
Introdução ou conclusão antecipada: O policial militar, ao se posicionar como inimigo declarado da esquerda e das ideias progressistas, age não apenas por convicção política, mas, sobretudo, por um impulso de negar e subjugar a própria natureza de trabalhador explorado, repetindo uma dinâmica histórica de opressão interna à classe subalterna.
Assim como o escravo doméstico ( bajulador do seu dono ) desprezava o escravo do eito ( o trabalho pesado na roça ) para se sentir superior ou como o capitão do mato – muitas vezes um ex-escravo – era ensinado a odiar e caçar o negro fugitivo, o PM adota o discurso e os valores da elite dominante para tentar se distanciar de sua origem comum com aqueles que despreza e reprime.
Esse ódio ao progressismo em geral é, em essência, uma tentativa de se diferenciar dos seus iguais e de agradar aos seus senhores, alimentando uma ilusão de pertencimento a uma casta superior, quando, na verdade, permanece tão submisso e descartável quanto qualquer outro trabalhador pobre sob o olhar frio da elite.
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No asfalto quente das grandes cidades brasileiras, entre buzinas, sirenes e o cheiro de fumaça, a cena se repete: um policial militar se aproxima de um “suspeito de ser suspeito” , a mão pesada e automática tocando o corpo de quem nem ousou levantar a voz.
Se ousar de pronto recebe violento golpe e o “cala boca filho da puta ...
Tá louco!
O gesto é quase instintivo, como se a farda e arma sempre apontada para o “insuspeito suspeito” lhe conferisse o direito divino de calar qualquer questionamento.
Mas quem é esse policial?
E a quem ele realmente representa?
Poucos param para refletir sobre a própria condição social.
A maioria dos policiais militares, formados em escolas públicas , com baixa exigência escolar e submetidos a uma doutrina rígida e acrítica, raramente se percebe como parte da massa trabalhadora.
Se acham superiores por ascenderem da sarjeta para o meio-fio!
São ensinados a obedecer, a temer o oficialato e a reprimir e subjugar os mais fracos.
Acreditam, por vezes, serem representantes da lei – quando, em verdade, são apenas instrumentos de um Estado patrimonialista, explorador e, não raramente, corrupto.
O policial militar, fora do serviço, se vê diante de uma dura realidade: sua formação escolar e qualificação profissional dificilmente o habilitariam a sobreviver dignamente no mercado privado.
Não é diferente do motoboy, do gari, do balconista – todos igualmente invisíveis aos olhos da elite que, paradoxalmente, o policial serve com tanto zelo.
A diferença entre eles é apenas simbólica.
Enquanto o motoboy desafia o trânsito para entregar comida, o policial desafia a própria consciência para manter as “coisas como são” de um sistema que o despreza.
Ambos, no entanto, são peças de uma engrenagem que os consome e descarta.
Historicamente, a Polícia Militar foi concebida para proteger interesses do Estado e das elites, não da população.
Desde as Guardas do Império, passando pela militarização durante a Ditadura, a instituição foi moldada para reprimir, não para dialogar.
O policial tornou-se o “capataz” moderno, sempre pronto a conter qualquer ameaça à ordem estabelecida – mesmo que essa ameaça seja apenas o grito de um trabalhador por justiça.
Falta à maioria dos policiais militares a consciência de que são, também, trabalhadores.
Falta-lhes perceber que, enquanto se enxergarem como guardiões de um sistema que jamais os reconhecerá como iguais, continuarão sendo apenas instrumentos de opressão – nunca protagonistas de sua própria história.
Por trás do uniforme, há apenas mais um operário da repressão, explorado como qualquer outro, descartável e substituível.
A Polícia Militar não existe para combater o crime – se assim fosse, seus alvos seriam os grandes corruptos, os banqueiros da lavagem de dinheiro, os latifundiários da grilagem.
O Governador , o Secretário de Segurança e os Deputados!
Mas não: sua vítima preferencial é sempre o pobre, o negro, o favelado.
O capitalismo precisa de inimigos úteis – e a PM é a ferramenta que transforma miséria em "caso de polícia", revolta social em "vandalismo", protesto por sobrevivência em "ilegalidade".
Sua violência não é um desvio, mas a essência de seu papel: manter a plebe no lugar.
O policial militar é, em essência, um espelho quebrado: vê-se grande, mas reflete apenas fragmentos de um poder emprestado, sustentado pelo suor e pelo silêncio dos que, como ele, lutam diariamente para sobreviver.
Talvez um dia, ao olhar nos olhos de um manifestante de esquerda , reconheça ali não um inimigo, mas um igual.
E, quem sabe, comece a reconstruir, peça por peça, sua verdadeira identidade.
