Quem assistiu a maravilhosa série "Dying for sex" deve se lembrar da personagem Amy, a enfermeira que conduz a protagonista, Molly, em seus últimos dias de vida com câncer, por uma conversa honesta, intensa e surpreendentemente reconfortante sobre a hora da morte.
Recentemente, Nicole Kidman revelou que está se preparando para se tornar uma doula da morte, a mesma decisão que tomou Chloé Zhao, diretora de "Hamnet" - que, aliás, nada mais é do que um filme sobre o luto. As duas disseram ter feito essa escolha por motivos pessoais: Nicole passou a se interessar pelo assunto após a morte da mãe, em 2024, onde se viu bastante desamparada, e Chloé disse que tomou a decisão para ajudá-la a enfrentar o seu próprio medo da morte.
A ideia de uma doula até hoje era mais conhecida na outra ponta da vida: o nascimento. São mulheres (não médicas) que acompanham gestantes durante a gravidez, parto e pós-parto, dando suporte emocional, ensinando técnicas de respiração, até apoio sentimental - e haja sentimento numa hora dessas.
A doula da morte faz mais ou menos a mesma coisa, mas oferecendo apoio e acompanhamento a pessoas em processo de fim de vida. Ela ajuda na tomada de decisões, conversa sobre as etapas pelas quais o paciente vai passar até chegar a hora de ir. Ela também faz as vezes de uma terceira parte neutra, servindo de ponte entre a família, os profissionais de cuidados paliativos e os responsáveis pelos serviços funerários.
Assim como elas, todos nós podemos ser doulas da morte, independentemente da formação profissional. É o que nos diz a roteirista e escritora Camila Appel, criadora do blog "Morte sem Tabu", da Folha de S. Paulo, cuja longa pesquisa sobre o tema foi publicada no livro "Enquanto você está aqui".
"Em algum momento, quase todos nós vamos acompanhar alguém nesse processo. Por isso, cursos e formações sobre o tema vêm ganhando espaço como uma forma de tornar a morte menos distante e mais compreensível", diz ela.
Durante a pandemia de Covid-19, cresceram as organizações que apoiam e treinam doulas da morte nos EUA e em todo o mundo, inclusive no Brasil - que tem diversos grupos voltados ao tema. Mas a profissão ainda não é regulamentada.
Para Camila, as redes sociais ajudaram a trazer a morte para o centro das conversas cotidianas. Publicações sobre luto, homenagens a familiares falecidos e relatos sobre o cuidado de pessoas em fase final de vida criaram espaços de troca e apoio que antes eram menos visíveis. Esse movimento também se reflete na literatura e em outras áreas da cultura: o tema da morte deixou de ficar restrito à filosofia e à psicologia para aparecer em crônicas, autoficção, livros-reportagem e debates do dia a dia.
Mas, olha só, estou falando disso como uma grande novidade, mas as doulas, de vida ou morte, sempre existiram, lá atrás, quando as pessoas nasciam e morriam em casa. Com a medicalização e hospitalização de tudo, esse tipo de cuidado foi sendo eliminado. Até agora, quando retorna como humanização muito bem-vinda das duas pontas dessa nossa viagem.
(Colaborou: Lígia Nogueira)