Dormir na floresta é provavelmente uma das experiências mais marcantes que se pode ter hoje no planeta. Antes de tudo porque é uma raríssima oportunidade de ver o escuro, o escuro absoluto, natural, sem as luzes das cidades ou mesmo seu reflexo no horizonte. Foi assim que produzimos o documentário "Vestígios", acompanhando uma expedição da Funai que monitora povos indígenas isolados no sul do Amazonas a partir dos sinais que deixam na floresta. Quando não há lua, os olhos mal se acostumam, não conseguem ver realmente nada. Quando a lua brilha sobre as árvores, os fios de luz cruzam o dossel e chegam de fininho até o chão. No início você acha que não vai se adaptar, mas, no meio da noite, descobre que os olhos conseguem captar imagens. Você dorme quase-cego e acorda quase-vendo. Se existe escuro absoluto, o mesmo não acontece com o silêncio: a floresta tem muitos barulhos, intensos, altos, distantes, próximos, todos ao mesmo tempo. Uma sinfonia caótica. É como se um outro mundo acordasse ao fim do dia para viver intensamente a noite. Numa dessas noites, acordei com um barulho que me parecia o de uma onça urrando perto das redes. Nosso companheiro riu: 'É só um sapo'. Uma surpresa que o iniciante nunca esquece é o frio: ninguém imagina que possa enregelar à noite, depois de um dia de calor equatorial. Uma vez deitado, no escuro absoluto e no silêncio barulhento, tento ler um pouco para pegar no sono. Mas não dá tempo. O sono é avassalador —e vem com sonhos de outro tipo, daqueles em que a gente pensa: 'isso é um sonho de verdade'. LEIA O DIÁRIO DE VIAGEM E ASSISTA AO DOCUMENTÁRIO |