Essa semana voltamos às indicações literárias e com uma preciosidade rápida e muito gostosa de ler. "Querida Konbini", da japonesa Sayaka Murata (lançado pela Editora Estação Liberdade), consegue entregar muito em apenas 152 páginas. Sabe aquele comeback minimalista que não promete nada nos teasers, mas entrega a coreografia mais complexa e o conceito mais profundo do ano? É exatamente essa a energia dessa leitura! A escrita é fluida, direta, mas carrega uma carga reflexiva enorme. Ter a mesma idade da protagonista Keiko Furukura, 36 anos, ajudou na identificação, principalmente por ser uma pessoa fora do padrão. E o livro é muito sobre essa dualidade entre a normalidade e o diferente. Nossa protagonista, a Keiko, é uma personagem fascinante que, desde a infância, ganha o rótulo de "estranha". Para ela, o mundo é um roteiro lógico e extremamente racional. Enquanto a galera ao redor fica surtando com subjetividades humanas, emoções caóticas, convenções e expectativas que não fazem o menor sentido, a Keiko olha para tudo isso e acha confuso, arbitrário e, francamente, inútil. Ela é aquela pessoa que não se encaixa no "genérico", e a família e os amigos ficam desesperados tentando "consertá-la" para caber nas caixinhas que eles desejam. Mas é aí que o plot twist acontece e ela encontra a nossa outra protagonista do livro: a loja de conveniência, a famosa konbini. Tudo muda quando ela começa a trabalhar lá, porque o ambiente entrega exatamente o que a vida real se recusa a dar: um manual de funcionamento! Ali ela encontra regras claras, falas prontas (quase um roteiro de entrevista), gestos definidos e dinâmicas precisas. Observando as recomendações dos gerentes e copiando os trejeitos, o modo de vestir e de falar dos colegas, Keiko finalmente se sente uma peça útil no mecanismo do mundo. A konbini é o porto seguro onde ela performa a "normalidade" com maestria, sem precisar forçar uma barra emocional que não pertence a ela. E a narrativa é uma sequência contínua de acontecimentos, quase um fluxo de consciência sem dramatizações baratas ou lições de moral de centavos. A forma como Murata escreve é um deleite e o grande truque do livro é que nós, leitores, inevitavelmente trazemos à leitura os nossos próprios preconceitos e questões. Nós projetamos sofrimento, vazio ou tristeza onde ela enxerga apenas funcionalidade. Com um humor ácido maravilhoso, a autora esfrega na nossa cara uma crítica social silenciosa sobre ser fora do padrão. Ela mostra que o problema está muito mais em quem se incomoda com o diferente do que com quem, de fato, é diferente. A angústia, no fim das contas, é muito mais nossa do que dela. Resumindo: não é um livro sobre transformação, mas um retrato satírico da nossa obsessão doentia com a normalidade, o trabalho e as pressões sociais. É uma leitura leve, irônica, extremamente desconfortável e profundamente humana. Daquelas que não gritam, não chocam com grandes tragédias, mas ecoam por muito tempo, deixando aquela pergunta incômoda martelando na nossa cabeça: será que vivemos porque queremos? Ou apenas porque aprendemos a imitar o que esperam da gente? |