Os Estados Unidos e o Irã estão prestes a assinar, na sexta-feira em Genebra, um memorando de entendimento que estabelece uma trégua de 60 dias e abre caminho para negociações sobre o programa nuclear iraniano. O acordo foi anunciado no domingo, após três meses de guerra iniciada em 28 de fevereiro com ataques americanos e israelenses ao Irã.
Os pontos centrais do memorando incluem a suspensão dos combates, a reabertura do Estreito de Hormuz — por onde passa um quinto do petróleo mundial — e o início das conversas nucleares. O texto prevê ainda a criação de um fundo privado de US$ 300 bilhões para a reconstrução do Irã, com comprometimentos de empresas da Coreia do Sul, Japão, Cingapura, Malásia e Estados Unidos. O fundo só entra em operação após a conclusão de um acordo definitivo.
Como incentivo imediato, Washington autorizou Teerã a retomar a exportação de petróleo assim que o memorando for assinado, suspendendo sanções sobre vendas, transportes e operações bancárias relacionadas. Na terça-feira, dois superpetroleiros iranianos já cruzavam o bloqueio americano.
O acordo, porém, permanece sob sigilo — nem aliados republicanos no Congresso nem o governo israelense tiveram acesso ao texto completo. A Casa Branca distribuiu a parlamentares e apoiadores um documento com "pontos de vitória" que, segundo a agência AP, não resistem a confronto com os fatos: o acordo não encerra os combates no Líbano, o Hezbollah não é parte das negociações e o Estreito só está sendo reaberto porque foi fechado com o início da guerra.
Líbano: a peça que não se encaixa
O maior ponto de tensão do acordo é o Líbano. Israel mantém tropas no sul do país e continua realizando ataques — na terça-feira, drones israelenses mataram ao menos quatro pessoas, incluindo num ataque duplo que atingiu civis que socorriam vítimas de uma primeira explosão.
O chanceler iraniano, Abbas Araghchi, declarou que "sem a retirada das forças israelenses dos territórios ocupados durante esta guerra, a guerra não chegou plenamente ao fim". O Hezbollah diz ter recebido garantias de que o Irã vai exigir essa retirada na próxima fase das conversas com Washington.
Trump, no G7 em Évian (França), criticou publicamente Netanyahu, dizendo que ele "tem de se comportar de forma mais responsável no Líbano" e classificou um recente bombardeio em Beirute de "vicioso". "Israel está lutando contra o Hezbollah há tempo demais e muitas pessoas estão morrendo", disse o presidente americano.
Netanyahu respondeu que as tropas permanecerão no sul do Líbano.
O estreito que o Irã aprendeu a fechar
Um dado que passou quase despercebido no noticiário: agências de inteligência americanas avaliaram que o Irã adquiriu, de forma permanente, a capacidade de fechar o Estreito de Ormuz a qualquer momento. A conclusão, segundo fontes ouvidas pela CNN, é que a guerra ensinou ao Irã que controlar o estreito é uma alavanca mais eficaz do que qualquer arma nuclear.
O Irã ainda mantém mísseis, drones, lançadores e centenas de embarcações rápidas na região. Também demonstrou que pode atacar infraestrutura energética dos países do Golfo — e que a resposta internacional a esse tipo de ação é mais lenta do que Washington calculava.
Fontes americanas disseram que o Irã ainda mantém em reserva uma segunda carta: acionar os houthis do Iêmen para fechar o estreito de Bab-el-Mandeb, que liga o Mar Vermelho ao Oceano Índico. Juntos, os dois bloqueios, dizem as fontes, "destruiriam completamente a economia global".
G7: a diplomacia da cortesia
A cúpula do G7 em Évian-les-Bains, na França, serviu de pano de fundo para uma reconciliação de fachada entre Trump e os líderes europeus, que haviam condenado a guerra contra o Irã. O chanceler alemão Friedrich Merz presenteou Trump com uma camisa de futebol com o número 47 — referência ao seu mandato. Macron o recebeu para um jantar em Versalhes.
A estratégia europeia, segundo analistas, é pragmática: sem plano alternativo, os europeus optaram por reconstruir a relação com Washington, na esperança de influenciar as negociações nucleares e obter algum engajamento americano na Ucrânia. Trump reiterou que a guerra no leste europeu "não nos diz respeito".
Os países do Golfo Pérsico — Emirados Árabes Unidos, Egito e Catar — também participaram das conversas laterais no G7. São eles os principais financiadores previstos do fundo de reconstrução iraniano, apesar de terem sido alvos de ataques iranianos durante a guerra.
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