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| 'Caseiro' no rótulo: quando a indústria tenta ser a sua avó |
| | Existe uma palavra simpática, que a indústria de alimentos descobriu funcionar como um ímã: caseiro. Ela aparece nos rótulos de diversos produtos: biscoitos, molhos para salada, até macarrão instantâneo, e atrai os consumidores porque evoca memórias da cozinha de casa, do pote de biscoito que a nossa avó assava no forno a lenha, e ficava escondido em cima do armário. São lembranças que habitam o imaginário coletivo — e os fabricantes de alimentos reconhecem o poder disso. O problema é que essa palavra em um rótulo de um produto industrializado não significa nada além de uma estratégia de marketing, afinal, nada pode ser mais contraditório do que chamar de "caseiro" algo feito em uma fábrica. Assim como não é possível fazer em casa um alimento industrializado, a indústria não tem como replicar a comida caseira, porque, mesmo se os ingredientes forem iguais, o processo será diferente. Portanto, um produto não pode ser, ao mesmo tempo, caseiro e industrializado. Isso é um oxímoro, como "silêncio ensurdecedor". Uma coisa exclui a outra. |
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Cozinhas não são minifábricas, assim como fábricas não são cozinhas gigantes |
| Pense no brigadeiro, um doce tão popular que até rima com brasileiro, e que cada família faz do seu jeito. Há quem use achocolatado, e quem prefira cacau em pó; alguns colocam creme de leite na receita, outros não. Adicionar manteiga ou margarina também muda o resultado. O tempo no fogo interfere: se cozinhar mais, ele fica mais escuro e firme, para poder enrolar; já se o objetivo for comer de colher, é melhor cozinhar menos. É engraçado pensar que o ser humano constrói naves espaciais, mas é incapaz de replicar em uma fábrica o brigadeiro da nossa avó (ao menos eu nunca vi algo "sabor brigadeiro" que entregue o que promete). Brigadeiro é, por natureza, uma experiência individual, e é esse conjunto de variáveis que torna a cozinha um lugar de experimentação: adaptamos a receita com o que tem na geladeira, ajustamos o sal no meio do preparo, considerando o gosto de quem vai comer. Quem faz pão sabe que a quantidade de água, o tempo de fermentação e até o tempo de forno mudam conforme a farinha e o clima do dia. Isso é o oposto do que acontece em uma fábrica. A indústria busca a padronização, utiliza processos fixos para reduzir a variação entre os lotes, para garantir que o produto seja o mesmo na primeira embalagem e na milionésima, e corresponda às informações do rótulo. Um alimento feito em larga escala tem o objetivo de chegar com segurança a diversas regiões do país, em qualquer estação do ano. Grandes indústrias seguem normas como a ISO 22000, uma certificação internacional que estabelece padrões para toda a cadeia produtiva, da matéria-prima ao produto final. Nenhuma cozinha doméstica opera com esse nível de controle, nem precisa, porque comida caseira é feita para ser consumida logo, não para durar meses na prateleira. Se, por um lado, esse conjunto de práticas industriais garante que um molho produzido em abril seja seguro para comer em dezembro, é essencialmente isso que impede que um produto feito em fábrica se compare, de fato, a um alimento caseiro. E isso explica por que chamar de "caseiro" um alimento industrializado não faz sentido. |
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Nem tudo que é caseiro faz bem |
| Antes de questionar a indústria, vale lembrar que cozinha caseira nem sempre é sinônimo de saúde. Brigadeiro, bolo recheado, fritura por imersão e até uma lasanha de massa artesanal, carregada com queijo e creme de leite — tudo isso pode ser feito em casa, com ingredientes conhecidos e preparado com muito amor, mas continua sendo fonte de gorduras e açúcares, com alto valor energético. Não se trata de "demonizar" alimentos que fazem parte da nossa cultura. Não estou sugerindo que eles são ruins, apenas alertando para o fato de que não é só a indústria que produz guloseimas; também é possível preparar em casa comidas altamente palatáveis, que favorecem o consumo em excesso e podem atrapalhar nossos objetivos de saúde. Por que, então, associamos o termo "caseiro" a algo gostoso ou saudável? Um dos motivos é a ideia de controle. Quando preparamos nossa própria comida, sabemos tudo o que ela contém. Já se um rótulo traz a palavra caseira acompanhada de um tipo específico de casa, como a casa da avó, lembra comida afetiva que remete à infância. Avós sabem das coisas e muitas sabem cozinhar bem! Inconscientemente, a pessoa não compra só o produto, mas a vontade de reviver aqueles momentos. A seguir, analiso quatro produtos que usam esse apelo para mostrar o que, de fato, existe dentro das embalagens. |
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| Caseirinho Amanteigado Baunilha - Vitalin |
