Há praticamente dez anos eu estou mergulhada na cobertura das big techs, escrevendo sobre como a tecnologia impacta as pessoas e a sociedade. Já fui em muitos eventos sobre o tema. Da maioria deles, saio desanimada, e com aquela incômoda sensação de estagnação.
Muitas vezes, os diagnósticos estão lá, os caminhos para enfrentar os problemas também, mas frequentemente as soluções parecem fora do nosso alcance. Como sabemos bem, com algumas exceções, tem sido difícil depender exclusivamente da regulação e do Congresso.
Mas, nessa última semana, participei de um evento que me deixou empolgada. Mais do que contar para vocês sobre, eu quero fazer um convite e uma proposta. Você, eu, todos nós, precisamos conhecer o ativismo da atenção e aderir esse movimento.
O argumento é simples: nossa atenção está sendo roubada, encurralada e vendida por uma indústria de poder tecnológico e financeiro imenso, sem precedentes na história. E precisamos enfrentar isso. Não de maneira individual, mas coletiva, por meio de um movimento social: o ativismo da atenção.
Amigos da atenção
E aqui, não estamos falando de atenção com uma métrica que pode ser medida em laboratório ou quantificada – como tempo de tela, por exemplo. Aliás, essa é uma métrica criada por essa própria indústria e que, de novo, liga a atenção a uma prática individual.
Atenção, claro, é tempo. Mas é também sobre capacidades que não se medem em laboratório: criatividade, brincadeira, entrega, carinho, amor.
O ativismo da atenção é uma proposta do grupo “Amigos da Atenção”, formado por escritores, artistas e intervencionistas. Eles acabam de publicar o livro “Attensity! – um manifesto do movimento pela libertação da atenção” (Crown, 2026). Infelizmente, a obra ainda não ganhou uma versão em português.
O evento que mencionei, promovido pela ONG Artigo 19 Brasil, reuniu um dos coeditores do livro, o escritor Peter Schmidt, em diálogo com a pesquisadora Anna Bentes, professora da Escola de Comunicação, Mídia e Informação da Fundação Getulio Vargas, que vem se debruçando sobre a economia da atenção.
Confesso: sou uma pessoa cética. Vinda de uma semana corrida de trabalho, cheguei no evento meio sem saber o que esperar e, nos primeiros minutos, desconfiei da proposta. Contudo, saí de lá tocada, emocionada e disposta a somar a esse movimento.
O livro-manifesto propõe uma intervenção conceitual e uma estratégica. A conceitual envolve revisitar o conceito de atenção, deixando de lado essa visão estreita, aquela que só se mede em laboratórios. A estratégica é sobre se organizar para proteger a atenção humana.
E como fazer isso?