Umas semanas atrás falei aqui sobre a turma se autodiagnosticar na análise. Agora o papo passou de nível: a tendência é o autodiagnóstico médico.
Ó, o perigo.
Com a profusão de apps de saúde, testes em casa, relógios e anéis inteligentes e, principalmente, chatbots, uma parte da triagem médica está sendo feita fora do consultório. Pelo próprio paciente.
A ideia de receber dados direto de apps e de estar em "contato mais próximo" dos nossos sinais vitais, como fazem com mais frequência esportistas (e CEOs conectados) a partir desses gadgets todos, pode ser boa. Mas obviamente gera também um tanto de interpretações erradas, falsos alarmes, muita ansiedade e, pior de tudo, decisões precipitadas.
Num artigo recente para o Wall Street Journal, o jornalista e autor Daniel Akst relata que, embora tenha plano de saúde e more perto de um hospital cheio de especialistas de ponta, o "médico" que ele mais consulta hoje é um chatbot.
E não é porque ele acha que a IA seja melhor do que um humano. Mas porque, para as dúvidas do dia a dia, o Chat é mais disponível. Aqui, devo concordar com ele: o pior das consultas é esperar pela disponibilidade de agenda do médico. Minha ansiedade sempre me levou ao Google (e, agora, ao Chat) na busca por respostas mais rápidas - mesmo que impessoais.
Mas Daniel e eu não somos casos isolados. Uma pesquisa recente publicada pela Nature Medicine indica que um em cada seis adultos usa chatbots para buscar informações de saúde pelo menos uma vez por mês. Isso inclui traduzir termos médicos, explicar resultados de exames, organizar sintomas e até montar roteiros de perguntas para levar à consulta com um médico "humano" (não sei se já existe um termo correto para falar de… gente).
Ainda segundo a pesquisa, as IAs existentes já têm capacidade de respostas absolutamente precisas e corretas para questões ligadas à saúde. O problema está nos humanos. Sim, segundo o resultado, a culpa é nossa: o estudo indica que ainda não sabemos fazer as perguntas totalmente corretas para os chatbots. E, aí, os erros em diagnósticos e condutas acontecem.
Os erros não são poucos. Há casos de apps e bots que confundiram, alarmaram ou erraram de modo perigoso, gerando calafrios na comunidade médica.
Além dos bots, há também uma infinidade de novos gadgets de uso pessoal na medicina. A seção "The Future of Everything", do The Wall Street Journal, destaca um adesivo com IA que detecta sinais de piora da asma, como chiado, e pode enviar esses dados ao médico, ajudando no monitoramento em casa. Para a psoríase, um aparelho de fototerapia domiciliar pode funcionar "tão bem quanto" fazer a terapia no consultório.
Aqui, de frente para meu laptop, com o Chat sempre alerta, vou tirando minhas dúvidas, para desespero dos meus médicos. Mas ainda não tenho coragem de confiar só na IA. Até porque, confio na pesquisa: certamente farei as perguntas erradas.