Quando se fala em desmatamento, a imagem mais comum é a de grandes áreas de floresta sendo derrubadas de uma só vez por ações humanas com motosserras ou correntões. Esse processo, conhecido como corte raso, ainda existe e continua sendo um problema grave na Amazônia.
Nos últimos anos, no entanto, a Amazônia brasileira voltou a apresentar números positivos de redução do desmatamento. Em 2025, a taxa oficial de desmatamento do sistema PRODES do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) foi de 5.796 km² (de agosto de 2024 a julho de 2025), a mais baixa desde 2014, representando uma redução de cerca de 56% em relação a 2022, quando o desmatamento atingiu 13.038 km². À primeira vista, os dados indicam que a floresta está mais protegida.
Porém, o desmatamento por degradação progressiva causada por incêndios aumentou muito em 2023-2024. Diferentemente do corte raso, esse tipo de desmatamento não ocorre de forma imediata. Ele avança de maneira gradual, por meio de incêndios florestais recorrentes, que enfraquecem a floresta até que ela perde sua capacidade de se regenerar e expõe o solo descoberto pela vegetação.
O monitoramento do INPE mostra o avanço do desmatamento na Amazônia causado pelo fogo. Em 2022, com 115 mil focos ativos, esse tipo de desmatamento representava apenas 7% do total. Em 2023, apesar da redução para 99 mil focos ativos, o percentual saltou para 20%. Essa tendência continuou em 2024, quando, com 140 mil focos ativos, a participação do fogo subiu para 27%. Já em 2025, mesmo com a redução dos focos ativos para 43 mil, o desmatamento causado pelo fogo passou a representar 38% do total. Ou seja, apesar da queda do desmatamento total, o fogo tem ocupado uma proporção cada vez maior da perda florestal.
Seja pelo corte raso ou pela degradação causada pelo fogo, o resultado final é semelhante: perda de biodiversidade, emissão de carbono e enfraquecimento do papel da Amazônia no equilíbrio climático regional. No caso dos incêndios, porém, há um impacto adicional e direto sobre a população humana.
A fumaça gerada pelos incêndios florestais está associada a doenças cardíacas e respiratórias que atingem cerca de 140 mil pessoas por ano. O efeito tóxico dessa fumaça tem reduzido a expectativa de vida na Amazônia em dois a quatro anos. A máxima poluição do ar por queimadas e a maior redução da expectativa de vida concentram-se no sudoeste da Amazônia, abrangendo a Amazônia boliviana e os municípios do Acre, sul do Amazonas, sul do Pará e norte de Mato Grosso.
A combinação perigosa entre clima e atividades humanas
O fogo na Amazônia não é um fenômeno puramente natural. Ele é, sobretudo, resultado de atividades humanas insustentáveis e ilícitas. Estudos do INPE indicam que cerca de 95% dos focos de fogo registrados na Amazônia em 2023 e 2024 tiveram origem humana. Nesse período recente, uma parcela significativa desses incêndios foi provocada pelo crime organizado, que encontrou no uso do fogo uma forma barata e eficaz de desmatar a floresta.
O fogo é usado principalmente para limpar áreas agrícolas, eliminando a vegetação em regeneração ou os resíduos deixados após o desmatamento com motosserras ou correntão. Além de remover a vegetação indesejada, o fogo também é empregado para liberar nutrientes em solos geralmente pobres em minerais essenciais ao crescimento de pastagem e de soja.
O fogo também é utilizado na grilagem de terras, prática que consiste no roubo de terras públicas ou não destinadas. Quando esse uso é mal controlado, o fogo pode se espalhar para áreas florestais adjacentes. Segundo dados do MapBiomas, entre 1985 e 2024, a área queimada na Amazônia brasileira totalizou 88 milhões de hectares.
O fogo na Amazônia tem sido intensificado pelas mudanças climáticas. Os incêndios se concentram principalmente entre agosto e outubro, período em que as chuvas diminuem, especialmente no sul da Amazônia. Essa sazonalidade na precipitação é um fenômeno natural, mas o aumento da temperatura global torna a floresta cada vez mais suscetível ao fogo provocado por atividades humanas nesse período de estiagem.
O impacto sobre a floresta é profundo e cumulativo. Após um primeiro incêndio, muitas árvores sobrevivem, mas ficam enfraquecidas. Um segundo ou terceiro evento de fogo é fatal para pelo menos 50% das árvores atingidas. Assim, a estrutura da floresta muda: árvores mais altas caem, a biomassa diminui e o número de espécies reduz. Com o tempo, a floresta queimada recorrentemente se torna mais baixa e aberta, composta por espécies mais adaptadas ao fogo e a um clima mais seco e quente. O resultado é uma transição gradual, de floresta densa para paisagens semelhantes a savanas degradadas.
Não há dúvida: sem controle adequado, autorização ambiental e fiscalização rigorosa e punitiva, o fogo deixará de ser uma ferramenta de manejo da terra e passará a atuar como um dos principais vetores de desmatamento na Amazônia nas próximas décadas.
Reduzir o desmatamento direto de origem humana não é suficiente
A queda recente nas taxas totais de desmatamento é uma conquista importante e deve ser reconhecida. No entanto, se o avanço do desmatamento causado pelo fogo não for enfrentado de forma efetiva, os ganhos obtidos nos últimos anos tendem a ser temporários.
Proteger a Amazônia exige ir além do combate ao corte raso. É necessário investir em novos sistemas de monitoramento de incêndios, o que se torna possível com o lançamento de novos satélites e sensores, a melhoria da qualidade das imagens históricas, o desenvolvimento de ferramentas e procedimentos mais eficientes para extração e cruzamento de dados e o aumento da maturidade dos produtos de monitoramento, resultado de esforços contínuos de validação.
O monitoramento de incêndios na Amazônia é realizado pelo INPE desde 1998. Fortalecer o INPE, com recursos humanos e tecnológicos, é fundamental para transformar a detecção de incêndios por satélite em ações rápidas e efetivas de combate ao fogo, especialmente em anos de seca extrema, quando o risco é maior. Esse esforço precisa ser acompanhado de um fortalecimento da gestão ambiental em nível municipal.
Ao mesmo tempo, é essencial ampliar programas que incentivem técnicas alternativas de uso e manejo da terra que dispensem a queima. Isso inclui apoio direto a produtores e proprietários rurais, com incentivos financeiros e políticas públicas que valorizem práticas produtivas sustentáveis. Estudos da EMBRAPA já demonstraram que a roça sem fogo é muito mais produtiva e rentável.
Por fim, é fundamental evitar o financiamento público a propriedades rurais com histórico recorrente de uso do fogo, além de combater o crime organizado, que tem utilizado o fogo como estratégia de desmatamento e, assim, reduzido a efetividade das políticas públicas de controle do desmatamento. Sem a adoção desse conjunto de medidas preventivas e proativas, o fogo assumirá proporções cada vez maiores no desmatamento da floresta amazônica.