“Dize-me o que lês, e eu te direi o que escreves.” A fórmula é simplista, mas vai ao que interessa. O repertório de leitura de um escritor revela muito sobre sua época, obra e personalidade artística. Daí o interesse de estudiosos por vestígios que ajudam a avaliar influências e estabelecer conexões estilísticas e temáticas. Epígrafes e dedicatórias abreviam o caminho, pois expõem afinidades eletivas e até orientam a interpretação. Maria Valéria Rezende usou este expediente em vários livros. O seu romance Quarenta dias tem mais de trinta citações. Carta à rainha louca desnuda o processo de escrita: apresenta rascunhos das cartas que a protagonista endereça a Dona Maria, a rainha do título. Com um recurso tipográfico, mostra trechos cortados, dando acesso ao mesmo tempo à versão final. Assim, realça o esmero da personagem em buscar a palavra certa para se livrar do convento-prisão; desfaz o mito da escrita puramente intuitiva; e expõe a pesquisa do vocabulário do Setecentos. Em Recapitulações, sua obra mais recente, Rezende amplia o jogo. Escreve doze contos a partir de textos e filmes, e escancara seu cânone particular: Kafka, Drummond, bastante Machado de Assis, e Saramago, entre muitos outros. Seu desafio é também rendição (no sentido de render homenagem) aos antecessores, mas não submissão, atitude incompatível com a escritora santista enraizada na Paraíba, dona de uma biografia única. Freira dedicada à educação popular e a trabalhos sociais em vários continentes, Rezende tem construído uma das trajetórias mais singulares da literatura contemporânea brasileira. Em Recapitulações, exercita estilos, jogos de linguagem (já no título) e pontos de vista para questões candentes, como a homossexualidade, muitas vezes velada por censura ou autocensura. Deixa transparecer seu prazer em ensaiar uma linguagem próxima aos autores que admira e acolhe temas variados: silenciamento feminino, colecionismo, medo, amadurecimento, impacto da leitura no indivíduo, escrita e cotidiano. Dentre os autores escolhidos para a homenagem, está o soberbo José Lins do Rego, injustamente esquecido. Além do gosto pessoal, sua presença merece ser lida como gesto político de Rezende, uma espécie de reabilitação do autor. De modo similar, invoca o paraibano Geraldo Maciel, de pouca circulação no Sul do país, e tira do limbo um pilar do gênero conto, o francês Guy de Maupassant. A coletânea oferece ironia refinada e desfechos inesperados para quem conhece ou não os textos que estão na sombra. Alguém elogiará a tomada de palavra por Capitu; alguém discordará de seu discurso explicativo sobre o triângulo amoroso, que esvazia a ambiguidade da trama. Mas a ideia é essa. Criar instigantes, poéticos e divertidos reencontros com o Gregor Samsa, o João que amava Teresa e outros. Os contos têm vida própria, mas conhecer os textos primários amplia o humor e a ternura com que ela nos seduz. Vai a dica: identificar os seus preferidos e correr atrás de quem inspirou a autora. |
Depois de ler seu obituário publicado em portais de notícias, Deborah Vance (Jean Smart) não gosta do que é descrito como seu legado. Comediante veterana, a protagonista de Hacks decide que, ao lado de Ava Daniels (Hannah Einbinder), sua roteirista, vai ditar os termos de sua descrição póstuma e, para isso, perseguir coisas maiores. Não que sua carreira já não seja grandiosa – durante a série, acompanhamos as glórias e as dificuldades impostas na vida da comediante, mulher de sucesso –, mas ela quer mais. É essa busca por coisas maiores e a parceria entre Deborah e Ava que guiam a última temporada da comédia da HBO, cujo episódio de encerramento foi ao ar no dia 28 de maio. Hacks acompanha, sobretudo, a relação entre as duas, que se conhecem em um momento de estagnação da carreira de ambas. Deborah precisa atualizar o material de seus shows; Ava foi “cancelada” por uma publicação em rede social e não tem conseguido novos trabalhos. A diferença geracional tem um papel importante (Deborah vive uma vida luxuosa e pautada no trabalho incessante; Ava é uma bissexual preocupada com o meio ambiente) e rende ótimas piadas, mas Hacks é bem-sucedida porque não se resume a isso. O humor afiado das protagonistas, a cada episódio mais criativas com as ofensas, e a presença marcante de personagens secundários, como do empresário Jimmy LuSaque Jr. (Paul W. Downs) e da assistente Kayla Schaeffer (Megan Stalter), é de se destacar. Apesar de ser uma relação