16 março, 2026

Alma Preta

 
Salve, pessoal!

Aqui é a Aymê Brito, cientista social e comunicadora. Eu entrei recentemente na Alma Preta como gerente de audiência e devo aparecer mais por aqui escrevendo para vocês :).


Bom, agora que me apresentei, vamos aos assuntos da semana?

 

Trans, negra e mulher

Na semana passada, a deputada federal Erika Hilton (PSOL) assumiu a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na Câmara dos Deputados, sendo a primeira mulher trans a assumir o cargo de um órgão legislativo criado para analisar e debater projetos de lei focados na proteção da mulher, equidade de gênero e combate à violência doméstica. Como era de se esperar, a eleição de Erika causou alvoroço, seja entre parlamentares, nas redes sociais e até entre apresentadores de TV que resolveram se manifestar sobre o tema.

Entre os argumentos dos que se opuseram à nomeação, está a defesa de que Erika, por não ser uma mulher cis — e, consequentemente, não ter nascido com os mesmos órgãos genitais, possibilidade de gerar, etc. — não estaria apta a representar as mulheres à frente da comissão. Muita gente parece não saber ou não se atentar, mas a transfobia é crime previsto em lei, inclusive equiparado desde 2019 ao crime de racismo. Além disso, argumentos desse tipo não param em pé: E as mulheres que não menstruam? As que não podem ou não querem gestar? As que sofreram mutilação genital? As que não têm útero ou ovário?

Para nós, mulheres negras, se amparar em questões ditas científicas ou biológicas é um tiro no pé. Historicamente, o racismo contra nós usou desses argumentos “biológicos”, fisiológicos e estéticos para se sustentar. Esses mesmos argumentos foram usados para dizer que não éramos mulheres e, sendo assim, não dividiríamos os mesmos direitos que as mulheres brancas e cisgênero de classe alta. Até hoje sofremos racismo médico em consultórios ginecológicos e salas de parto, porque ainda acreditam que não somos mulheres, ao menos não como as outras (as que merecem cuidado e anestesia, por exemplo).

Erika é uma mulher negra, trans e de origem periférica que tem demonstrado, no seu trabalho parlamentar, uma defesa árdua dos direitos dos de baixo, da população negra, dos trabalhadores e das mulheres. Foi quem protocolou a PEC para acabar com a escala 6x1, ajudou na legislação que defendeu a dignidade menstrual, criou o projeto de lei que obriga hospitais e delegacias a informarem que mulheres vítimas de violência sexual têm direito ao aborto legal, entre outros. 

É preciso tomar cuidado, ou corremos o risco de esquecer do que Sojourner Truth disse ao perguntar: “E eu não sou uma mulher?”.

Cuidar das meninas negras

Tudo isso acontece no mês da mulher, que este ano foi especialmente duro diante de tantos casos de violência contra mulheres e meninas. Nos casos que vi se repetirem nas últimas semanas, quase ninguém apontou um dado importante: o de que as mulheres e meninas negras são as mais afetadas. Meninas negras, por exemplo, correm mais risco de serem vítimas  de estupro de vulnerável. Em 2024, cerca de 60% das vítimas deste crime eram negras, segundo dados do 19º Anuário de Segurança Pública.

No Brasil, meninas negras ficam à margem das discussões sobre a proteção da infância e do direito de crescer sem violência contra si ou ao seu redor. Ainda vamos precisar discutir também qual é o impacto do aumento da radicalização de meninos e do avanço do movimento red pill sobre as meninas negras, que sofrem não só com o machismo, mas com o racismo que atinge suas vidas e seus corpos. Vem assistir e compartilhar o vídeo que fizemos. 

Outras notícias:
 
Homossexualidade em pauta

Infelizmente, por 135 votos a zero, o Senegal aprovou um projeto de lei que dobra a pena máxima para relações entre pessoas do mesmo sexo, elevando-a de cinco para dez anos de prisão. O texto agora aguarda sanção presidencial para entrar em vigor.

Quilombo

O Quilombo Tia Eva, em Campo Grande, foi o primeiro tombado no Brasil com base na Constituição.

Rolê Aleatório 

A Netflix Brasil anunciou uma nova minissérie documental dedicada à vida e à trajetória do ex-jogador Ronaldinho Gaúcho, um dos maiores nomes da história do futebol mundial. A produção tem estreia marcada para 16 de abril.

Trump, PCC e CV 

Em entrevista à Alma Preta, o pesquisador Lívio José Rocha, associado sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), explica que a medida pode abrir brechas para uma intervenção estadunidense no Brasil e destaca que não há embasamento jurídico para classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas.

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