Casa-Grande & Senzala
Uma mulher de 62 anos foi resgatada em um condomínio de luxo na região metropolitana de Fortaleza. Ela trabalhava como empregada doméstica para a mesma família desde os 7 anos, sem nunca ter recebido salário. Aos auditores fiscais do trabalho, a “empregadora” explicou que a vítima “foi dada pela mãe”.
A mentalidade escravocrata segue tão impregnada no imaginário brasileira que a “patroa” nem se deu conta do absurdo que falou. Por quase seis décadas, ela e seus parentes mantiveram uma cidadã submetida a uma dura rotina de escravidão doméstica.
A vítima acordava às 4h30 para preparar o café e arrumar as crianças para a escola. Desde a infância, ela não teve direito a uma vida pessoal. Recebia apenas roupa, comida e teto. Não tinha conta bancária, não aprendeu a ler, perdeu contato com a família, não saía sozinha e nunca namorou. Foi-lhe negada a própria existência como sujeito de direitos.
Não se trata de um caso isolado. Essa gravíssima violação de direitos humanos é uma prática corriqueira no país. No mês passado, uma senhora de 62 anos foi resgatada no interior de São Paulo depois de servir uma família desde os 12. Há 4 anos, no Rio de Janeiro, outra mulher foi resgatada após passar 72 anos trabalhando para três gerações dos mesmos patrões.
O trabalho escravo doméstico é tão normalizado que foram necessárias décadas até que alguém fizesse a denúncia. Muitas mulheres brasileiras, quase sempre pretas, foram e continuam sendo violentadas sob o cruel eufemismo do “faz parte da família”.
Enquanto as vidas dessas vítimas são inteiramente destruídas, os senhores e sinhás contemporâneos não precisam se preocupar. Basta assinar um termo de ajustamento de conduta com o Ministério Público do Trabalho, pagar algumas indenizações e continuar desfrutando da liberdade. No Brasil, o crime de escravidão doméstica compensa.
Bonde do Flávio
O bonde do Flávio Bolsonaro está todo encrencado. Entre a turma que rodou na Operação Unha e Carne desta semana está o delegado Marcus Amim, ex-secretário estadual da Polícia Civil. A Polícia Federal suspeita que ele faça parte de uma quadrilha que movimentou mais de R$ 7,6 bilhões nos últimos seis anos por meio de uma rede de postos de combustíveis na região metropolitana do Rio de Janeiro.
Antes de mergulhar no submundo da política bolsonarista fluminense, Amin era um policial influencer famoso nas redes sociais. Seus comentários alimentavam o fetiche reacionário do “bandido bom é bandido morto”. A fama o levou direto para a TV: ele comandou um quadro sobre segurança pública no jornal SBT Rio.
Em 2018, Amin recebeu a Medalha Tiradentes, a principal honraria da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, a Alerj, por indicação do então deputado Márcio Canella. O detalhe? Canella também foi alvo da mesma operação policial desta semana, e acabou preso em flagrante por portar um fuzil de calibre restrito.
Mais tarde, Amin entrou para a política pelas mãos do então deputado estadual Rodrigo Bacellar – atualmente preso – e Cláudio Castro, inelegível por abuso de poder político e econômico. Esse é o grupo político do homem que, até pouco tempo atrás, estava na TV falando duro contra a bandidagem. Todo aquele moralismo televisivo não resistiu a três anos na vida pública. Pois é, a turminha de Flávio Bolsonaro no Rio de Janeiro não brinca em serviço.