trabalhista, Deborah está sempre fazendo alguma piada sobre a aparência de Ava (como quando diz que a roteirista não é engraçada o suficiente para se vestir como o Adam Sandler). Ava devolve as provocações e rende sequências hilárias ao ironizar, por exemplo, o estilo de vida de Deborah, excessivamente preocupada com a beleza. Com o passar do tempo, uma vai absorvendo características da outra. É uma relação complexa, difícil de categorizar. Não é exatamente familiar, nem amorosa, nem de amizade. É de uma singularidade interessantíssima, especialmente nesta última temporada. Talvez o artigo de James Poniewozik publicado no The New York Times depois do fim da série – ‘Hacks’ was always a love story – seja certeiro ao indicar o mais simples: sempre foi uma história de amor. |
Novas diretrizes em tempos de paz é um dos textos mais importantes do teatro brasileiro contemporâneo. Montado pela primeira vez em 2001, o espetáculo foi um fenômeno de crítica, vencendo os prêmios Shell e APCA e se consolidando como um dos marcos da dramaturgia brasileira dos anos 2000. A peça escrita por Bosco Brasil atravessa o tempo sem perder atualidade, e reafirma o teatro como espaço sensível de denúncia das desumanidades do mundo. Agora, ela retorna ao Teatro Poeira, no Rio de Janeiro, numa nova montagem dirigida por Eric Lenate e Vitor Julian, que ficará em cartaz até o dia 28 de junho. A trama se passa em 1945, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial. Clausewitz, interpretado por Lenate, é um judeu polonês que tenta entrar no Brasil no pós-guerra. Ele chega ao gabinete de Segismundo, vivido por Fernando Billi, um funcionário da imigração e ex-torturador do Estado Novo que segue rigidamente as diretrizes do regime. O encontro acontece justamente no momento em que o país altera suas políticas migratórias depois da derrota do nazismo, deixando o burocrata dividido entre antigas práticas autoritárias e as novas diretrizes humanitárias. O que começa como uma entrevista burocrática transforma-se em um intenso duelo psicológico, filosófico e teatral. Ao descobrir que Clausewitz é ator, Segismundo o provoca: exige que conte sua história e seja capaz de emocioná-lo. O imigrante já não precisa apenas apresentar documentos ou argumentos racionais; precisa convencer emocionalmente o representante do Estado para validar sua entrada no país. Sua sobrevivência passa a depender da própria capacidade de atuar. À sua maneira cruel, autoritária, Segismundo busca uma verdade humana que os formulários e a burocracia não conseguem alcançar. Mas essa exigência também é sádica, pois transforma o trauma real do refugiado em espetáculo diante da autoridade do funcionário do governo. O texto expressa sua força no equilíbrio entre o político e o poético, e reverbera discussões sobre violência, burocracia e desumanização presentes em autores como Hannah Arendt, Franz Kafka e Samuel Beckett. A montagem ganha ainda mais força com a interpretação comovente de Lenate ao dar vida a um personagem profundamente humano e vulnerável (além da codireção da nova montagem, Lenate também assina a direção artística e o desenho de luz). Em um dos momentos mais impactantes da peça, Segismundo descreve friamente uma sessão de tortura contra um cirurgião que havia salvado a irmã do burocrata. “E por que não fez nada?”, pergunta Clausewitz. “Porque cumpro ordens”, Segismundo responde. A cenografia, a iluminação e a trilha sonora reforçam a atmosfera dura e, ao mesmo tempo, lírica da encenação. |
“Tudo o que já foi, é o começo do que vai vir. O que virá? Em tempos de pressa virótica, atenção fracionada e estupor digital, Grande sertão: veredas completa setenta anos mais vivo – e necessário – que nunca.” Assim começa o ensaio O pulso agreste do mistério, escrito por Eduardo Giannetti e publicado na edição de junho da piauí. Seguindo uma trilha analítica proposta pelo próprio Rosa, dividida em quatro eixos temáticos, Giannetti – que hoje ocupa na Academia Brasileira de Letras a cadeira número 2, que já foi do escritor mineiro – revisita esse texto seminal da literatura brasileira, explorando sua multiplicidade e aura premonitória. Com uma prosa enérgica e alguns neologismos que evocam a sintaxe roseana, Giannetti também rende uma espécie de homenagem estilística ao autor, tecendo uma resenha de fôlego que desmistifica e ao mesmo tempo respeita a construção minuciosa do autor. |
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