Procurei tanto a Meta quanto o G4 Educação para questionar a ausência do rótulo de publicidade política no anúncio. Perguntei à plataforma quais critérios foram usados para classificar os anúncios, se a empresa entende que peças sobre a escala 6x1 e utilizando a imagem de um ex-ministro do governo federal deveriam ser enquadradas como conteúdo político e se houve falha no sistema de transparência da companhia. A big tech respondeu que “não irá comentar” o caso.
Antes da publicação desta newsletter, na noite da última sexta-feira, o empresário Tallis Gomes, CEO do G4, publicou em seu perfil no Instagram a íntegra do e-mail que enviei ao contato institucional do G4 Educação e a resposta enviada por ele próprio, antecipando publicamente o tema desta edição. Após a postagem, diversos perfis de seus seguidores passaram a fazer comentários ofensivos em meu perfil nas redes.
A Meta não respondeu até a publicação desta edição. No entanto, após o envio dos pedidos de esclarecimento, o anúncio deixou de aparecer na Biblioteca de Anúncios da empresa de maneira incomum.
Normalmente, quando a empresa identifica que um anúncio político foi veiculado sem a devida classificação, é comum que a peça seja removida da plataforma, mas permaneça disponível para consulta na biblioteca, acompanhada da informação de que foi retirada por violar as regras. Desta vez, porém, o anúncio simplesmente desapareceu. Ele não pode mais ser localizado nem mesmo por seu código verificador, ao contrário do que normalmente ocorre com anúncios removidos.
Em sua resposta, Tallis afirmou que o G4 “assina, sem hesitação, os anúncios” e que “não há nada a esconder. Há, ao contrário, muito a defender”. Segundo ele, o anúncio foi financiado “com recursos próprios do G4, livremente alocados pela administração da empresa, sem participação de terceiros, partidos, governos ou interesses ocultos”.
Questionado sobre o valor investido, Tallis disse que se trata de “informação comercial estratégica” e afirmou que o G4 não tem “obrigação legal nem disposição editorial de divulgar” o montante gasto.
Sobre a segmentação, declarou que a propaganda foi direcionada a “empresários, gestores e donos de pequenos e médios negócios” e que “nenhum critério atípico foi utilizado”.
Em relação à ausência do rótulo político, afirmou que o enquadramento é uma questão “entre o anunciante e a plataforma, regida pelos critérios que a própria Meta estabelece” e acrescentou: “Se a Meta entender que o caso enseja reclassificação, atenderemos”.
Tallis também sustentou que o uso da imagem de Fernando Haddad não caracteriza propaganda política, mas “exercício elementar do pleito republicano”. Ao confirmar que supervisionou pessoalmente a produção da peça, ele escreveu: “Como presidente do G4, é minha função fazê-lo. Não delego convicção”.
Segundo ele, o objetivo da iniciativa é “defender o livre exercício da atividade empresarial no Brasil” e alertar para o que descreve como as “consequências econômicas concretas, não retóricas, do fim da escala 6x1”. Leia aqui a íntegra da resposta do empresário.
Tallis Gomes: um velho conhecido do Intercept
O G4 Educação é uma empresa de cursos voltados para empresários e executivos, fundada em 2019. Nos últimos anos, ela se transformou em uma das marcas mais conhecidas do chamado empreendedorismo digital brasileiro, vendendo uma mistura de formação empresarial e networking para donos de negócios.
O rosto mais famoso da companhia é um velho conhecido do Intercept Brasil: Tallis Gomes. Nos últimos anos, o empresário se notabilizou por atuar como influenciador político de extrema direita, por ter proferido a frase “Deus me livre de mulher CEO” e por chegar ao ponto de defender a implementação de uma monarquia no Brasil.
Nas redes sociais, ele tem festejado o desempenho da pré-candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal, o PL, do Rio de Janeiro.
Em outubro de 2025, nós publicamos a reportagem “' Frouxos não são bem-vindos': como é a rotina de trabalho no G4 Educação ”, assinada por Pedro Pannunzio. A investigação revelou relatos de jornadas extenuantes, humilhações públicas e cultura de medo dentro da empresa fundada por Tallis.
Funcionários descreveram pressão psicológica, cobranças abusivas e discursos que exaltavam semanas de trabalho de até 80 horas. A reportagem mostrou ainda que a empresa assinou um Termo de Ajustamento de Conduta com o Ministério Público do Trabalho após denúncias relacionadas às condições de trabalho. O G4 afirmou cumprir integralmente o acordo firmado com o MPT.
Poucas semanas antes, em setembro de 2025, publiquei aqui em Cartas Marcadas a investigação “Quem são os empresários de movimento que quer demitir ‘extremistas’”. A reportagem mostrou como Tallis se tornou um dos rostos de uma campanha empresarial alinhada ao deputado Nikolas Ferreira, do PL de Minas Gerais, para pressionar empresas a demitirem pessoas acusadas de “extremismo”.
Anúncio orienta empresários a demitir trabalhadores
A estética do anúncio contra o fim de escala 6x1 promovido pelo G4 Educação segue um padrão já bastante conhecido da propaganda política digital contemporânea, com imagens produzidas ou fortemente manipuladas por inteligência artificial e linguagem alarmista.
A peça principal do carrossel mostra o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad retratado em um cenário distópico. Seu rosto aparece parcialmente coberto por uma venda preta com a palavra “imposto”, enquanto explosões, fumaça e fogo tomam o fundo da imagem ao lado de uma bandeira do Brasil em chamas.