| O produto é denominado "caseirinho" e o rótulo informa que ele é "amanteigado". Só que não tem manteiga na lista de ingredientes; ela foi substituída por um mix de gordura de palma e óleo de girassol — uma solução técnica que garante textura padronizada e estabilidade de prateleira, mas está longe da cozinha doméstica. Além disso, contém aromatizantes e dois estabilizantes, coisas que não são utilizadas em casa. |
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| Massa Caseira Instantânea Carne - Mosmann |
| Nessa massa, a contradição começa no nome: caseira e instantânea são, por óbvio, conceitos opostos. O macarrão instantâneo foi inventado para acelerar o tempo de preparo. Ele vem pré-cozido da indústria, sendo uma solução para quem não tem tempo de fazer, do zero, a massa em casa. Juntar essas duas palavras (caseira e instantânea) no mesmo rótulo é uma tentativa de combinar o prestígio de uma com a conveniência da outra, em um produto que, conceitualmente, é similar ao Miojo, embora tenha menos gorduras. Assim como no macarrão instantâneo convencional, o sachê de tempero contém aromatizante para intensificar o sabor, e dióxido de silício — um antiumectante que impede o pó de absorver umidade e não tem nenhuma função culinária. Ele é usado para evitar que a mistura empedre ao longo do tempo. Os aditivos são úteis para as fábricas, mas não estão presentes na cozinha. |
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| Molho para Salada Caseiro - Liza |
| A lista de ingredientes foi obtida a partir da imagem de uma embalagem física, pois o site do fabricante não disponibiliza a composição do produto. Isso é, por si só, um problema para o consumidor que se interessa pelos rótulos, pois transparência não deveria ser opcional. (Aliás, uma das maiores dificuldades que enfrento é localizar as informações de rotulagem, pois elas são frequentemente omitidas ou incompletas nos sites oficiais.) A parte da frente do rótulo destaca: "feito com vinagre, cebola, alho e especiarias", ingredientes que todos conhecem, mas não é só isso que vem dentro da embalagem. O rótulo também mostra uma série de aditivos nada caseiros: acidulante, aromatizante, estabilizante, conservantes, realçador de sabor, antioxidantes e sequestrantes. Esse mix de aditivos coloca o produto em um patamar bem diferente dos caseiros, pois são substâncias com funções tecnológicas que passam longe de uma cozinha doméstica. |
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| Sequilhos Casa de Vó - Seven Boys |
| A obrigação de declarar a origem dos organismos geneticamente modificados (que também consta no molho Liza Caseiro) é vista como uma conquista para o consumidor, mas o impacto visual gera estranheza: a lista parece saída de um manual de microbiologia, não da cozinha de uma avó. A propósito, as avós não colhem aromatizantes na horta para fazer receitas; quando querem um sabor extra, elas usam temperos. |
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Como vimos, caseiro é, por definição, o contrário do que as indústrias fazem. Nos rótulos de alimentos industrializados, o uso desse termo não tem significado objetivo. Isso não significa que o produto seja ruim, pois o resultado pode até entregar o que você espera; mas é importante saber que a palavra "caseiro" não diz nada sobre a qualidade, a composição ou a adequação nutricional de um alimento. A indústria jamais será uma extensão da cozinha da nossa casa, muito menos da casa da nossa avó! Ela pode ser melhor em alguns aspectos, como em segurança alimentar e padronização, e pode até se esforçar para imitar comidas que trazem conforto, mas isso não torna os seus produtos "caseiros". Para entender o que está comprando, ignore o nome fantasia e vá direto à lista de ingredientes — é ela que traz a verdade. E se você se sentir enganado pelas alegações dos rótulos, pode denunciar à Anvisa, ao Procon da sua região ou ao Observatório de Publicidade de Alimentos. Mas lembre-se de que, no fim das contas, a melhor forma de protesto é deixar de comprar. |
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Eu sou Sari Fontana, química industrial de alimentos e faço avaliações didáticas para ajudar você a comer de forma mais consciente (me siga no Instagram). Como você já sabe, o Guia do Supermercado não é patrocinado por nenhuma marca. Por isso temos a liberdade de criticar, mas também de elogiar os produtos que merecem um lugar no nosso carrinho de compras. Os produtos apresentados aqui são usados como exemplo ilustrativo, mas as explicações valem para alimentos similares de outras empresas. O mais importante é mostrar para você como interpretar a tabela nutricional e a lista de ingredientes dos alimentos, para fazer boas escolhas. Lembre-se sempre de conferir o rótulo dos produtos que avaliamos, pois o fabricante pode alterar a receita a qualquer momento, adicionando ou substituindo ingredientes. |
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