Nota : De se observar que “oficiais e delegados – ao menos a maioria dos que ascendem aos altos escalões – são feitores assumidos, um ou outro – quando não produtos do estamento (herdeiros do cargo ou da patente) de origem burguesa” , tal assertiva é pertinente e encontra respaldo na análise histórica e sociológica das instituições policiais brasileiras. Tanto a Polícia Militar quanto a Polícia Civil foram estruturadas, desde suas origens, como instrumentos de controle social a serviço da ordem estabelecida e dos interesses das elites. O papel do feitor, na lógica escravocrata, era justamente o de disciplinar e reprimir os trabalhadores, garantindo a produtividade e a submissão ao senhor; de modo análogo, oficiais e delegados ocupam posições de comando e fiscalização, exercendo a função de disciplinar a base policial e, por extensão, a população pobre e trabalhadora.
Historicamente, o recrutamento de delegados de polícia esteve atrelado à classe média tradicional e à influência política, sendo comum o uso do cargo para garantir o predomínio da autoridade central e a manutenção do “status quo”. Embora o acesso aos cargos atualmente se dê por concurso público, o perfil social e cultural dos delegados ainda reflete, em grande parte, essa herança, com muitos oriundos de famílias com capital social e cultural elevado, ou mesmo de linhagens ligadas ao funcionalismo e à elite jurídica. Entre oficiais da PM, o processo de formação militarizada, a hierarquia rígida e a função de comando reforçam o papel de intermediários entre o poder estatal e a base policial, reproduzindo a lógica do feitor: são os responsáveis por garantir a disciplina e a repressão, muitas vezes internalizando valores conservadores e distanciando-se da realidade social da maioria dos subordinados.
Portanto, a analogia é válida e histórica e culturalmente demonstrável : oficiais e delegados, em sua maioria, desempenham funções e adotam posturas que os aproximam do papel histórico do feitor, atuando como gestores da repressão e da ordem em benefício das elites, seja por convicção, formação ou por herança de um sistema social excludente e patrimonialista.
São descaradamente lacaios do poder e ávidos por cargos políticos.
 | Por Flit Paralisante em 04/06/2025 |
Senhoras e senhores, hoje é dia de festa! Palmas para a Polícia Militar de São Paulo, que, enfim, resolveu assumir um dos seus papéis constitucionais mais sublimes: o de transportar foragidos diretamente para a cadeia, sem aquela chatice de passar pelas delegacias de polícia. Um verdadeiro avanço civilizatório! Afinal, para que serve a Polícia Civil mesmo? Ah, sim, para fazer boletim de ocorrência e tomar café frio enquanto espera a PM chegar com mais um “cliente”. Agora, com a bênção do secretário Derrite – nosso visionário da segurança pública – a PM pode, de uma vez por todas, exercer sua vocação de escolta de presos, poupando as delegacias do incômodo de receber aquele fluxo interminável de capturados. É quase um serviço de delivery reverso: busca o produto (no caso, um cidadão desafortunado com mandado em aberto), leva ao IML para o “check-up” de praxe e, voilà, entrega fresquinho na porta do presídio. Tudo sem escalas! O sistema penitenciário agradece a eficiência logística. E que ninguém venha reclamar de audiência de custódia ou formalização de prisão pela Polícia Civil. Bobagens burocráticas! O importante é a agilidade. Se o CNJ, o CPP e a Constituição não entenderam ainda a urgência do combate à reincidência criminal ( o fetiche do Derrite ) , problema deles. O futuro é agora, e ele veste farda, dirige viatura e não perde tempo com papelada. A Polícia Civil, por sua vez, pode finalmente respirar . Chega de delegacia entupida, chega de “B.O.” interminável, chega de ficar de babá de preso. Agora, sobra tempo para o que realmente importa: investigar crimes, ou pelo menos tentar, já que a PM também está de olho nessa função. Mas, sejamos justos, cada um no seu quadrado. Ou melhor, cada um no seu camburão. Portanto, deixo aqui meus sinceros parabéns à PM Paulista. Que esse projeto-piloto vire rotina, que as delegacias fiquem cada vez mais vazias e que, quem sabe, um dia, a Polícia Civil possa trabalhar de "home office" como o Poder Judiciário, MP e PGE. Afinal, com tanta inovação, não duvido que a próxima etapa seja a prisão por aplicativo. “Chame seu policial, capture seu foragido, evite filas e despache direto para o presídio mais próximo.” Viva a modernidade! E para os que ainda se preocupam com garantias constitucionais, "due process of law" e direitos humanos… Relaxem! O importante é não entulhar as delegacias. O resto a gente resolve depois. E dane-se a decisão unânime do STF tomada na Reclamação (RCL) 29303,determinando que todos os tribunais do país e todos os juízos a eles vinculados devem realizar, no prazo de 24 horas, audiência de custódia em todas as modalidades de prisão. Aqui é Direita no poder e todos vão se foder! Como relinchou o Caiado : "Que país é esse, minha gente? É inaceitável, é inadmissível. Isso é um acovardamento completo das autoridades neste país". "Se o caso ocorresse em Goiás ( terra de pistoleiros ) , mesmo com decisão judicial, o indivíduo não sairia da cadeia." |