Em letras garrafais, o anúncio diz: “Fim da escala 6x1”. Logo abaixo, completa: “O Brasil vai quebrar?”.
Mas o conteúdo vai além do alarmismo econômico. As peças seguintes funcionam quase como um manual empresarial de adaptação à eventual aprovação da proposta — sempre partindo da premissa de que o trabalhador precisa produzir mais para compensar qualquer redução de jornada.
O carrossel começa apresentando dados econômicos, projeções alarmistas e argumentos políticos para tentar convencer empresários de que a redução da jornada provocaria inflação, aumento de falências e destruição de empregos.
Em um dos slides, a peça afirma que a FecomercioSP estima alta de até 22% no custo da mão de obra. Em outro, diz que “nenhum dos países mais produtivos do mundo deram uma ‘canetada’ na redução da jornada de trabalho”, sugerindo que o debate brasileiro seria irresponsável ou populista.
Depois, o anúncio orienta empresários a demitir (ou realocar) funcionários antes mesmo de contratar novos trabalhadores. “Não adianta crescer com ineficiência”, diz a peça.
O texto afirma que “só faz sentido contratar quando seu time já está trabalhando no limite da eficiência”, enquanto exibe a fotografia de um trabalhador aparentemente exausto em um galpão logístico. A mensagem implícita é clara: antes de contratar, empresas deveriam pressionar ao máximo a produtividade dos funcionários atuais.
Na resposta enviada ao Intercept, Tallis Gomes confirmou que o G4 orienta empresários a adotar automação e inteligência artificial diante de possíveis mudanças na legislação trabalhista. “Sim, orientamos. E continuaremos a orientar com mais veemência ainda nos próximos anos”, escreveu.
Outra peça sugere que gestores façam um mapeamento detalhado do tempo de cada trabalhador através de “banco de horas” e formulários internos de produtividade. O anúncio chega a dividir funcionários em dois grupos: “bullshiteiros” e “profissionais AAA”.
No primeiro grupo, estariam pessoas que “enrolam com muitos detalhes”; no segundo, trabalhadores que agem de modo “simples, mas estruturado”, capazes de relatar exatamente quantas horas gastam em cada tarefa.
No fim, toda a narrativa desemboca justamente onde parece querer chegar desde o início: a venda de um curso. Depois de apresentar o fim da escala 6x1 como ameaça econômica e defender cortes, automação, monitoramento de produtividade e reorganização radical das equipes, o carrossel conclui oferecendo programas do próprio G4 Educação como solução para empresários enfrentarem a mudança.
“No G4 Gestão e Estratégia tratamos isso como um dos pilares centrais do nosso programa”, afirma uma das peças, seguida de um convite para inscrição “no link da bio”.
Governo e lobistas também fazem anúncios
A campanha do G4 não é o único anúncio empresarial contra o fim da escala 6x1 circulando com força nas plataformas da Meta. A própria Biblioteca de Anúncios mostra peças da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes, a Abrasel, entidade que representa bares e restaurantes, classificadas como publicidade sobre “temas sociais, eleições ou política” — ou seja, com dados de transparência disponíveis, ao contrário do anúncio do G4.
Em um dos anúncios, a Abrasel afirma que “proibir o brasileiro de trabalhar 6 dias” prejudicaria “especialmente os mais pobres”. A peça teve gasto entre R$ 3 mil e R$ 3,5 mil e chegou a 200 mil e 250 mil visualizações na plataforma. Outros dois anúncios da entidade dizem que a proposta é “irresponsável e eleitoreira”. Somados, esses dois anúncios tiveram gastos entre R$ 700 e R$ 898 e entre 225 mil e 275 mil impressões.
Vale destacar que, no levantamento feito por esta newsletter entre os anúncios ativos e recentes sobre a escala 6x1 com maior alcance, há prevalência de campanhas favoráveis ao fim da escala — especialmente do governo federal, do PT, de parlamentares da base governista e de entidades sindicais.
Só entre os anúncios do governo listados na Biblioteca de Anúncios, ao menos seis peças veiculadas entre 7 e 10 de maio somam gastos estimados entre R$ 36,2 mil e R$ 48,8 mil e mais de 4,2 milhões de impressões. As peças defendem “menos trabalho, mesmo salário, mais vida” e afirmam que mais de 14 milhões de brasileiros deixarão de trabalhar na escala 6x1 caso a proposta for aprovada.
O PT também aparece entre os principais anunciantes do tema, associando a pauta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao Dia das Mães e ao avanço tecnológico. Quatro destes anúncios registram individualmente mais de 1 milhão de impressões cada.
Também aparecem no levantamento anúncios de políticos de esquerda, como o senador Jaques Wagner, do PT da Bahia, e a deputada federal Ana Pimentel, do PT de Minas Gerais, todos favoráveis ao fim da escala 6x1, além de sindicatos e federações como Federação dos Empregados no Comércio de Bens e Serviços do RS, a Fecosul; Sindicato dos Trabalhadores em Hotelaria e Gastronomia de Gramado, o Sintrahg; e Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção e do Mobiliário de Campinas e Região, o Sinticom Campinas.
Em outras palavras: a disputa digital sobre a 6x1 não é unilateral. O ponto específico da campanha do G4 Educação, no entanto, é outro: ao contrário dessas peças, ela circulou sem o rótulo político que permitiria ao público saber quanto foi gasto, qual foi o alcance e quem exatamente foi impactado pela publicidade.