Mais um excelente e oportuno artigo de Raul Moreira, confiram ! O nosso lado oculto Na segunda-feira passada, enquanto a Artemis II se aproximava do lado oculto da Lua, nos EUA, de onde a nave espacial partira, mais precisamente de Cabo Canaveral, na Flórida, o seu ditador, Donald Trump, bravateiro, delinquente e assassino, ameaçava acabar com a civilização persa, enfim, varrê-la do mapa, a ponto de chamar os habitantes do Irã, com toda a sua tradição milenar, de “animais”, de “aberrações”. Um dia depois, veio a retratação em formato de um cessar-fogo de duas semanas, uma derrota para os EUA e seu presidente alucinado e sanguinário, o que não anula as contradições entre o absurdo da guerra e o explorar altrove (outro lugar), por uma simples razão: a natureza humana, na sua belicosidade– e sempre foi assim, independentemente do tempo histórico –, não nos autoriza a andar adiante, a infectar com os germes da nossa mesquinhez parte do sistema solar que somos ou seremos capazes de alcançar e, quem sabe, até povoar. Sobre o tema, a partir de uma tendência da dita cosmoética, uma espécie de sistema de valores universais que transcende a moral social e convencional e se propõe a desenvolver uma cultura da “maturidade consciencial”, há quem diga que a humanidade deveria se concentrar em “cuidar da casa” (Terra), tão maltratada, a ponto de, se assim continuar, pode se tornar praticamente inabitável em poucos séculos. Deus e o diabo Assim, aquelas citações bobas, infantis, ditas pelos astronautas da Artemis II ao aproximarem-se a olhos nus do lado escuro da Lua, tentando pegar carona na famosa e proselitista frase “esse é um pequeno passo para o homem, mas um gigantesco salto para a humanidade”, dita por Neil Armstrong em 1969, se mostraram vazias, e talvez seria melhor que dissessem “o homem, pelo perigo que representa, deveria ficar onde está, ou até desaparecer, em nome das tantas espécies que ameaça dizimar em seu próprio habitat”. Sim, os avanços da missão executada pela Artemis II, que denotam uma nova fase na corrida espacial, agora tendo como competidores os EUA e a China, mostram-se contraditórios, no sentido de que, essencialmente, o caráter civilizatório daqueles que levaram a nave a um ponto no espaço jamais alcançado pelo Homo Sapiens, é predatório, e isso é suficiente para desconstruir o feito. A percepção do fracasso da humanidade, no sentido das nossas limitações éticas, morais e existenciais, não é novidade, como pode parecer a partir das discussões em torno dos agouros apocalíticos intensificados nestes dias. O saudoso escritor português José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura, por exemplo, permeou boa parte de sua obra justamente em cima das nossas limitações, e não apenas no sentido da discussão sobre certa manutenção de um “estado primitivo”, mas sobre a nossa natureza em si. Isso se percebe em Ensaio Sobre a Cegueira (1995), e, também, em O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991), romance no qual Saramago especula que o fracasso do homem é fruto da ambiguidade e do egoísmo de quem o criou, sugerindo que Deus, no final das contas, se equipara ao Diabo, ou pelo menos o autoriza, levando-se em conta que os seus filhos carregam a mais pura malignidade. Na mesma toada e se valendo de um dos nossos, o também saudoso Machado de Assis, em A Igreja do Diabo,conto publicado em 1884,como parte da coletânea Histórias Sem Data,critica não apenas as instituições religiosas, mas, principalmente, a tendência da humanidade de oscilar entre polos opostos, com o detalhe: ele, ao contrário de Saramago, alivia para Deus, dando-lhe o álibi de que a criação humana parte do princípio de certa dualidade, e a divisão entre o vício e virtude foi coisa pensada. A Lua, um grande negócio Essa dualidade, aliás,capaz de nos equilibrar entre as canoas do“bem” e do “mal”, sob pena de cairmos em águas turvas, se manifesta de forma assustadora nos dias atuais. Isso porque, ao contrário dos tempos passados, quando ainda não éramos capazes de destruir na escala de hoje e não detínhamos certos conhecimentos, no presente, que quase tudo nos dá, em termos de informações, a prática de pecar contra si se faz ainda mais gravosa. Na real, não adianta ir ao espaço, se aproximar do lado oculto da Lua e propagar loas ao feito para nos fazer, como dizer, mais “humanos”, não. De nada serve, até porque, a conquista da Lua, não passado vislumbrar de um grande negócio, do apropriar-se de minerais raros, como são as guerras de Trump, as quais são feitas para roubar petróleo, e no combo vai junto as suas doenças, as mesmas que padecem a extrema direita mundial. Em resumo, após nos aproximarmos, a olhos vistos, do lado escuro da Lua, o ideal seria que finalmente começássemos a refletir sobre o nosso lado escuro e os motivos pelos quais não somos capazes de acessá-lo. E essa incapacidade nos faz um daqueles personagens que param de enxergar em Ensaio sobre a Cegueira, metáfora eterna para a cegueira moral, social e racional da humanidade contemporânea. O resto é silêncio e o abrir de um olho, de preferência aquele esquerdo, do coração. (Raul Moreira) FONTE: JORNAL A TARDE, SALVADOR-BA, 13.04.2026
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