Durante muito tempo, falamos das mudanças climáticas olhando para o céu. Mas um alerta igualmente duro vem da água. Quando rios e lagos aquecem além do limite, a vida aquática entra em colapso. E isso já está acontecendo. Na Amazônia, peixes estão morrendo não por falta de adaptação, mas porque a água ficou quente demais. Esse não é apenas um problema ambiental: é um sinal claro de que a crise climática já está afetando a pesca, o alimento e a vida de milhões de pessoas.
Nos ecossistemas aquáticos tropicais, onde a estabilidade sempre foi a regra, pequenas elevações de temperatura produzem efeitos desproporcionais. Peixes vivem próximos de seus limites fisiológicos, sem margem para acomodações. Quando esses limites são ultrapassados, o impacto é imediato, visível e silencioso ao mesmo tempo - e o preço não fica restrito à natureza. Ele chega à mesa, ao mercado e às comunidades que dependem do peixe para sobreviver.
A Amazônia tornou-se um retrato claro do que acontece quando o clima ultrapassa fronteiras biológicas. Durante a grande seca de 2023, temperaturas extremas foram registradas sobretudo em lagos e sistemas de várzea, como no Lago Tefé, onde a combinação de águas rasas, baixa circulação e forte insolação levou a valores próximos e, em alguns casos, superiores a 40 °C. Em trechos de rios, especialmente aqueles com fluxo reduzido, remansos e áreas isoladas também atingiram temperaturas críticas. Não se trata de um detalhe técnico. Trata-se de um choque fisiológico para organismos que evoluíram em ambientes quentes, porém historicamente estáveis. O resultado foi dramático: mortandades intensas de peixes, perda de biodiversidade e insegurança alimentar.
Existe uma ideia confortável e equivocada de que peixes tropicais "aguentam calor". Aguentam até certo ponto. Muitas espécies amazônicas passaram a viver, ao longo da evolução, muito próximas de seus limites máximos de tolerância térmica. Quando a temperatura da água sobe além desse limiar, o corpo do peixe entra em colapso. O metabolismo acelera, a demanda por oxigênio aumenta, mas a água quente contém menos oxigênio dissolvido. É um curto-circuito biológico: mais necessidade, menos oferta. Os três efeitos centrais das mudanças climáticas na água são o aquecimento, a hipoxia (redução da quantidade de oxigênio dissolvido) e a acidificação - chamamos isso de "trio da morte" para os peixes.
O problema se agrava quando o aquecimento se combina com secas mais longas e intensas. Menos água significa ambientes mais rasos, que aquecem mais rápido e perdem oxigênio com facilidade. Lagos tornam-se armadilhas térmicas. Rios desaceleram. Em muitos casos, os peixes morrem antes mesmo que a temperatura atinja seu pico máximo, simplesmente porque não conseguem respirar e obter o oxigênio que necessitam. Note que os peixes não conseguem regular a temperatura do corpo, isto é, se a água esquenta, seus corpos também se aquecem. Em biologia chamamos esses animais de ectotérmicos.
Esses eventos extremos deixaram de ser exceção e passaram a integrar o novo normal climático. Modelagens globais e regionais indicam que mudanças nas vazões, nas temperaturas da água e nos extremos hidrológicos reduzem áreas climaticamente adequadas para peixes de água doce, elevando o risco de colapsos populacionais, com a Amazônia entre os principais hotspots. Ainda que não haja extinções formalmente documentadas, a lógica da biodiversidade aquática já mudou: a diversidade encolhe, os ecossistemas se empobrecem e a resiliência do sistema se enfraquece.
Mas talvez o aspecto mais negligenciado desse processo seja o impacto humano. Os peixes representam a principal fonte de proteína animal para milhões de pessoas, especialmente na Amazônia. Espécies amplamente consumidas e economicamente relevantes, como o tambaqui, sustentam cadeias produtivas que vão da pesca artesanal aos mercados urbanos. Quando essas populações entram em colapso, o efeito é imediato: menor oferta de alimento, aumento de preços, perda de renda e maior vulnerabilidade social.
Em termos simples: o aquecimento da água vira custo no prato.
Além do alimento, os peixes sustentam serviços ecossistêmicos essenciais. Participam da ciclagem de nutrientes, dispersam sementes, ajudam a manter a qualidade da água e equilibram cadeias alimentares. Quando essas funções se perdem, o sistema aquático inteiro se torna mais instável. E, diferentemente de uma floresta, um rio degradado pode levar décadas, quando não séculos, para se recuperar.
A fisiologia dos peixes ajuda a entender por que esse é um problema urgente. Eles não podem migrar rapidamente para ambientes mais amenos. Estão confinados ao meio aquático. A ciência mostra que, para muitas espécies tropicais, não existe margem fisiológica para acompanhar a velocidade atual das mudanças climáticas. A água está esquentando mais rápido do que os peixes conseguem responder biologicamente.
Ignorar esse sinal é um erro estratégico grave. Os peixes da Amazônia já vivem no limite de tolerância térmica e, se o aquecimento global ultrapassar 2 °C — patamar que tende a ser ainda maior na região — populações inteiras podem colapsar. Proteger os ecossistemas aquáticos deixou de ser escolha: é uma condição para garantir alimento, renda e estabilidade social. Reduzir o desmatamento, manter a conectividade dos rios, conter a poluição e abandonar práticas predatórias não é agenda ambientalista, é sobrevivência. Quando os peixes morrem, o recado é claro: não é a natureza que está falhando — somos nós.
A água está quente demais. E esse é um aviso que não podemos continuar fingindo não ouvir.
*Adalberto Luis Val é biólogo, professor e pesquisador do INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia). Atua há décadas no estudo da ecofisiologia de peixes amazônicos, com foco nos efeitos da temperatura, da qualidade da água e das mudanças climáticas sobre a biodiversidade aquática. Coordena redes nacionais e internacionais de pesquisa e contribui para iniciativas voltadas à conservação da Amazônia, à segurança alimentar e à formação de recursos humanos em ciência ambiental.