Lembra-se de Antônio Rogério Magri, ministro do Trabalho e da Previdência Social por dois anos do governo Collor (1990-1992)?
Vindo do sindicalismo, Magri era meio tosco e intelectualmente pouco refinado. Caiu do ministério sob acusações de corrupção passiva.
Com seus neurônios, inventou a palavra "imexível" pouco depois de assumir, para dizer que nada mudaria no salário do trabalhador.
Mais famosa ainda foi a frase que ele proferiu em maio de 1991 depois que flagraram sua cadela Orca sendo levada em carro oficial ao veterinário: "A cachorra é um ser humano como qualquer outro".
Dali, foram dois palitos para que a frase se transformasse em "cachorro também é gente" no imaginário popular.
O que ficou engraçado há 35 anos pode servir para reflexão hoje, depois que uma onda de maus-tratos a cães parece ter tomado conta do Brasil em janeiro.
Milhares de pessoas ficaram indignadas e revoltadas com a barbárie cometida por adolescentes bem-nascidos contra o cachorro comunitário Orelha em praia de Florianópolis (SC). Depois de ser espancado e torturado, o simpático vira-lata teve que ser sacrificado.
Na sequência, vieram à tona outros casos de maus-tratos a cães no Paraná e no Rio Grande do Sul. E a "moda" chegou a São Paulo, com a revelação atrasada em alguns dias de que um homem matou com sete tiros um cachorro comunitário que latiu para ele na zona leste.
Esses casos mexeram com emoções humanas. No domingo (1º), houve manifestações em várias capitais. Em São Paulo, a concentração foi diante do Masp, na avenida Paulista (zona oeste).
O que provoca tamanha comoção? A morte de Orelha, em especial, evocou a frase atrapalhada de Magri. Foi como se um ser humano tivesse sido torturado e morto.
Tive cinco cachorros quando morava com meus pais. O primeiro, tadinho, morreu atropelado. Os outros morreram por velhice ou doença. Hoje tenho um gato.
A última coisa que gostaria de imaginar seria um deles sofrendo nas mãos de estranhos sádicos. Pior ainda se fosse um bando de moleques mimados, imaturos e cruéis.
Cães (ou gatos) podem até tentar se defender com mordidas (ou arranhões). Mas contra um pedaço de pau ou, pior, um revólver, estão completamente indefesos. Criaturas irracionais e inocentes que nem conseguem entender o que lhes está acontecendo.
Que se faça justiça nos casos ocorridos. Racionalmente. Sem linchamentos. Existem penas mais duras para maus-tratos a cães e gatos que em relação a outros animais não domésticos.
Quem poderia imaginar que, 35 anos depois, seria possível dizer: "Magri, tudo está perdoado". Quer dizer, não tudo. Só a frase sobre a cadelinha.