Nos últimos anos, a sociobioeconomia emergiu como uma das grandes esperanças para promover um desenvolvimento sustentável, especialmente em países com imensa biodiversidade, como o Brasil. A premissa é clara: o uso sustentável dos recursos naturais pode ser um caminho para o desenvolvimento econômico e a conservação ambiental. No entanto, essa visão esconde desafios e limitações significativos.
A sociobioeconomia no Brasil está inserida majoritariamente no setor primário, um setor historicamente frágil e vulnerável às oscilações de mercado e à competição internacional. Para realmente compreendermos os desafios de depositar grandes esperanças nessa sociobioeconomia, é fundamental analisar seu contexto e aprender com os exemplos de setores primários que enfrentaram crises ao longo da história.
Um dos casos mais emblemáticos da vulnerabilidade do setor primário no Brasil foi o colapso do setor de borracha. No auge do ciclo da borracha, no início do século 20, a Amazônia brasileira prosperava com a extração do látex da seringueira, um produto que parecia destinado a se consolidar como um pilar da economia nacional.
No entanto, essa riqueza se desfez rapidamente por meio de um processo de biopirataria. Na Malásia, o plantio planejado de seringueiras da Amazônia aumentou significativamente a produção de borracha com menor custo. Com isso, o Brasil rapidamente se tornou não competitivo nesse mercado. Esse episódio revelou uma dura lição sobre a fragilidade de uma economia que está sujeita a variáveis externas e à competição que pode vir a qualquer momento de outras nações.
Outro exemplo é o da produção de cacau, outra espécie amazônica que teve uma ascensão econômica passageira. Ele teve seu momento de auge, especialmente no sul da Bahia, e depois declinou devido à sua expansão em outros países africanos e asiáticos, ao mesmo tempo em que essas monoculturas de cacau foram o principal vetor de desmatamento das florestas tropicais desses países da África Equatorial ocidental. Essa expansão veio acompanhada de custos de produção mais baixos e de maiores investimentos em pesquisas voltadas ao aumento da produtividade e à resistência a doenças, como a praga da vassoura-de-bruxa.
Esses exemplos da borracha e do cacau revelam o risco de colocar expectativas de desenvolvimento econômico em um setor que não tenha barreiras de entrada técnicas, e que, por isso, pode ser facilmente abalado por mudanças na economia global. Essas mudanças, por sua vez, podem, inclusive, ser provocadas e incentivadas por atores internacionais aos países de produção que buscam matérias-primas mais baratas.
Ao longo da história, ficou claro que as nações que se destacaram economicamente não o fizeram apostando exclusivamente no setor primário. Desde a Revolução Industrial, sabemos que o desenvolvimento de setores industriais e de pesquisa e inovação gera empregos com melhores remunerações.
A China, por exemplo, oferece lições importantes. Em vez de depender exclusivamente do setor agrícola, o país asiático enfrentou pressões externas e resistiu à dependência de potências econômicas estrangeiras. Sua aposta em educação e infraestrutura permitiu uma rápida escalada para a indústria de transformação e, mais tarde, para o setor de alta tecnologia. A China conseguiu não apenas verticalizar cadeias de valor em setores essenciais, mas também criar uma sólida base de inovação que ampliou a competitividade global do país em áreas estratégicas como eletrônicos, automóveis e energia. Esse caminho foi pavimentado por investimentos públicos em pesquisa e desenvolvimento, políticas de proteção e incentivo à indústria local e um compromisso claro com a capacitação da população.
No Brasil, parece que essa visão de desenvolvimento industrial e tecnológico, que já esteve presente em algumas décadas do século passado, vem se dissipando. A desindustrialização nacional é uma realidade, e cada vez mais o país se volta para o setor primário, como se não restassem outras alternativas. Ao acelerarmos grandes partes do setor de extração de recursos naturais, e criarmos uma ilusão de inovação sem avançar na agregação de valor via efetiva bioindustrialização, isso, na prática, esconde uma realidade menos promissora: estamos dando uma nova roupagem a um setor que, sozinho, dificilmente gerará uma solução de que o país precisa.
Embora o fortalecimento do setor primário claramente gere benefícios, como mitigação das mudanças climáticas e preservação da biodiversidade, esses benefícios são, em grande parte, percebidos em escala global, fora do Brasil, enquanto o valor econômico capturado pelo país segue limitado pelas "leis de concorrência" do mercado. Isso traz à tona uma reflexão sobre o futuro do Brasil. Apostar numa economia mais baseada na biodiversidade enquanto se passa por um processo de desindustrialização é correr o risco de reproduzir um modelo de desenvolvimento que mantém o país em uma posição subalterna no cenário global, enquanto outros países seguem avançando na criação e manutenção de cadeias produtivas de maior valor agregado.
Para que a sociobioeconomia seja de fato uma estratégia de desenvolvimento, é necessário integrá-la a uma política industrial nacional, que desenvolva mão de obra qualificada, que permita que empresas ganhem escala e desenvolvam internamente produtos de alto valor agregado. A sociobioeconomia deve ser uma peça do mosaico maior de planejamento e desenvolvimento nacional.
O Brasil tem os recursos da biodiversidade, o talento e o conhecimento para construir um futuro que vá além do setor primário. A pergunta que fica é: temos a ambição de perseguir essa visão, ou continuaremos a nos contentar com a posição de provedor de matérias-primas para o mundo, vestida com a promessa de uma economia que, sozinha, seguirá sujeita aos nossos problemas estruturais?
Colaborou Pedro Gasparinetti, economista ambiental com mais de 15 anos de experiência em métodos de valoração econômica. Atualmente, é diretor de Inovação no CSF-Brasil (Conservation Strategy Fund)