de Moura e Goldenberg, transitar pela contramão nunca foi problema e eles o fazem há décadas, com beleza e sentido de provocação, alfinetando, com cachimônia e esmero, as razões escamoteadas para tanta insensatez e crueldade com o sexo feminino. Para alegria nossa, valendo-se de um produto cultural com a pujança e benquerença que tem a Telenovela do Brasil. 

  Irandhir Santos é Arduíno e nos entrega mais um personagem memorável (Foto: Estevam Avellar).

A novela é daquelas para as quais cabe o epíteto: “Quando a Globo quer investir, sai da frente que não tem pra ninguém”, uma realização prodigiosa, de excelência indiscutível, perfeita aliança verbo visual, um encharcamento de beleza, pontuado com interpretações arrebatadoras, temáticas importantes e uma rica produção de sentido. A fotografia é um primor e cabe a Sergio Tortori, direção artística de Rogério Gomes, e elenco com intérpretes do quilate de Irandhir Santos (magistral com seu “Arduíno”), Alinne Moraes, Alice Carvalho, Alexandre Nero, Daniel de Oliveira, José de Abreu, Cláudio Jaborandy, Thomás Aquino, Markus Konká, Vitor Sampaio, Italo Martins, Nathália Dill e tantos outros.

    “Guerreiros do Sol” é obra para rever e ver, decidamente. Voltaremos a ela.

* Aurora Miranda Leão é jornalista e doutora em Comunicação.

                 Acesse: https://linktr.ee/auroradecinema

“Guerreiros”: sertão feminista com fotografia primorosa e atuações estupendas