Existe aquela imagem de que o otaku é uma criatura avessa a bagunça, preferindo ficar no conforto do quarto colocando em dia os animes da temporada, mas isso tudo é balela. No último dia 17, em plena despedida do carnaval, uma multidão se reuniu na Praça da Liberdade em São Paulo para prestigiar a primeira edição do Bloco Otaku, iniciativa que entregou anisongs em ritmo de batuque.
Mas, afinal, como foi o rolê? Estive lá pessoalmente e posso contar em detalhes o que presenciei (sóbrio). Ao contrário de muitos blocos do carnaval, o Bloco Otaku ficou apenas parado na Praça da Liberdade, à frente de uma estrutura de banco com design bem asiático (o que ficou bem estiloso). No chão ficavam os instrumentos, e em cima do trio elétrico ficaram posicionados os cantores e personalidades do mundo otaku, como o dublador Adrian Tatini (o Usopp de 'One Piece').
O bloco intercalou músicas conhecidas dos otakus da atualidade com algumas canções que fizeram a infância dos fãs com mais de 30 anos de carreira, mas havia uma preferência clara. Enquanto um 'Pegasus Fantasy' (abertura de 'Os Cavaleiros do Zodíaco' que é tipo um 'Evidências' em shows de anime) causou uma certa comoção entre fãs mais velhos, alguns com camisetas exaltando produções da Rede Manchete, o público geral foi abaixo mesmo quando a banda performou 'Gurenge', primeira abertura de 'Demon Slayer'. Aí era criança com roupa do Tanjiro pulando, adolescente balançando chapéu de palha, uma festa.
E se é importante enfrentar de cabeça erguida as adversidades da vida, os otakus conseguiram manter a emoção até durante a chuva torrencial que caiu em São Paulo e disparou vários alertas da Defesa Civil no celular. O perfil oficial do Bloco Otaku compartilhou um vídeo mostrando as pessoas pulando e dançando ao som da abertura em português de 'Dragon Ball GT".
Mas quem viu a multidão de 2500 otakus simultâneos na Praça da Liberdade, segundo números da Polícia Militar, não imagina o sufoco que foi organizar tudo. Conversei com Leonardo Berenguer, o Diretor de Comunicação e surdista do Bloco Otaku, e ele conversou sobre as dificuldades de se arranjar patrocínio e até de um certo descaso por parte do poder público. Quanto ao primeiro item, o bloco até conseguiu parceria com algumas empresas e ajuda com instrumentos e estúdio, mas no quesito estrutura rolou desencontro de informações.
Com a autorização da prefeitura de São Paulo, o Bloco Otaku tinha direito a uma ambulância, o fechamento da rua pela CET e policiamento, mas houve falhas de comunicação. 'Eu cheguei lá na Praça da Liberdade às 9 horas da manhã, estava tendo uma obra e o pessoal não havia sido avisado pela prefeitura de que ia ter um bloco de carnaval lá', contou Leonardo. Coube ao bloco também conversar com a CET e com os comerciantes locais, pois eles não foram avisados pela prefeitura do evento que iria rolar ali. Por sorte, tudo correu bem e até os donos de estabelecimentos ficaram contentes com o movimento.
Para você que perdeu, tenho uma boa notícia. Ao que parece, os otakus não vão precisar reunir as esferas do dragão para pedir um repeteco, porque o Bloco Otaku parece ter se firmado no calendário carnavalesco da cidade, pelo menos é o que afirma o diretor do evento: 'O carnaval de 2027 já está confirmado o Bloco Otaku, tá? O que a gente pode garantir é que o Bloco Otaku vai ser andando em ruas, não na praça'. Ótima notícia, afinal atrás do bloco otaku só não vai quem não foi ressuscitado por Sheng Long.