13 junho, 2026

Matheus Nachtergaele vive poeta em São Luís e patriarca opressor no Ceará | Aurora de Cinema

 

Aurora Miranda Leão*

Ele é amado no Brasil todo. De Norte a Sul, do Rio Grande a Aracaju, todo mundo sabe quem é e ama Matheus Nachtergaele. Por conta disso, falar sobre a ator é sempre um prazer, pra quem escreve e pra quem lê.

Esse sentimento pela pessoa do ator é avenida de mão dupla: na mesma medida em que se gosta dele, aplaudem-se seus personagens. E sua interpretação, sempre com um diferencial marcante – uma verdade cênica própria a cada um deles, e não uma representação engessada e seguindo estratégias para consagrar um ator que “agrada ao mercado” -, faz dele um ator visceral, orgânico, inquieto, transversal, polimorfo, capaz de jogar em todas as posições e assumir múltiplas personas. Se sairá sempre melhor na próxima, não temos dúvida disso.

Por estes dias, Matheus está filmando em Guaramiranga, serra cearense, “Entre os Dias”, novo filme de Petrus Cariry, diretor de cinematografia premiada e filho do baluarte Rosemberg Cariry[1], proeminente cineasta do Ceará.

A narrativa é sobre Pedro, um patriarca de posses, determinado a instalar-se com a família numa casa isolada na floresta. O tempo de convívio em lugar tão inóspito vai criando tensões e a convivência começa a azedar, gerando conflitos, dissabores, mágoas, ressentimentos e muita divergência.

Matheus conta sentir-se bastante desafiado: “Estou fazendo um personagem para o qual raramente sou convidado, um homem machista, um carismático armamentista do pior tipo, filho da ditadura militar, endinheirado, mas ignorante, um burguês com cacoetes do agro no seu pior aspecto”. Sílvia Buarque, atriz de desempenho sempre louvável, faz a esposa do homem machista, que dá as cartaz em casa.

Matheus Nachtergaele e Sílvia Buarque contracenam novamente em filme rodado no Ceará. (Foto: Divulgação)

O filme é produzido por Bárbara Cariry, da Iluminura Filmes, irmã de Petrus, e acontece via edital de apoio ao Audiovisual Cearense da Lei Paulo Gustavo. A previsão de lançamento é 2027, com posterior distribuição da Sereia Filmes.

Antes do filme cearense, Nachtergaele esteve no Maranhão para protagonizar “Nau de Urano”, filme inspirado pela antologia de mesmo nome, com 806 sonetos de Nauro Machado, obra considerada pela crítica como marco na carreira do poeta maranhense.

Dirigido por Frederico Machado[2] e Helena, filho e sobrinha do poeta, o filme também deve ser lançado ano que vem. As ruas do belo Centro Histórico de São Luís criam a ambiência escolhida para o mergulho sensorial numa obra com traços de angustiada reflexão existencial, ancorada em denso pesar sobre a existência humana, de pouca similaridade na lírica de língua portuguesa.

Conhecido, traduzido e citado por intelectuais e escritores como Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Alfredo Bosi e Ferreira Gullar, Nauro Machado  era autodidata, publicou 37 livros e alcançou reconhecimento da Academia Brasileira de Letras (ABL). O poeta faleceu aos 80 anos, em 2015, na capital maranhense, sua terra natal.

Longe do formato biográfico tradicional, a direção opta por uma estética introspectiva, permeada por muita simbologia, fruto da inspiração em ícones da Sétima Arte, como Tarkovsky e David Lynch. Destarte, partindo da ideia gestada pelo filho do autor, a câmara certifica um olhar íntimo e de muita acuidade sobre a relação visceral entre o homem e sua obra.

O elenco de “Nau de Urano” conta ainda com a atriz Bete Mendes, uma das mais relevantes da cena artístíca brasileira – intérprete de obras referenciais como o filme “Eles não usam Black -Tie”(1981) e as novelas “Beto Rockfeller” (1968) e “O Rebu” (1974). Bete Mendes faz a mãe do poeta. O roteiro começa na infância solitária de Nauro e segue até sua reclusão num antigo casarão, onde transformava memórias e excessos em poesia pura.

Produzido pela Lume Filmes, em coprodução com Auras Produções, Macabea Filmes e Filmes de Brinquedo, “Nau de Urano” vai transitar entre Cinema e Artes Visuais, honrando o espírito inquieto do autor, numa celebração à cultura nordestina, tendo o Maranhão, mais uma vez, como vigoroso manancial artístico do país.

*Aurora Miranda Leão é especialista em Audiovisual, atriz e atua há mais de 3 décadas no Jornalismo Cultural.


[1] Rosemberg Cariry é autor de diversos livros e filmes premiados, tendo completado 50 anos de atividades na Cultura do Ceará em 2025. Saiba mais: https://www.filmeb.com.br/quem-e-quem/diretor/rosemberg-cariry

[2] Frederico Machado é produtor, diretor e distribuidor de cinema com mais de 100 prêmios internacionais. Acesse: https://embaubaplay.com/diretor_s/frederico-machado/