Um espectro ronda a Terra: comunidades locais têm se mobilizado contra a instalação de grandes data centers em seus territórios e - pasmem - têm ganhado! Um dos casos de sucesso foi em um país vizinho, no Chile, e os detalhes foram publicados aqui mesmo no Intercept Brasil. Os chilenos vivem em constante estresse hídrico. Mesmo assim, em 2020, o Google recebeu autorização para usar até 7 bilhões de litros de água por ano em um mega projeto de data center na região de Santiago.
No Chile, o lema no es sequía, es saqueo (“não é seca, é saque”) já é bastante utilizado por ativistas e movimentos que vêem o direito básico à água limitado por grandes empreendimentos. A palavra de ordem já se aplicava ao agronegócio de monocultivo, como no caso da palta, o avocado chileno. Apesar de muito presente na alimentação local, esse abacate está sendo produzido em grande escala em regiões como Petorca e Aconcágua, tornando-se uma commodity para exportação. O lema também se aplica à grande mineração, tanto de cobre como, cada vez mais, de lítio. Os planos de descarbonização da economia global tornaram certos minerais mais estratégicos na corrida pela eletrificação – que chamam de transição energética, mas sabemos que não é bem assim.
O Chile é um território onde o debate sobre as zonas de sacrifício, que abordo aqui na minha coluna de julho, é abundante. Ali existem até zonas de sacrifício oficiais, especialmente por conta da mineração. Logo, não surpreende que o povo chileno esteja na vanguarda ao identificar que data centers também formam zonas de sacrifício. Mesmo assim, há derrotas. A Amazon Web Services conseguiu avançar com seu projeto de data center no país, apesar das várias preocupações sobre o consumo hídrico e energético.
O atual presidente chileno, José Antonio Kast, quer acelerar a entrada de data centers no país, mas eu diria que o problema vem de antes. O governo progressista de Gabriel Boric normalizou a expansão dessas infraestruturas com seu Plano Nacional de Data Centers, alegando que grandes preocupações ambientais poderiam ser facilmente resolvidas com inovação.