Beber detergente pode causar lesões nos pulmões e intoxicação. Esse alerta, em situações normais, seria considerado desnecessário e até um pouco ridículo.
Mas ele precisou ser feito.
A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) anunciou à população que um lote de uma marca de um determinado produto estava contaminado e, portanto, não deveria ser usado até haver mais informações.
Como tal marca havia apoiado o ex-presidente e ex-candidato à reeleição Jair Bolsonaro (PL), atualmente preso por tentativa fracassada de golpe de Estado, alguns de seus partidários se prontificaram a criticar a medida, e uns poucos mais afoitos chegaram a beber o produto em vídeos divulgados nas redes sociais, em sinal de apoio à empresa.
O colunista Leonardo Sakamoto defende que, se você é próximo de uma dessas pessoas, deve ajudá-la a buscar ajuda psiquiátrica, por mais cansativo que isso possa parecer.
"A sociedade, infelizmente, menospreza essa dimensão e ignora indícios de que a pessoa não está bem. Há condições em que o indivíduo, em busca de atenção, validação coletiva, tentativa de escapar da solidão ou de superar alguma frustração de tamanho físico ou intelectual, acaba trilhando caminhos autodestrutivos criados por ele mesmo", diz.
Já o comentarista Josias de Souza afirma que, ao "polarizar os germes", a extrema direita levou sua tão querida guerra cultural a um novo patamar . A inovação, diz ele, lembrou os tempos duros da pandemia —quando pessoas não especializadas se dedicaram a tentar desmentir especialistas e prescrever a inócua cloroquina contra a covid-19.
"O bolsonarismo neandertal conseguiu converter um problema técnico de vigilância sanitária em mais um capítulo da eterna luta contra inimigos imaginários", diz Josias.
Leonardo Sakamoto: Detergente como drink expõe drama da saúde mental no Brasil polarizado
Josias de Souza: Bolsonarismo polarizou bactéria
Alexandre Borges: Seu detergente é de direita ou de esquerda?