Eu entendia perfeitamente o que ela estava me dizendo. PER-FEI-TA-MEN-TE.
"Amo 'Sex and the City', passei minha adolescência assistindo. E o que é 'Sex and the City'? Mulheres lindas, magérrimas e extremamente vaidosas." Jéssica (nome fictício) foi uma das primeiras pessoas que entrevistei para a reportagem do UOL Prime.
A ideia era falar com pessoas magras, que vinham usando Mounjaro para perder ainda mais peso —o que a medicina desaconselha.
A publicitária de 33 anos me disse que, embora já fosse magra, achava que poderia ser um pouco mais. Quem nunca? Eu mesma sempre achei que estivesse pelo menos 5 kg acima do peso.
Como Jéssica, passei a vida vendo 'Sex and the City'. E tantas outras séries, novelas, filmes com mulheres magras. Tantas revistas com mulheres magras. Tantos desfiles e tapetes vermelhos com mulheres magras. E, hoje, tanta rede social com mulheres magras.
Aprendemos desde pequenas que ser magra —o mais magra possível (e às vezes até o impossível)— é o bonito. Isso cresce com a gente e destrói nossa autoestima. É estrutural e, justamente por isso, é difícil de mudar.
Seria o Mounjaro —e as canetas emagrecedoras de forma geral— a realização de todos os nossos sonhos? É um medicamento revolucionário, os médicos concordam. Para tratar diabetes e obesidade.
Talvez tenhamos, enfim, uma saída para aqueles quilos a mais que nos perturbaram a vida toda?
"Vivemos numa sociedade obcecada pela magreza e que abomina a gordura. Então, a partir do momento em que há uma biotecnologia disponível que cause esse efeito [emagrecimento], isso gera um alvoroço", me disse Fernanda Scagliusi, professora da Faculdade de Saúde Pública e da Faculdade de Medicina da USP.
Mas quem determina quantos quilos são os quilos a mais? Há limites para isso?
A publicitária Cristiane Bussab, 51 anos, definiu assim: "Se você perguntar para qualquer mulher acima do peso se ela prefere ser magra ou ser rica, a resposta que você vai ter é magra. A gente está num país em que a exposição do corpo é real".
Entre nós, mulheres, não tem quem não se identifique com isso. Das mais bem resolvidas até as que lutam dia a dia para caber num tamanho que naturalmente não é o seu, todas temos ou tivemos algum dia questionamentos sobre o próprio corpo.
Há alguns meses, uma amiga me escreveu, muito emocionada e sensível, contando que tinha usado Mounjaro.
"Por que tudo tem que ser tão difícil para nós? Eu me rendi ao Mounjaro. Conquistei um corpo que eu admiro, mas a que custo? Somos mulheres inteligentes e caímos nessa tortura de imagem."
A culpa é feminina e nos persegue a cada minuto da nossa existência. Porque comeu, não comeu, porque engordou, porque não treinou, porque está feia, porque está bonita, mas usou Mounjaro.
E se a gente se libertasse e não deixasse a nossa autoestima tão dependente do olhar do outro?
"Eu quero chegar aos 40 anos igual a Carrie e a Samantha", me disse Jéssica. "Gata, sabe?"
E se a gente ficasse gata sendo a gente mesma? Gata como a Jéssica, como a Cris, como a Fernanda, como eu, como a minha amiga. Como tantas mulheres da vida real.
Não seria, isso sim, revolucionário?
LEIA A REPORTAGEM NA ÍNTEGRA NO UOL PRIME